Na reta final, diretrizes da Igreja no Brasil revelam caminhos de sinodalidade, cuidado e missão
Assembleia da CNBB avança na definição das novas diretrizes, integrando liturgia, ecologia e compromisso social no horizonte evangelizador
Em Aparecida, onde a fé do povo brasileiro encontra expressão simbólica e espiritual, a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil se aproxima de um momento decisivo. Os trabalhos entram em sua fase final com o olhar voltado para aquilo que orientará a missão da Igreja nos próximos anos: as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil (DGAE).
Mais do que um documento, o que se constrói é um horizonte comum — tecido a partir da escuta, do discernimento e da corresponsabilidade entre as Igrejas particulares.
Ao longo dos dias, as diretrizes foram sendo debatidas, ajustadas e aprofundadas. Agora, na reta final, o esforço se concentra em consolidar um texto que seja, ao mesmo tempo, fiel ao Evangelho e sensível às urgências do tempo presente.
Mas o caminho da Assembleia não se limita às diretrizes.
Entre os temas que emergem, a liturgia aparece como espaço vivo de atualização da fé. A Comissão Episcopal para a Liturgia apresentou revisões e novos formulários, buscando adaptar textos provenientes do Vaticano à realidade brasileira. Trata-se de um movimento que revela uma Igreja atenta à inculturação — capaz de acolher a tradição sem perder de vista o contexto em que ela é celebrada.
Entre as propostas, destaca-se a criação de um formulário específico para missas voltadas ao cuidado da criação. A iniciativa amplia o horizonte litúrgico ao integrar, de forma mais explícita, a dimensão ecológica à espiritualidade cristã.
Para Dom Hernaldo Pinto Farias, presidente da Comissão de Liturgia da CNBB, a proposta permite que as comunidades celebrem o cuidado com a Casa Comum ao longo de todo o ano, respeitando o calendário litúrgico e suas especificidades.
A preocupação com o tempo presente também se manifesta na atenção às novas gerações. A possível alteração da data da memória de Carlo Acutis — jovem que se destacou pela evangelização no ambiente digital, revela a sensibilidade da Igreja em dialogar com o universo juvenil e com as linguagens contemporâneas.
Segundo Dom José Belisário da Silva, a figura de Acutis inspira uma reflexão mais profunda sobre a evangelização digital, especialmente em um tempo marcado pela presença crescente da tecnologia na vida cotidiana.
Outro eixo fundamental que atravessa os debates é o caminho do Sínodo sobre a Sinodalidade. Em sua intervenção, Dom Joel Portella Amado destacou que o grande desafio da Igreja agora é transformar as reflexões sinodais em prática concreta.
“O encontro sinodal terminou, mas o processo continua”, indicou, ao apresentar o itinerário de implementação que se estende até 2028.
O percurso prevê etapas progressivas — diocesanas, regionais e nacionais — em um movimento descrito como “ascendente”, onde a escuta das bases se torna fundamento para as decisões mais amplas. Mais do que um método, trata-se de uma espiritualidade: caminhar juntos, partilhar experiências e construir comunhão.
No horizonte social, a Assembleia também reafirma seu compromisso com os mais vulneráveis. O lançamento do edital do Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), ligado à Campanha da Fraternidade 2026, evidencia essa dimensão concreta da missão.
Com o tema “Fraternidade e Moradia” e inspirado no versículo “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), o fundo apoiará projetos voltados à promoção da moradia digna. As iniciativas contemplam desde ações emergenciais até projetos estruturantes e formativos, reconhecendo a moradia como direito fundamental e expressão da dignidade humana.
Nesse sentido, a evangelização se revela inseparável da realidade: anunciar o Evangelho também é promover condições concretas de vida.
À medida que a Assembleia se aproxima de sua conclusão, o que emerge não é apenas um conjunto de decisões, mas um retrato de Igreja. Uma Igreja que busca integrar tradição e inovação, espiritualidade e compromisso social, liturgia e vida.
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