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Sônia Gomes, presidente do Conselho do Laicato no Brasil: "A missão do leigo é na sociedade"

Entrevista da Semana

Há 2 meses - por Cléo Nascimento
Sônia Gomes, presidente do Conselho do Laicato no Brasil: "A missão do leigo é na sociedade"
Em 2018, quando a Igreja vivia o Ano do Laicato, o Papa Francisco disse: “Os leigos encontram-se na linha mais avançada da vida da Igreja”, agradecendo assim aqueles e aquelas que "sem medo oferecem razões de esperança aos mais pobres, excluídos e marginalizados".
 
Essa característica ficou mais evidente durante a pandemia, pois foi nesse momento que o laicato ampliou seu campo de trabalho. Quem constata isso é a presidente do Conselho Nacional do Laicato, Sônia Gomes de Oliveira.
 
De fala firme e amparada por documentos da Igreja, Sônia recebeu a Agência SIGNIS para uma conversa sobre a atuação do leigo na Igreja e na sociedade, sobre os desafios da mulher leiga e ainda encontrou um espaço para a poesia de Guimarães Rosa.
 
De que maneira a pandemia impactou o trabalho das leigas e leigos, especialmente na realidade brasileira?
Eu falo que a pandemia acabou revelando muito do trabalho desenvolvido pelo laicato e que ficava escondido. Hoje, quase cem por cento do atendimento aos mais pobres e feito pela Igreja, foi intermediado por leigos e leigas. Quando as portas dos templos precisaram ser fechadas, as pessoas precisaram ficar dentro de casa, o pobre apareceu, o doente buscou apoio, a mulher desempregada veio à procura de ajuda, e isso revelou um rosto sofrido do povo. E, nesse momento, o laicato ampliou seu trabalho para poder atender quem necessita. Você não tem ideia da quantidade de campanhas de cestas básicas, fraldas, roupas e outros materiais que foram mobilizadas pelos leigos! Isso é em nome da fé, pelo desejo de ajudar, numa dimensão de pertença e cuidado com o próximo. Eu vejo que a pandemia trouxe um laicato solidário e que se identifica e assume a postura do bom samaritano. Além disso, é um laicato que passa a entender a essência da sua missão no seu espaço, a exemplo das Comunidades Eclesiais de Base, mesmo que em ambientes diferentes, como é o digital.
 
Qual o trabalho desenvolvido pelo Conselho Nacional do Laicato?
O Conselho Nacional do Laicato é um organismo de representação, seja no âmbito das organizações pastorais, como de movimentos a ele filiados. Especificamente, atuamos na formação teórica, pastoral e na dimensão espiritual de leigos e leigas nos 17 regionais do Brasil. Nesse trabalho formativo temos como base o Concílio Vaticano II, de onde nasce a inspiração para o Conselho.
 
Qual o objetivo?
É trabalhar a vocação e a identidade do laicato na Igreja Católica. Nosso objetivo é o de articulação, de formação, de estabelecer um diálogo e ser presença nos diversos seguimentos da sociedade, representando o laicato no Brasil. Quero dizer, aquele laicato que está filiado ao Conselho, porque também tem um laicato que a gente não pode representar porque não quer ser representado...
 
E por que não quer ser representado?
Nesse período de polarização social, tem um laicato que diz que não quer ser representado pelo Conselho. Por exemplo: quando nós assumimos uma posição diante de algum assunto, quando entendemos que precisamos fazer uma defesa da vida, estar inseridos nos espaços políticos... existe uma ala que diz não se sentir representada por nós. A gente respeita. E, enquanto Igreja, nós comungamos com nossos pastores, com o Papa Francisco, mas respeitando muito a nossa identidade de cristãos leigos. Seguimos aquilo que a nossa Igreja preconiza e temos caminhado a partir do que o Concílio Vaticano II apresentou para todos nós.
 
Você citou o Concílio Vaticano II como um elemento-chave para que hoje o leigo pudesse ter uma maior atuação na Igreja. Como você vê o papel do leigo hoje?
Eu quero crer que nós já avançamos muito. Durante o Ano do Laicato, entre 2017 e 2018, nós trabalhamos muito para discutir a aprovação do documento 107 da CNBB (Iniciação à Vida Cristã: itinerário para formar discípulos missionários). Eu penso que esse movimento favoreceu a compreensão do laicato enquanto vocacionado. Antigamente, a Igreja chamava para discutir a vocação, mas parecia que a vocação era apenas para a vida sacerdotal e religiosa e a gente se via pouco na estrutura da Igreja. Hoje, a gente tem a dimensão do "ser leigo", no sentido do "laós" (palavra grega que quer dizer "povo"), como povo de Deus.
 
Mas, de uma maneira geral, o leigo já tem essa consciência?
Acho que, primeiro o leigo precisa se entender enquanto vocacionado e assumir sua identidade, ter orgulho de dizer "sou leigo" e ocupar os espaços enquanto leigo. E muitos já estão fazendo isso! A gente já vê leigos se formando nos cursos de teologia, inserindo-se nos espaços pastorais das universidades, na política, na cultura, engajados como cristãos e lutando por melhorias na sua comunidade. Depois, o documento 105 da CNBB (Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade) nos diz que é preciso que o leigo se assuma enquanto sujeito eclesial, maduro na fé e que consiga entender, a partir da sua vocação, que ele faz parte desse processo na Igreja e que pode contribuir a partir do seu lugar, lançando um olhar para o Concílio Vaticano II, que nos remete a uma religiosidade encarnada, a partir do chão onde estamos pisando.
 
