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Em ano eleitoral, curso da SIGNIS Brasil propõe formação de comunicadores para o discernimento e a defesa da democracia

Primeira aula do curso “Comunicar em Tempo de eleição”, promovido pela SIGNIS Brasil, CNBB e Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara, analisou polarização e transformações do cenário sociopolítico e destacou o compromisso da comunicação católic

Há 2 horas - por Ronnaldh Oliveira, da redação
Padre Jerfferson Amorin, SJ, professor da primeira noite / Foto: reprodução Youtube
Padre Jerfferson Amorin, SJ, professor da primeira noite / Foto: reprodução Youtube

Em um cenário eleitoral atravessado pela polarização, desinformação e crescente presença da religião no debate político, qual é a responsabilidade de quem comunica a partir de uma identidade católica? A pergunta esteve no centro da primeira aula do curso “Comunicar em Tempo de Eleições: fé, discernimento e responsab ilidade na comunicação católica”, iniciativa da SIGNIS Brasil, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara (CEFEP).

Com o tema “O Brasil que vai às urnas: polarização, democracia e o cenário sociopolítico brasileiro”, a atividade abriu uma experiência formativa de três encontros destinada especialmente a comunicadores e comunicadoras. A proposta foi oferecer elementos para que profissionais que atuam em rádios, televisões, portais, redes sociais e outras iniciativas de comunicação possam exercer sua missão durante o período eleitoral a partir do discernimento, da responsabilidade e da fé.

A primeira aula foi conduzida pelo jesuíta padre Jefferson Amorim, SJ, graduado em Relações Internacionais e Teologia, mestre em Filosofia e Ciências Sociais e mestrando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB). Em vez de oferecer uma leitura totalizante do Brasil, o religioso propôs reunir diferentes elementos que permitissem compreender o cenário nacional dentro de uma dinâmica também internacional.

Política não começa nem termina nas eleições

Um dos primeiros movimentos da reflexão foi ampliar a própria compreensão de política. Segundo Jefferson, reduzi-la ao período eleitoral seria insuficiente, da mesma maneira que afirmar simplesmente que “tudo é político” não permite compreender sua especificidade. Na análise apresentada durante o curso, a política está relacionada à maneira como sociedades lidam com conflitos, distribuem e disputam poder, constroem discursos e, sobretudo, projetam um futuro comum.

Essa última dimensão reapareceria ao longo do encontro como um dos critérios fundamentais para pensar a democracia: a capacidade de construir um horizonte no qual a vida e a dignidade não estejam reservadas apenas a determinados grupos. “Quando nós pensamos a política, quando nós pensamos a coletividade, quando nós pensamos o contexto no qual nós nos encontramos, é muito importante pensarmos na construção de projetos de futuro que estejam pautados pela necessidade de garantir a vida de todos e todas”, afirmou Jefferson.

Um cenário que ultrapassa as fronteiras brasileiras

Para compreender o Brasil que chega às urnas, Jefferson adotou uma perspectiva transnacional. Segundo sua análise, transformações observadas no país dialogam com uma reorganização contemporânea das forças políticas de direita que também pode ser percebida em países da América Latina, nos Estados Unidos e na Europa. Na exposição, o jesuíta caracterizou parte desse movimento contemporâneo como uma direita radicalizada ou extremada, marcada, em diferentes contextos, por nacionalismo, conservadorismo, liberalismo econômico e tensões com princípios e instituições democráticas.

Jefferson organizou sua leitura em torno de três dimensões interligadas: um projeto normativo, apoiado na mobilização de valores morais e religiosos; um projeto econômico, relacionado à redução de mecanismos estatais de regulação e proteção social; e um projeto político, que classificou como autoritário e antidemocrático.

A análise chamou atenção ainda para a dimensão transnacional dessas articulações. Segundo o professor, partidos, organizações, influenciadores, atores religiosos e meios digitais formam redes capazes de fazer circular discursos, estratégias e narrativas para além das fronteiras nacionais Nesse cenário, a comunicação não aparece apenas como instrumento pelo qual a disputa política é divulgada. Ela se torna um dos espaços nos quais valores, medos, afetos e percepções sobre a realidade são construídos.

Quando religião e política se encontram

Para um curso dirigido a comunicadores católicos, uma das questões mais sensíveis da aula esteve justamente na relação entre religião e política. Jefferson chamou atenção para o crescimento da presença de discursos religiosos e de representantes provenientes de ambientes eclesiais no debate político brasileiro. Em sua análise, pautas morais passaram a ocupar espaço significativo na mobilização política de grupos cristãos.

A questão, entretanto, não está em defender que a religião seja retirada da esfera pública. O desafio apresentado foi discernir quando elementos da fé são mobilizados para iluminar a participação social e quando passam a ser instrumentalizados por projetos de poder. No diálogo com os participantes, o jesuíta alertou especialmente para o uso fragmentado das Escrituras e dos documentos da Igreja como instrumentos de enfrentamento político. “Não basta simplesmente nós citarmos um cânon ou um trecho de uma encíclica, se nós não vamos acompanhando o fio mais longo daquilo que a Igreja vai nos entregando ao longo dos séculos”, afirmou.

Segundo Jefferson, a formação cristã precisa estar associada à espiritualidade e ao encontro com Jesus Cristo. Utilizar documentos e versículos para cancelar, violentar ou “eliminar o outro”, argumentou, significa afastar-se do espírito do Evangelho.

