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Educar para a mídia exige pensamento crítico e diálogo diante dos desafios da inteligência artificial

Em live promovida pela SIGNIS Brasil, especialistas em Educomunicação discutiram os impactos das tecnologias digitais sobre aprendizagem, relações humanas e circulação de informações e defenderam educação midiática como caminho para o uso consciente das n

Há 10 horas

Em um cenário marcado pela expansão da inteligência artificial, pelo excesso de informações e pelas mudanças na forma como crianças, jovens e adultos se relacionam com as mídias, educar para a comunicação tornou-se uma tarefa que ultrapassa os espaços formais de ensino. O tema esteve no centro da live “Educar pela Mídia em Tempos Complexos”, promovida pela SIGNIS Brasil como parte de um ciclo de encontros formativos sobre Educomunicação.

A conversa reuniu a jornalista e doutora em Ciências da Comunicação Irmã Helena Corazza, coordenadora do setor Educar para a Comunicação e Pesquisa da SIGNIS Brasil, e a jornalista, professora universitária e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) Silvia Torreglossa.

Na abertura, Helena destacou que a perspectiva educomunicativa compreende a comunicação como uma atividade que também possui responsabilidade formativa. Para ela, essa dimensão não está restrita à escola, mas atravessa o jornalismo, o entretenimento e os diferentes conteúdos produzidos e compartilhados nos meios de comunicação.

Todo comunicador é um educador. E nós educamos não só na escola, educamos pela mídia, pelos nossos programas, pelo jornalismo, pelo entretenimento”, afirmou.

Inteligência artificial: entre a negação e a adesão irrestrita

Parte significativa do debate foi dedicada aos impactos da inteligência artificial. As participantes defenderam que o avanço das novas tecnologias não deve ser enfrentado a partir de uma lógica de simples proibição ou de aceitação sem critérios, mas por meio de formação e discernimento.

Silvia Torreglossa classificou o atual período como um momento de transformação capaz de atingir diferentes profissões e dimensões da vida social. Para a professora, compreender as tecnologias é uma condição necessária para lidar criticamente com elas.

Não existe essa possibilidade de uma aceitação completa ou de uma negação completa”, afirmou. Segundo ela, é necessário “entender o que a gente está falando” antes de assumir posições sobre as novas tecnologias.

A reflexão também passou pela contribuição da Igreja Católica para o debate sobre inteligência artificial. Durante a live, Helena recordou documentos recentes do Magistério que abordam a relação entre tecnologia, inteligência humana e dignidade.

Segundo a jornalista, a preocupação eclesial não deve ser interpretada como rejeição à tecnologia. “A Igreja nunca se colocou para proibir, muito pelo contrário. Ela ajuda a pensar e ela quer que a gente pense de forma crítica”, ressaltou.

Para as debatedoras, portanto, a pergunta já não é simplesmente se as pessoas devem ou não utilizar a inteligência artificial, mas de que maneira serão impactadas por ela e quais critérios orientarão seu uso.

A escolha é como seremos impactados, como vamos usar. Essa é a forma inteligente de pensar”, resumiu Silvia.

Educação midiática começa pela escuta

Outro eixo da conversa foi a relação de crianças e adolescentes com as tecnologias. Em vez de concentrar a resposta exclusivamente em mecanismos de controle, Silvia chamou a atenção para a necessidade de manter canais de diálogo dentro das famílias.

Para a professora, proibições isoladas podem não ser suficientes diante da presença cotidiana das plataformas digitais. A construção de vínculos, por outro lado, pode criar condições para que crianças e adolescentes conversem sobre aquilo que encontram na internet, inclusive quando são expostos a conteúdos que provocam dúvidas ou desconforto.

A principal maneira de você chegar numa pessoa é você não fechar o canal do diálogo”, afirmou.

A educadora acrescentou que a escuta precisa acontecer sem julgamentos prévios. Quando o adulto se dispõe a compreender aquilo que a criança ou o adolescente está vivendo, aumenta a possibilidade de que situações problemáticas encontradas no ambiente digital sejam compartilhadas.

A reflexão avançou para uma questão anterior ao próprio uso das tecnologias: a capacidade dos adultos de reconhecer crianças e adolescentes em sua singularidade. Ao recordar uma conversa com a própria filha, Silvia destacou uma frase que sintetiza essa perspectiva: “Você sempre me escutou como quem eu sou”.

