Acolhimento e pertença são caminhos para reacender a vida comunitária na Igreja, afirma Dom Severino Clasen
Dom Severino Clasen e dois leigos engajados refletem sobre missão, serviço e os desafios para fortalecer o vínculo dos fiéis com a vida comunitária da Igreja
A vivência da fé desde a infância foi determinante na trajetória do jornalista Emerson Tersigni, de 28 anos, e da auxiliar administrativa Julia Goulart, de 30 anos. Em um contexto marcado pelo distanciamento de muitos católicos da vida comunitária, ambos testemunham que o engajamento pastoral é um caminho concreto para fortalecer o sentimento de pertença e renovar a missão da Igreja.
Emerson atua como cerimoniário e integra a Pastoral da Comunicação (Pascom) da Paróquia Imaculada Conceição, em Jacareí (SP). Julia é membro da Pascom e ministra extraordinária da Sagrada Eucaristia da Basílica Menor Imaculada Conceição, em Cruzeiro (SP). Para eles, servir na Igreja não é apenas uma função, mas uma resposta ao chamado de Deus.
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB entre 2011 e 2019, o arcebispo metropolitano de Maringá (PR), Dom Severino Clasen, destaca que o envolvimento dos leigos nas pastorais é decisivo para manter vivo o vínculo com a Igreja. “Quanto menos envolvimento, mais esfria o sentimento de pertença. Temos carência de lideranças pastorais — eis um desafio a ser superado”, afirma.
Acolhimento que gera pertença
Ao recordar uma recente advertência do Papa Leão XIV — “Igrejas vazias refletem falta de sentimento de pertença” — Dom Severino ressalta que, nos primeiros séculos do cristianismo, a centralidade em Jesus era o principal motor da fé. Com o passar do tempo, porém, a institucionalização contribuiu para o esfriamento dessa relação. “Hoje enfrentamos o perigo do intimismo e da autorreferencialidade, que enfraquecem o testemunho e o compromisso com a fé”, analisa.
Para Emerson, o afastamento muitas vezes nasce do medo de assumir responsabilidades. “Deus quer contar conosco. Evangelizar é urgente, e o envolvimento também”, afirma.
Dom Severino reforça que a Igreja precisa voltar-se às periferias, às pequenas comunidades e às ações pastorais marcadas pelo cuidado e pela sensibilidade. Segundo ele, muitas pessoas se afastaram por não se sentirem acolhidas. “Enquanto nos contentávamos em encher a matriz, abandonamos muitos fiéis. Outros credos ocuparam espaços que nós deixamos”, lamenta.
Julia destaca que o serviço pastoral fortalece os laços comunitários e possibilita a convivência com testemunhos vivos de fé. “O esforço diário de cada um para servir por Jesus torna o ordinário extraordinário”, afirma. Para ela, quem serve também é chamado a convidar outros a fazerem essa experiência.
Igreja em saída
Ser presença evangelizadora, simples e humana é, para Dom Severino, o caminho para acolher aqueles que se afastaram da Igreja, mas não de Deus. “O Papa Francisco insistiu na Igreja em saída, e o Papa Leão XIV reforça esse apelo: ir ao encontro, ouvir, acolher, cuidar”, destaca.
O arcebispo enfatiza que padres e lideranças precisam exercer sua missão com coração pastoral, e não apenas como função. “É preciso mais alma e menos profissionalismo na pastoral”, afirma. Para ele, a ação evangelizadora deve refletir o modo de Jesus: próximo do povo, compassivo e comprometido. “Precisamos encurtar distâncias, sair da zona de conforto e anunciar o Evangelho com simplicidade e autoridade”, sublinha.
Dom Severino alerta ainda que o moralismo afasta mais do que integra. A Igreja, recorda, é guardiã do Evangelho que promove unidade, fraternidade e justiça — sinais do Reino de Deus. “Arrebatar corações exige uma espiritualidade do encontro”, afirma.
Despertar para o servir
Dom Severino observa um crescimento na procura dos jovens pelos sacramentos, realidade refletida também nas histórias de Emerson e Julia. Ambos relatam que o sentimento de pertença se fortaleceu a partir da participação em encontros preparatórios e na Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro.
“A vida é transformada quando nos doamos à missão evangelizadora. A pertença nasce da experiência concreta com Cristo, renovada diariamente”, afirma Emerson, que iniciou sua caminhada como coroinha aos seis anos e, ao longo do tempo, assumiu diferentes serviços na comunidade.
Julia também começou como coroinha na infância e destaca a importância de pessoas que acreditaram em seu potencial. “Servir a Deus me aproximou de Jesus e amadureceu minha fé”, afirma. Para ela, os dons recebidos não podem ser enterrados. “De graça recebemos, de graça devemos dar. Nossos talentos precisam ser cultivados para frutificar”, conclui.
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