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Congresso no Vaticano debate como preservar o humano diante da inteligência artificial

Especialistas em jornalismo, tecnologia e ética digital discutem riscos, oportunidades e responsabilidades no uso de sistemas algorítmicos

Há 1 hora - por da redação com Vatican News
Os palestrantes da segunda sessão do congresso   (@Fatima Mesaud Barreras)/ foto: Vatican Media
Os palestrantes da segunda sessão do congresso (@Fatima Mesaud Barreras)/ foto: Vatican Media

A mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, dedicada à preservação de vozes e rostos humanos na era da inteligência artificial, foi tema de um congresso internacional realizado na Pontifícia Universidade Urbaniana. O encontro reuniu 14 especialistas de diferentes países para discutir os impactos da IA sobre a informação, as relações humanas, as desigualdades e a responsabilidade ética.

Promovido pelo Dicastério para a Comunicação, em colaboração com o Dicastério para a Cultura e a Educação, o congresso teve como tema “Preservar vozes e rostos humanos”. A pergunta central atravessou as intervenções: como proteger a dignidade da pessoa em um ambiente informativo e relacional cada vez mais influenciado por algoritmos?

Algoritmos e informação pública

A professora Marijana Grbeša Zenzerović abriu o debate ao analisar a transformação do ecossistema midiático. Segundo ela, a mídia tradicional perdeu parte de sua centralidade, enquanto algoritmos passaram a atuar como novos mediadores da informação.

Entre os jovens, redes sociais, criadores de conteúdo e influenciadores ocupam espaço crescente na formação de opinião. O risco, segundo a pesquisadora, é a ampliação da desinformação, especialmente com o avanço da IA generativa, capaz de produzir imagens, vídeos e identidades sintéticas com alto grau de credibilidade.

Relações humanas e chatbots

A jornalista Kashmir Hill abordou o impacto dos chatbots nas relações pessoais. Ela alertou que essas ferramentas podem parecer empáticas e acolhedoras, mas são desenhadas para manter o engajamento do usuário.

Segundo Hill, o risco aumenta quando pessoas passam a buscar nessas tecnologias escuta, validação e orientação emocional. A jornalista citou o caso de Adam Raine, adolescente de 16 anos que morreu após conversas prolongadas com um chatbot, como alerta para os efeitos possíveis desse tipo de interação.

Jornalismo, verdade e confiança

O uso da IA no jornalismo também esteve em pauta. Vineet Khosla apresentou exemplos de integração da tecnologia em processos editoriais, como automação de tarefas repetitivas, pesquisa documental, ferramentas interativas e produção de conteúdos em áudio.

Para ele, a IA pode fortalecer o trabalho jornalístico, desde que não substitua a responsabilidade editorial. A verdade e a confiança do público devem permanecer como critérios centrais.

Eli Pariser ampliou a reflexão para a qualidade da vida digital. Segundo ele, plataformas que prometem conexão muitas vezes produzem solidão, porque são estruturadas para maximizar atenção e receita. Para Pariser, a IA pode seguir dois caminhos: aprofundar dependências ou ser desenvolvida para favorecer relações autênticas e bem-estar coletivo.

Desigualdades e colonialismo digital

No painel sobre desigualdades, Paola Ricaurte Quijano criticou o caráter extrativista do modelo tecnológico atual. Segundo ela, a concentração de poder e riqueza em torno da IA se apoia na exploração de trabalho invisível, recursos de países mais pobres e dados pessoais dos usuários.

A pesquisadora alertou que modelos algorítmicos podem reproduzir lógicas coloniais e racistas, apagando culturas, línguas e experiências marginalizadas.

O pesquisador sul-africano Benjamin Rosman também destacou riscos éticos ligados à simulação de empatia por modelos linguísticos. Segundo ele, a credibilidade dessas ferramentas exige cuidado, especialmente quando são usadas por jovens como substitutas de acompanhamento psicológico.

Controle humano e direitos

A ativista Joy Buolamwini encerrou uma das sessões com um alerta sobre discriminações em sistemas de reconhecimento facial. Ela denunciou preconceitos raciais e de gênero incorporados em tecnologias que já resultaram em erros e prisões injustas.

Buolamwini também chamou atenção para o risco de uma sociedade marcada por vigilância e pelo uso de armas autônomas. Seu apelo foi pela criação de regras internacionais, controle humano e direitos bem definidos antes que a velocidade da inovação ultrapasse a capacidade ética de governá-la.

O congresso reforçou que a discussão sobre inteligência artificial não é apenas técnica. Para a Igreja e para a sociedade, trata-se de uma questão humana, social e ética. Preservar vozes e rostos humanos significa garantir que a tecnologia esteja a serviço da dignidade, da verdade e das relações concretas entre as pessoas.

 
 

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