Quais são os desafios de hoje?
Nós temos muitos recuos também. Muitos ainda não assumem o laicato como vocacionados, como se vocação fosse algo apenas do âmbito da vida clerical e religiosa. Por exemplo, o Ministério da Palavra. Tem leigo que chega na comunidade e se for um outro leigo que estiver conduzindo a celebração da Palavra vai embora. Isso é um retrocesso. Um outro desafio que penso que temos é o clericalismo. Ainda existem muitos leigos clericalistas.
 
E por que ainda existem esses recuos?
Eu falo que isso vem muito da formação que nós recebemos no passado, quando o padre era a figura central e tudo dependia dele e os fiéis só abaixavam a cabeça. Mas quando eu digo isso, não é querendo dizer que nós temos que concorrer com o padre ou com o bispo. Muito pelo contrário. Acho que nós temos que entender que, no espaço que eu estou, eu posso contribuir, muito enquanto leiga, eu posso contribuir a partir do meu batismo. Enquanto leiga, eu posso fazer o meu papel, posso dar o meu testemunho na sociedade.
 
Tratamos de avanços e recuos de uma maneira mais ampla, mas e quando falamos da mulher como leiga na Igreja?
Nós já avançamos, mas não vou dizer que é um avanço tão grande. Se olhar no interno da Igreja, nós estamos, nós trabalhamos, nós fazemos, mas nós não temos poder de decisão ainda. Eu acho que a mulher na Igreja ainda precisa ser muito valorizada.
 
Você, como mulher, como se sente estando à frente do CNLB?
Por mais que eu esteja à frente do Conselho Nacional do Laicato, nesse serviço que pra mim é uma missão, na hora da decisão nós não somos consultadas em muitas coisas . O mesmo acontece com a mulher na sociedade, na política. E, eu penso que nós precisamos nos espelhar em Maria no Magnificat, que disse "nós vamos derrubar os poderosos dos tronos e elevar os humildes" e que assume que tem uma corresponsabilidade nesse processo.
E, enquanto mulher negra, posso dizer que ainda temos um desafio grande pela frente. Por exemplo, eu fui a primeira mulher da minha família a estudar e conseguir fazer uma faculdade. E, se você resolve empreender em algo, você precisa mostrar excelência. O mesmo acontece quando estamos à frente de um organismo como o CNLB e é preciso derrubar muitas barreiras, inclusive do próprio laicato. Não é fácil.
 
E como você lida com isso?
Eu sou muito esperançosa. Inclusive, nas lives que eu faço, eu gosto de trazer essa esperança do povo sertanejo, uma característica aqui do norte de Minas. Eu gosto de recorrer bastante à poesia e, às vezes, vou à Guimarães Rosa e, como ele, penso que em cada sertão sempre tem uma vereda. E a vereda é aquele lugar que você chega, pode beber água limpa, pode descansar. Eu falo que nós sertanejos temos muito isso, o povo olha pra gente e vê aquela aridez, olha a Sônia com cara de brava, olha a Sônia com aquele jeito de falar... Mas, muitas vezes a gente tem que demonstrar essa característica de "mulher brava", de força e tudo mais para conseguir também beber uma água mais limpa na vereda da vida. E a gente nunca toma água sozinho. Tem que oferecer essa água pura, fresca e boa para quem caminha com a gente.
 
Nós estamos no período de escuta da Assembleia Eclesial da América Latina e Caribe. Qual a importância desta iniciativa e em que isso pode contribuir para um melhor entendimento do lugar do leigo na Igreja e na sociedade?
Penso que, num primeiro momento, nós leigos e leigas estamos sendo chamados, convocados para esse grande evento. Mas eu já vejo como uma experiência gratificante. Eu incentivei, fui em vários lugares motivando as comunidades a responderem. Um outro ponto que acredito ser um incentivo para o laicato é o de que a Assembleia Eclesial tem a proposta de reanimar a Igreja de uma nova forma, com propostas regeneradoras. Eu acredito que, nesse sentido, as propostas alcançam um sentido de inclusão do laicato, uma abertura maior para a ministerialidade, não ficar apenas como objeto de cura pastoral, mas também tendo essa capacidade de uma abertura maior, incluindo mulheres, juventude e tudo mais.
 
Na Audiência Geral de hoje o Papa Francisco trouxe para sua catequese a questão da hipocrisia. E falou inclusive da hipocrisia na Igreja. Até que ponto uma vida incoerente pode atrapalhar o bom cumprimento da missão do leigo?
Se a gente não tomar cuidado, na atual conjuntura, a incoerência do laicato pode levar a eleger pessoas para posições em que não deveriam estar. Por isso, quero crer que nós, enquanto leigas e leigos temos que assumir a identidade do testemunho de Jesus Cristo na sociedade. Porque é o testemunho de Jesus que vai nos levar a uma coerência e a não sermos hipócritas. E para sair dessa condição de hipocrisia, precisamos ser sal da terra e luz do mundo. E o hipócrita não tem essa característica de dar sabor e se fazer luz em ambientes que precisam de um bom testemunho.

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