Entre crises e esperanças, Igreja no Brasil discerne sua missão em um mundo em transformação
Análises na Assembleia da CNBB apontam desafios de uma “policrise” global e convocam à conversão pastoral diante de novas formas de crer
No terceiro dia da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em Aparecida, a Igreja no Brasil voltou seu olhar para além de si mesma. Em um exercício profundo de escuta e discernimento, os bispos se debruçaram sobre as transformações que atravessam o mundo contemporâneo — e sobre como a fé cristã é vivida, questionada e ressignificada nesse contexto.
As tradicionais análises de conjuntura social e eclesial abriram um horizonte exigente: compreender uma realidade marcada por múltiplas crises simultâneas. O cenário foi descrito como uma “policrise” — um entrelaçamento de conflitos globais, tensões políticas e instabilidades econômicas que impactam diretamente a vida das pessoas.
No plano internacional, a transição para uma ordem multipolar, atravessada por conflitos envolvendo potências como Estados Unidos, Israel e Irã, projeta efeitos que ultrapassam fronteiras, atingindo mercados, relações diplomáticas e a própria estabilidade social. Já no Brasil, o desgaste das instituições democráticas e a polarização política acendem sinais de alerta, especialmente em um ano eleitoral.
Nesse cenário, questões como o custo de vida e a crise ambiental — intensificadas pela preparação para a COP 30 — emergem como temas centrais, revelando uma sociedade tensionada entre urgências concretas e incertezas quanto ao futuro.
Mas não é apenas o mundo que muda. A própria experiência religiosa também se transforma.
Sob a condução de Dom Joel Portella, a análise eclesial destacou uma mudança significativa no perfil do fiel brasileiro. O país não se tornou menos religioso, mas a fé deixou de ser uma herança automática para se tornar uma escolha cada vez mais pessoal, fragmentada e, muitas vezes, desvinculada da comunidade.
O fenômeno do “crer sem pertencer” aparece como um dos grandes desafios pastorais da atualidade. Trata-se de uma religiosidade que preserva símbolos e valores, mas que não se traduz necessariamente em compromisso comunitário ou vivência eclesial.
Diante disso, a Igreja é chamada a uma conversão pastoral profunda: abandonar posturas de mera conservação e assumir uma atitude missionária permanente, centrada no encontro pessoal, no acolhimento e na reconstrução de vínculos.
Para Dom Jesús María López Mauleón, o momento atual revela uma verdadeira encruzilhada espiritual. Categorias tradicionais como “cristandade” ou “pós-cristandade”, segundo ele, já não são suficientes para explicar a complexidade de uma sociedade marcada pela fluidez das relações e pela mediação crescente das tecnologias, como a inteligência artificial.
Sua análise toca em uma tensão concreta: a distância entre o rito e a vida. “Talvez doa dizer que somos muito religiosos, mas com pouca fé”, provoca o bispo, ao apontar para uma religiosidade que, por vezes, se esgota no sentimento individual, sem gerar compromisso com o outro ou com a transformação da realidade.
Essa desconexão se revela no cotidiano: entusiasmo momentâneo que não se sustenta, discursos de fé que não se traduzem em prática, pertença fragilizada diante das exigências do discipulado.
A partir da experiência vivida junto à Conferência Eclesial da Amazônia, Dom Jesús amplia a reflexão e lança perguntas decisivas: que tipo de Igreja a realidade atual exige? Que perfil de leigos, ministros ordenados e comunidades é necessário para responder aos desafios de hoje?
Mais do que reformas estruturais, ele aponta para a urgência de comunidades vivas, convertidas e alegres — capazes de testemunhar o Evangelho com autenticidade. O caminho, segundo ele, passa pelo retorno à essência missionária: “Ide e anunciai”.
Nesse horizonte, a Iniciação à Vida Cristã aparece como eixo fundamental, pois somente o encontro pessoal com Jesus pode gerar pertencimento, renovar a fé e devolver credibilidade à presença da Igreja no mundo.
Também no debate sobre as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, emergem diferentes sensibilidades. Uma das contribuições mais significativas veio de Dom Antônio de Assis Ribeiro, que propôs uma mudança de enfoque na elaboração do documento.
Para ele, mais do que iniciar com diagnósticos técnicos e análises extensas da realidade, o texto deve ser um convite: animador, esperançoso, capaz de despertar o desejo de viver o Evangelho. A proposta desloca o eixo da análise para o anúncio, da constatação para a inspiração.
A tarde também foi marcada por decisões institucionais, como a despedida de Dom Teodoro Mendes Tavares, que assume nova missão em Cabo Verde, e a eleição de Dom Rodolfo Weber para a presidência da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.
Mas, para além das decisões, o que permanece é o horizonte: em meio a crises múltiplas, a Igreja reafirma sua vocação de ser presença de esperança.
Não uma esperança ingênua, que ignora os conflitos, mas uma esperança comprometida — que escuta, dialoga e se coloca como mediadora de paz e justiça. Uma Igreja que, diante das incertezas do mundo, insiste em anunciar que o Evangelho continua sendo caminho de sentido, comunhão e solidariedade.
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