Doutrina Social da Igreja como critério

Durante a conversa, Jefferson também fez um apelo específico aos comunicadores: aprofundar o conhecimento da Doutrina Social da Igreja. Para ele, não basta que determinado conteúdo se apresente como “católico” para que esteja automaticamente de acordo com o ensinamento eclesial. A formação é necessária justamente para oferecer critérios de discernimento diante dos discursos que circulam nos ambientes religiosos e políticos.

Entre esses critérios estão o bem comum, a subsidiariedade, a solidariedade, a dignidade da pessoa humana, a opção preferencial pelos pobres, a ecologia integral e a prioridade do trabalho sobre o capital. A reflexão encontrou eco na mediação da aula. Durante o diálogo, destacou-se o risco de comunicadores se transformarem em simples distribuidores de conteúdos quando não conhecem suficientemente os temas sobre os quais comunicam. Nesse sentido, formação e discernimento aparecem como condições para uma comunicação que pretenda ser, de fato, “desarmada e desarmante”, expressão que vem sendo proposta pelo Papa Leão XIV.

Verdade não pode ser relativizada pela identidade de quem fala

A reflexão ganhou uma dimensão particularmente prática quando uma participante perguntou como comunicadores de mídias religiosas poderiam atuar sem direcionar a escolha eleitoral do público e, ao mesmo tempo, permanecer comprometidos com a verdade. Jefferson respondeu que o compromisso com a verificação precisa permanecer inclusive quando determinada informação vem de uma liderança religiosa ou de um influenciador católico conhecido.

“Nunca passar adiante informações distorcidas, nunca passar adiante informações que não foram checadas anteriormente, comprovadas”, afirmou.

O jesuíta propôs que comunicadores construam filtros editoriais orientados por perguntas concretas: determinado conteúdo favorece a dignidade humana? Contribui para o bem comum? Considera os pobres e vulneráveis? Respeita a democracia, a pluralidade e a diversidade? Quando a resposta for negativa, argumentou, o conteúdo precisa ser corrigido ou simplesmente não publicado.

O princípio vale também para a cobertura jornalística. Para Jefferson, comunicadores católicos precisam se preparar para entrevistar lideranças e abordar acontecimentos políticos sem reproduzir perguntas, expressões e enquadramentos que apenas alimentem polarizações já estabelecidas. “É importante também que a comunicadora e o comunicador católico saibam colocar a boa palavra, conhecer os conceitos, saber os termos adequados para que em sua comunicação leve adiante uma mensagem que promove a paz, que promove a justiça e, ao mesmo tempo, a dignidade das pessoas”, ressaltou.

Inteligência artificial e desinformação entram no debate eleitoral

A inteligência artificial também apareceu entre os desafios contemporâneos para a democracia. A reflexão não partiu de uma demonização da tecnologia, mas da necessidade de compreender quem controla essas ferramentas, quais interesses estão envolvidos em seu desenvolvimento e quais mecanismos podem garantir que sejam utilizadas em favor do bem comum. Jefferson chamou atenção para o poder econômico concentrado nas grandes empresas de tecnologia e para a capacidade que essas estruturas possuem de interferir na circulação da informação e, consequentemente, na vida política.

Nesse ambiente, a desinformação adquire relevância ainda maior. “O comunicador, a comunicadora católica, por fidelidade ao Evangelho, precisam ser homens e mulheres capazes de servirem à verdade”, afirmou. Para o jesuíta, isso significa produzir conteúdo baseado em informação, leitura, pesquisa, dados e elementos sólidos, evitando que os próprios meios católicos se tornem agentes de desinformação ou contribuam para a deterioração do ambiente democrático.

Polarização e o limite da tolerância

Uma pergunta dos participantes levou a discussão diretamente para a polarização política brasileira: como preservar o respeito às diferenças sem permitir que a divisão impeça a construção de um projeto comum? Jefferson reconheceu a convivência com as diferenças como uma conquista democrática, mas fez uma distinção importante: respeito à pluralidade não significa legitimar discursos que pretendam destruir a própria possibilidade de convivência.

“O respeito à diferença não significa que haja espaço na democracia para a intolerância, para a destruição do outro, para discursos de ódio, para discursos que geram violência”, afirmou.

Para ele, quanto mais uma sociedade avança pelo caminho do desrespeito, da intolerância e da polarização, maior é sua dificuldade para reconstruir vínculos e preservar o tecido social. A política, nessa perspectiva, volta à questão apresentada no início da aula: qual futuro comum uma sociedade deseja construir?

Comunicação, fé e responsabilidade diante das urnas

Ao longo do primeiro encontro do “Comunicar em Tempo”, a resposta não apareceu na forma de indicação de candidatos ou partidos. O caminho apresentado foi outro: oferecer critérios para que comunicadores compreendam o cenário político, aprofundem sua formação e exerçam sua responsabilidade sem transformar a comunicação católica em instrumento de projetos eleitorais. A própria Doutrina Social da Igreja aparece, nesse processo, não como um repertório de frases para justificar posições previamente assumidas, mas como fonte de princípios capazes de iluminar escolhas e avaliar criticamente diferentes projetos de sociedade.

Diante das urnas, portanto, o desafio apresentado aos comunicadores ultrapassa a decisão individual do voto. Significa perguntar como comunicar sem alimentar o medo, como discordar sem eliminar o outro, como verificar antes de compartilhar e como colocar a informação a serviço da dignidade humana e do bem comum.

O curso “Comunicar em Tempo” foi realizado pela SIGNIS Brasil, CNBB e Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara e realizou três encontros formativos. A proposta foi preparar comunicadores e comunicadoras para atravessar o período eleitoral articulando fé, discernimento e responsabilidade.

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