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Exposição precoce à pornografia amplia alerta sobre proteção de crianças

Especialistas alertam para acesso involuntário a conteúdos pornográficos e defendem responsabilidade de famílias, plataformas digitais e poder público na proteção de crianças e adolescentes

Há 2 horas - por redação com Canção Nova
Perigos da internet para crianças e adolescentes /Foto: Canva
Perigos da internet para crianças e adolescentes /Foto: Canva

Considerada um pecado grave pela Igreja Católica, a pornografia é um desafio que ganha novas dimensões com a expansão do ambiente digital. O acesso facilitado a conteúdos impróprios e a exposição cada vez mais precoce de crianças e adolescentes colocam famílias, plataformas digitais e poder público diante da necessidade de ampliar os mecanismos de proteção.

O tema ganha atenção durante a Semana Nacional da Família. Para o diretor executivo e cofundador do Family Talks, Rodolfo Canônico, a responsabilidade pela proteção dos menores não pode ficar restrita aos pais. Empresas responsáveis por conteúdos pornográficos e plataformas digitais também devem adotar medidas que impeçam o acesso de crianças e adolescentes.

“É necessário, sim, que haja legislação que obrigue o mercado a assumir o seu papel, já que voluntariamente ele não assumiu de forma adequada”, afirma.

Exposição pode acontecer sem procura

Um dos principais pontos de atenção é o contato involuntário com a pornografia. Segundo Rodolfo, “mais da metade dos primeiros acessos à pornografia é sem querer”.

A facilidade de circulação desses conteúdos permite que crianças e adolescentes sejam expostos mesmo sem procurá-los diretamente.

“Não pode ser que um conteúdo de pornografia chegue para uma criança que não esteja procurando por ele”, alerta. Para Rodolfo, o cenário exige duas frentes de atuação: tornar o ambiente digital mais seguro e preparar as famílias para estabelecer mecanismos adequados de proteção.

Redes sociais e jogos também exigem atenção

A exposição não acontece apenas por meio do acesso direto a sites pornográficos. A psicóloga Aline Leite Nunes chama atenção para redes sociais, jogos on-line e conteúdos compartilhados entre as próprias crianças.

Outro risco está na atuação de adultos que utilizam perfis falsos para estabelecer contato com menores. Segundo a psicóloga, essas pessoas podem conquistar gradualmente a confiança das crianças e, posteriormente, solicitar imagens íntimas, que podem ser utilizadas para ameaças e novas formas de exploração.

“Começa uma conversa despretensiosa e vai ganhando a confiança, a amizade, e aquilo vai crescendo até que é pedido uma foto”, explica Aline.

Impactos podem aparecer no comportamento

Os efeitos da exposição à pornografia variam de acordo com cada criança ou adolescente. Aline explica que alguns podem apresentar retraimento, tristeza, sensibilidade ou isolamento. Outros podem manifestar comportamentos erotizados e tentar reproduzir conteúdos aos quais tiveram acesso.

“Se em alguns casos a pornografia pode assustar e traumatizar crianças e jovens, em outros pode aguçar a curiosidade e o interesse”, afirma.

Segundo a psicóloga, determinadas consequências podem não surgir imediatamente. Alterações de comportamento, agressividade e compreensões distorcidas sobre sexualidade e relacionamentos podem aparecer posteriormente.

A profissional destaca ainda que estudos associam o consumo de pornografia a alterações em mecanismos relacionados ao sistema de recompensa cerebral e a possíveis impactos no controle inibitório, na tomada de decisões e na regulação emocional. Também são observadas associações com sintomas de ansiedade, depressão e comportamentos compulsivos.

Proteção exige responsabilidade compartilhada

Entre as medidas defendidas por Rodolfo estão políticas públicas de educação digital, mecanismos eficazes de verificação de idade e iniciativas de orientação aos responsáveis.

Ele cita o ECA Digital como uma iniciativa voltada à criação de novas barreiras de proteção, por meio da exigência de mecanismos mais efetivos de controle etário em sites de pornografia.

“Isso é uma barreira de proteção a mais para as famílias”, afirma.

Dentro de casa, a recomendação é que crianças e adolescentes utilizem a internet preferencialmente em espaços comuns, com horários estabelecidos e supervisão. Filtros de conteúdo nos dispositivos e na rede doméstica também podem funcionar como mecanismos adicionais de proteção.

“As famílias não sabem o quão fácil é para uma criança acessar pornografia e, portanto, não colocam as proteções adequadas. É preciso virar esse cenário”, alerta Rodolfo.

Controle parental não substitui presença

Aline também recomenda ferramentas de controle parental em celulares, computadores e smart TVs, além do acompanhamento das atividades on-line dos filhos. No entanto, ela ressalta que nenhuma ferramenta tecnológica substitui a relação entre pais e filhos.

“Mais do que restringir o uso da ferramenta digital, é preciso estar perto, aumentar a percepção, aumentar o vínculo de confiança”, afirma.

A psicóloga orienta ainda que as famílias mantenham canais de diálogo para que crianças e adolescentes se sintam seguros para contar aos responsáveis situações de violência, aliciamento ou contato com conteúdos inadequados.

Igreja destaca educação e diálogo

A preocupação com os efeitos da pornografia também está presente no ensinamento da Igreja. O Catecismo da Igreja Católica, no número 2354, condena a produção e distribuição de material pornográfico. São João Paulo II abordou o problema em diferentes ocasiões, relacionando a pornografia à distorção da sexualidade humana, à exploração e aos prejuízos para o amadurecimento moral.

O Papa Francisco também denunciou a pornografia difundida pela internet como um ataque à dignidade humana e defendeu a mobilização de famílias, escolas, comunidades e autoridades para proteger crianças e enfrentar o problema também entre adultos.

Para o inspetor da Inspetoria Salesiana Nossa Senhora Auxiliadora, em São Paulo, padre Alexandre Luís de Oliveira, a família desempenha papel fundamental nesse processo educativo.

“A família tem a missão fundamental de educar as novas gerações à luz dos valores do Evangelho, da doutrina da Igreja, da moral católica e da moral sexual”, afirma.

Diante de uma eventual exposição, o sacerdote considera que a resposta não deve se limitar à repreensão. “Creio que o melhor caminho seja sempre o do diálogo aberto e, quando necessário, o auxílio da ciência, de um acompanhamento psicoterapêutico.”

Padre Alexandre reforça ainda a importância do tempo dedicado aos filhos e da construção de vínculos de confiança: “Continuem a crer na educação! Não terceirizem o tempo com os seus filhos”.

Diante de um ambiente digital no qual conteúdos pornográficos se tornaram mais acessíveis, a proteção de crianças e adolescentes exige, portanto, diferentes frentes: presença e diálogo familiar, educação digital, mecanismos tecnológicos de segurança, responsabilização das plataformas e atuação do poder público. Para a Igreja, esse cuidado está relacionado à formação integral da pessoa e à defesa da dignidade humana.

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