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Santuário do Caraça preserva história pioneira da energia em Minas

Tanque Grande nasceu de barragem construída no século XIX para abastecer uma das primeiras hidrelétricas do estado e hoje integra roteiro que reúne fé, história e natureza

Há 8 horas - por redação com Santuário do Caraça
Foto: divulgação Santuário do Caraça
Foto: divulgação Santuário do Caraça

Entre as montanhas da Serra do Espinhaço, a cerca de 120 quilômetros de Belo Horizonte, o Santuário do Caraça preserva uma história que une educação, desenvolvimento tecnológico, patrimônio religioso e conservação ambiental. Um dos testemunhos desse passado está no Tanque Grande, lago formado a partir de uma barragem construída em 1893 para levar energia elétrica ao então Colégio do Caraça.

A estrutura deu origem à segunda usina hidrelétrica de Minas Gerais, atrás da Usina de Marmelos, inaugurada em Juiz de Fora em 1889. Mais de 130 anos depois, o reservatório permanece integrado à paisagem do Santuário e se tornou um dos pontos de contemplação do complexo.

A história do Caraça, no entanto, começa antes. Em 1774, o Irmão Lourenço de Nossa Senhora construiu no local uma ermida dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens. O espaço se desenvolveu ao longo dos anos e abrigou o Colégio do Caraça, instituição responsável pela formação de diferentes gerações de estudantes. Entre seus ex-alunos está o ex-presidente da República Afonso Pena, matriculado em 1859.

Uma hidrelétrica no Caraça ainda no século XIX

Foi durante o período de funcionamento do Colégio, administrado pelos padres lazaristas, que surgiu uma das experiências pioneiras de geração de energia elétrica em Minas Gerais.

As águas do Tanque Grande foram represadas e, em 20 de novembro de 1893, passaram a integrar um sistema que permitiu iluminar eletricamente o Colégio do Caraça.

Durante o dia, a água movimentava o Engenho de Serra. À noite, era utilizada para acionar o dínamo responsável pela iluminação do edifício.

A usina permaneceu em funcionamento até 1959. O reservatório criado para abastecê-la deu origem a um lago com aproximadamente 400 metros de comprimento e 100 metros de largura.

“O Tanque Grande é um dos maiores tesouros do Caraça. Pouca gente imagina que aquele lago sereno foi, há mais de 130 anos, o coração de um projeto pioneiro que levou luz elétrica ao Colégio”, afirma o padre Adalberto Costa, diretor administrativo do Santuário do Caraça.

Segundo ele, atualmente o espaço permite ao visitante encontrar, em um mesmo lugar, elementos da história e da natureza preservada no complexo.

A memória do período em que a usina funcionava também aparece nos relatos de antigos moradores. O padre Lauro Palú, ex-aluno e posteriormente diretor do Santuário, recordava o trabalho necessário para manter o sistema em funcionamento.

“Me recordo de ver o irmão iluminando a trilha com uma lamparina à noite para desligar a usina.”

Tanque Grande é destinado à contemplação

Atualmente, o Tanque Grande pode ser alcançado por uma trilha plana de aproximadamente 1,5 quilômetro, que atravessa um trecho de Mata Atlântica.

O banho no reservatório não é permitido. O espaço é destinado à contemplação e à preservação ambiental.

Para os visitantes que procuram locais para banho, o próprio complexo oferece outras alternativas, entre cachoeiras, corredeiras e piscinas naturais.

A Cascatinha, localizada a cerca de dois quilômetros do Centro Histórico, reúne quedas d'água e piscinas naturais. Também a aproximadamente dois quilômetros está o Banho do Belchior, formado por uma corredeira que atravessa as rochas e cria diferentes pontos para banho.

Os Tabuões, a cerca de quatro quilômetros, possuem piscina natural, corredeiras e uma pequena formação de areia semelhante a uma praia fluvial.

Para quem busca um percurso mais longo, a Cascatona fica a aproximadamente seis quilômetros, com acesso por trilha pela Mata Atlântica. Já a Piscina do Caraça, com água corrente, está a menos de dois quilômetros do Centro Histórico e é um dos poucos atrativos naturais do complexo acessíveis de carro.

Outro destino é a Bocaina, vale formado por quedas d'água, córregos e piscinas naturais. Nesse caso, a visitação é limitada e exige acompanhamento de guia ou condutor cadastrado.

Patrimônio histórico cercado por biodiversidade

O Santuário do Caraça é tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Estadual e foi escolhido como uma das Sete Maravilhas da Estrada Real.

Seu conjunto arquitetônico abriga a primeira igreja em estilo neogótico do Brasil, além do prédio do antigo Colégio, atualmente ocupado pelo Museu e pela Biblioteca, e estruturas destinadas à hospedagem dos visitantes.

O patrimônio histórico está inserido em uma área de expressiva biodiversidade. Segundo dados do Santuário, já foram registradas no território 386 espécies de aves, 76 de mamíferos, 42 de répteis e 12 de peixes.

A Reserva Particular do Patrimônio Natural do Santuário do Caraça está localizada em uma região de transição entre Mata Atlântica e Cerrado e integra as Reservas da Biosfera da Serra do Espinhaço Sul e da Mata Atlântica.

O território também está inserido na Área de Proteção Ambiental ao Sul da Região Metropolitana de Belo Horizonte e abriga nascentes relacionadas às bacias dos rios São Francisco e Doce.

Fé, história e natureza no mesmo território

A combinação entre patrimônio religioso, memória da educação, biodiversidade e recursos hídricos ajuda a explicar a configuração atual do Caraça como destino de peregrinação e turismo.

Para quem parte de Belo Horizonte, são cerca de 120 quilômetros de viagem. O acesso rodoviário ocorre principalmente pela BR-381 e pela MG-436, seguindo posteriormente pela Estrada do Caraça.

Também é possível realizar parte do percurso pelo Trem de Passageiros da Vale, com desembarque na Estação Dois Irmãos, em Barão de Cocais. Como não há transporte público regular entre a estação e o Santuário, o trecho final precisa ser realizado por táxi ou serviço de receptivo turístico.

Mais de dois séculos depois da construção da primeira ermida e 133 anos após a chegada da eletricidade ao Colégio, o Caraça mantém preservadas diferentes camadas de sua história. O Tanque Grande é uma delas: uma paisagem que hoje convida à contemplação, mas que nasceu de uma experiência tecnológica pioneira para o Brasil do final do século XIX.

Serviço: O Santuário do Caraça está localizado na Estrada do Caraça, km 9, entre Catas Altas e Santa Bárbara (MG). A entrada custa R$ 35 em dias de semana e R$ 45 aos finais de semana, feriados e datas comemorativas, conforme informações divulgadas pelo Santuário. Idosos e moradores de Barão de Cocais, Catas Altas e Santa Bárbara têm 50% de desconto. Informações sobre visitação e hospedagem estão disponíveis no site oficial do Santuário do Caraça.

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