Telas na escola e o desafio de educar para escolhas

A restrição ao uso de celulares nas escolas também apareceu no debate. Ao comentar experiências em sala de aula, Silvia reconheceu a importância de preservar momentos educativos livres da interferência constante das telas, mas observou que a aplicação das restrições exige políticas institucionais e não pode ser transferida exclusivamente aos professores.

Segundo a docente, simplesmente determinar que o estudante não utilize o aparelho, mantendo-o consigo durante a aula, tende a gerar dificuldades, sobretudo em turmas numerosas.

Ao mesmo tempo, as participantes diferenciaram o uso indiscriminado das telas de sua utilização pedagógica. Recursos digitais podem contribuir com a aprendizagem quando inseridos em uma proposta educativa específica. O desafio, portanto, está em estabelecer intencionalidade, limites e critérios para sua utilização.

Para Helena, essa perspectiva ajuda a compreender por que a educação é mais duradoura do que a simples proibição.

Proibir não é o caminho. O caminho é educar”, afirmou.

Tecnologia e a “economia do pensamento”

A live também abordou possíveis impactos das tecnologias digitais sobre leitura, concentração e produção do conhecimento. As participantes chamaram atenção especialmente para o risco de transferir às ferramentas tecnológicas tarefas que fazem parte do próprio processo cognitivo.

Helena definiu o fenômeno como uma espécie de “economia de pensamento”: ao delegar continuamente processos de leitura, síntese e elaboração, o usuário pode deixar de exercitar capacidades necessárias à formação crítica.

Silvia relatou perceber, inclusive entre universitários, maior dificuldade diante de textos extensos. Segundo ela, a questão não atinge apenas as novas gerações.

Eu também, hoje, tenho mais dificuldade para ler textos longos do que antes”, reconheceu.

Nesse contexto, a inteligência artificial apresenta uma questão que vai além da eficiência tecnológica: até que ponto uma ferramenta potencializa capacidades humanas e em que momento passa a substituir processos necessários à aprendizagem?

A preocupação dialoga com uma das ideias centrais apresentadas ao longo do encontro: a tecnologia deve permanecer subordinada à dignidade humana e ao bem comum, e não o contrário.

Desinformação: se não checou, não compartilhe

Na parte final da conversa, o debate voltou-se para a circulação de conteúdos falsos, manipulados ou retirados de contexto. Para as especialistas, a educação midiática também passa pela responsabilidade individual antes de compartilhar uma informação.

Silvia apresentou um princípio simples para a rotina digital: quando não houver condições de verificar a procedência de determinado conteúdo, a melhor decisão é interromper sua circulação.

Você tem sempre que checar uma informação antes de passar adiante. ‘Ah, mas isso leva muito tempo.’ Então não passe adiante”, afirmou.

A professora lembrou ainda que a desinformação não se limita a conteúdos completamente falsos. Informações verdadeiras podem ser republicadas anos depois, sem contexto, fazendo com que acontecimentos antigos sejam interpretados como atuais.

Por isso, verificar a fonte, a data, o contexto e a origem do material são práticas fundamentais antes do compartilhamento. “Se você não tem certeza da fonte, aquilo simplesmente não passa adiante”, reforçou.

Educomunicação como modo de estar no mundo

Mais do que ensinar técnicas de verificação ou ferramentas digitais, a conversa apresentou a Educomunicação como uma postura diante da comunicação. Para Helena Corazza, trata-se de aprender a pensar, dialogar e produzir coletivamente.

Ser educomunicativo é um estilo, é um modo de ser, não é só usando ou não as tecnologias”, explicou.

Essa perspectiva também alcança as famílias. Silvia sugeriu que pais e responsáveis procurem conhecer os conteúdos consumidos pelos filhos, assistindo a séries, conhecendo jogos e criando momentos de convivência mediados pela cultura e pela comunicação. Mais do que vigiar, a proposta é transformar a experiência midiática em oportunidade de conversa, interpretação e formação.

A live “Educar pela Mídia em Tempos Complexos” abriu um ciclo de encontros promovido pela SIGNIS Brasil. A proposta é reunir, nas próximas edições, pesquisadores e profissionais para discutir diferentes dimensões da comunicação, da educação e da cultura.

Ao encerrar o encontro, Helena reafirmou a perspectiva que orienta a atuação da associação: colocar a comunicação a serviço de uma cultura de paz e fortalecer uma atuação comunicacional capaz não apenas de transmitir informações, mas de contribuir para a formação crítica das pessoas.