CNBB: prevenção de abusos deve integrar missão evangelizadora
Em encontro latino-americano sobre cultura do cuidado, dom Wellington de Queiroz afirma que proteção de menores e vulneráveis exige enfrentar silêncio, clericalismo e fragilidades institucionais
A prevenção dos abusos contra crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis precisa ser compreendida como parte da própria missão evangelizadora da Igreja. A afirmação é de dom Wellington de Queiroz Vieira, bispo de Cristalândia (TO) e presidente da Comissão para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Durante o IV Encontro da Rede Latino-americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado, o bispo apresentou os principais obstáculos para a consolidação de ambientes eclesiais seguros na América Latina e no Caribe e defendeu que a proteção seja incorporada às estruturas e práticas das Igrejas locais.
“Não há evangelização autêntica sem ambientes seguros”, afirmou.
A reflexão abordou aspectos teológicos e pastorais, características da realidade latino-americana e caminhos para fortalecer uma cultura de prevenção, escuta, responsabilização e reparação.
“Uma Igreja segura não tem medo da verdade”
Dom Wellington afirmou que o enfrentamento dos abusos não pode estar subordinado à preservação da imagem institucional.
“A dignidade de uma criança ou de uma pessoa vulnerável, na comunidade mais distante do nosso continente, vale mais do que a reputação da nossa instituição”, ressaltou.
Para o bispo, uma comunidade verdadeiramente comprometida com o Evangelho precisa tornar esse compromisso perceptível na maneira como acolhe e protege aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade.
“Uma Igreja segura não é uma Igreja sem conflitos, é uma Igreja que não tem medo da verdade.”
Ele acrescentou que uma Igreja segura também não é uma instituição que se apresenta como perfeita, mas aquela que é capaz de “aprender, corrigir, reparar e prevenir”.
Da mesma forma, alertou para o risco de colocar a reputação institucional acima das pessoas atingidas pelos abusos.
“Uma Igreja segura não é uma Igreja centrada em sua imagem, é uma Igreja centrada nas vítimas, nos pequenos e no Evangelho.”
Abuso não pode ser tratado apenas como pecado individual
Ao falar a partir de sua experiência como padre e, posteriormente, como bispo, dom Wellington destacou a mudança na maneira como a própria Igreja passou a compreender os abusos.
Segundo ele, durante muito tempo o problema foi abordado principalmente como pecado individual. Hoje, a compreensão precisa considerar também sua dimensão criminal, o trauma psicológico provocado nas vítimas, as feridas espirituais, as falhas de proteção e as relações de poder envolvidas.
Nesse contexto, o bispo retomou uma reflexão apresentada na abertura do encontro: a prevenção não pode ser responsabilidade de uma pessoa isolada.
O enfrentamento exige “rede, responsabilidade, vigilância, humildade e conversão”.
América Latina enfrenta cultura do silêncio e clericalismo
Ao analisar a realidade da América Latina e do Caribe, dom Wellington reconheceu a diversidade cultural e a forte presença católica no continente, mas apontou condições que podem dificultar a implementação de políticas de prevenção.
A região, segundo ele, é marcada por “desigualdades, distâncias, cultura de silêncio, machismo, clericalismo e fragilidades institucionais”.
Esses fatores exigem que protocolos e políticas de proteção não permaneçam apenas no campo documental, mas sejam efetivamente incorporados à vida das comunidades e instituições.
Entre os caminhos indicados pelo bispo estão a consolidação de uma cultura de proteção, aplicação de protocolos, criação de canais de escuta, formação permanente, prevenção no ambiente digital, fortalecimento da governança e trabalho articulado em rede.
Dom Wellington também ressaltou a importância da participação de leigos e mulheres e da escuta das vítimas na construção das políticas e práticas de cuidado.
Proteção antes que o abuso aconteça
Para o presidente da Comissão da CNBB, uma cultura do cuidado não pode se limitar à resposta oferecida depois de uma denúncia. A prevenção precisa atuar antes que a violência aconteça.
Ele sintetizou o compromisso esperado das Igrejas locais em diferentes etapas: proteger preventivamente, escutar quando a dor é revelada, agir com justiça diante das denúncias, reparar as falhas, formar continuamente e prestar contas.
“Que cada Igreja local da América Latina e do Caribe possa assumir esse compromisso com coragem: proteger antes que o abuso aconteça; escutar quando a dor aparece; agir com justiça quando há denúncias; reparar quando houver falha; formar continuamente; prestar contas e colocar os vulneráveis no centro.”
A reflexão apresentada por dom Wellington teve como referência a dignidade inviolável da pessoa humana e relacionou a cultura do cuidado aos desafios contemporâneos envolvendo novas formas de poder, manipulação e vulnerabilidade.
Ao concluir, o bispo retomou a proteção das crianças como expressão concreta da própria missão cristã.
“Onde uma criança é protegida, aí o Evangelho se torna concreto.”
O IV Encontro da Rede Latino-americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado prossegue com rodas de conversa e partilha de experiências entre representantes das diferentes regiões do continente. A programação também prevê uma reflexão específica sobre abusos em ambientes digitais.
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