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Exclusão social e ameaças à democracia na América Latina estiveram sob olhar da Assembleia Eclesial

Em uma sociedade machista, excludente, racista, intolerante e preconceituosa, ouvir a todos não é tarefa só da Igreja, afirma presidente da CRB, Irmã Maria Inês, em entrevista à Agência SIGNIS.

Há 2 meses - por Cléo Nascimento
Ir. Maria Inês em coletiva de imprensa, durante Assembleia Eclesial, no México.
Ir. Maria Inês em coletiva de imprensa, durante Assembleia Eclesial, no México. (foto por Comunicação - Assembleia Eclesial)
A realização da Assembleia Eclesial pode ser considerada um evento histórico para a Igreja, especialmente para a América Latina e Caribe. Pela primeira vez, num evento dessa dimensão, padres, bispos, arcebispos, cardeais, religiosos, religiosas, leigos e leigas dividiram o mesmo espaço, apresentando suas impressões e perspectivas sobre a Igreja e a sociedade, a partir do seu lugar de fala. Entre estas pessoas estava Ir. Maria Inês Ribeiro, presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB).
Ainda no México, Ir. Inês aceitou nosso convite para uma conversa sobre a Assembleia. Nesta entrevista, ela traz seu olhar sobre o evento e uma reflexão sobre a necessidade da Igreja avançar nas propostas apresentadas.
 
Quando surgiu a proposta de realizar uma Assembleia Eclesial?
Estamos a 14 anos da V Conferência Episcopal Latino Americana, que aconteceu em Aparecida, em 2007.  Quando o CELAM pediu ao Papa para convocar a  VI Conferência, o Papa Francisco propôs a realização de uma Assembleia  Eclesial, de todo o povo de Deus. Não sei precisar a data, mas  aconteceu em 2019, pois no início de 2020 já haviam equipes trabalhando,  Comissão Central,  de Escuta e de Conteúdos. Em 24 de janeiro de 2021, o Papa Francisco convocou a I Assembleia Eclesial da AL e Caribe, num belo evento transmitido diretamente do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, no México.
 
O que ela representa para a Igreja na América Latina?
A Assembleia Eclesial tem um significado enorme para a Igreja na América Latina. É um kairós, um momento extraordinário  para um novo despertar  da Igreja, sendo a primeira eclesial, unindo cultura, povos, vocações e ministérios. Um tempo que nos dá esperança, nos enche de alegria com este presente do Espírito.
 
Quais os principais pontos que foram discutidos?
O Tema central foi “Somos todos Discípulos Missionários em saída” e todas as colocações foram em torno da Sinodalidade a fim de sermos realmente Igreja Povo de Deus, em saída!  Tivemos conferências riquíssimas:  a) A centralidade de Jesus Cristo e sua Palavra em nossa ação pastoral; b) A conversão pastoral integral e os quatro sonhos proféticos;  c) A Igreja em saída missionária;  d) Da Assembleia Eclesial para a América Latina e Caribe ao Sínodo da Sinodalidade;  e) Sinodalidade do Povo de Deus. Além destes temas, a Assembleia foi muito enriquecida com painéis e testemunhos.
 
O que a  traz da Conferência de Aparecida? 
Ficou bem claro a todos os participantes o desejo do Papa Francisco de retomar Aparecida.  Há muito a ser vivido, aprofundado. A Assembleia trouxe Aparecida toda, nos convidando a olhar a realidade, como discípulos e missionários e nos passos de Jesus anunciar a Boa Nova neste continente marcado por tanta dor, sofrimento, desmonte da democracia,  exclusão social nos mais diferentes níveis e grupos sociais.  Enfim,  a Assembleia Eclesial trouxe de Aparecida, um convite renovado a sermos verdadeiramente “Discípulos Missionários em saída”.
 
A assembleia chega com a bagagem de aproximadamente 70 mil depoimentos, diferentes espaços da Igreja: leigos, cardeais, pequenas comunidades e grandes arquidioceses. Considerando a dimensão latino americana e caribenha, esse resultado foi satisfatório? Como foi a adesão ao processo de escuta?  Como ele pode ser fortalecido?
Considerando o percurso que fizemos no Brasil, nos surpreendeu a pouca resposta da América Latina e Caribe, de modo particular o  Brasil. Concluímos que o tempo foi demasiado curto para atingirmos todos os cantos do país. Além disso, a pandemia também prejudicou o processo de escuta. Muita gente que seria motivada nas celebrações, encontros, cursos, etc, não teve o mesmo impacto, pois sendo tudo online, faltou o empenho e o ardor das nossas lideranças eclesiais como foi com o processo de escuta para o Sínodo da Amazônia, que pode realizar 'n' assembleias e fóruns por toda a Amazônia e toda a América Latina.
 
Como a Assembleia se organizou para, de fato, contemplar essas vozes e como diz o Papa, “escutar os clamores do povo”?
Não há dúvida alguma de que a comissão organizadora desempenhou um papel primordial na preparação dos conteúdos e no acompanhamento do processo de escuta, colhendo com muita responsabilidade as vozes de todos que enviaram suas contribuições. Esses depoimentos foram reunidos num documento de trabalho “Síntese  Narrativa: a escuta na Assembleia Eclesial para a América Latina e Caribe”,  com 220 páginas e o “Documento para o discernimento comunitário”. As reflexões nos grupos e o eficiente trabalho das equipe para sistematização e discernimento, contribuiu para a síntese final apresentada no dia 27 de novembro, bem como a Mensagem Final do Presidente do CELAM,  Dom Miguel Cabrejos, ofm.
 
De que maneira a questão da pandemia e suas consequências foram abordadas na Assembleia?
Não houve especificamente um momento para abordar o tema da pandemia, mas foi uma realidade transversal pois a todo instante vieram a tona as consequências graves para a América Latina e Caribe, reconhecendo que fez vir a tona de maneira escancarada a situação de pobreza e até miséria do nosso agravada com a situação. Durante a Assembleia, houve a atualização da situação da pandemia na AL e Caribe, realizada por peritos.
 
Percebe-se movimento da Igreja que, pela primeira vez, manifesta claramente  uma predisposição em ouvir pessoas e grupos menosprezados ou marginalizados na sociedade, como os povos originários e membros da comunidade LGBTQIA+, e entre outros. Seria este um sinal de proposta de sinodalidade tão recomendada pelo Papa Francisco? Na prática, como isso deve se aplicar para estes indivíduos?
De fato, cresce em nossa Igreja a predisposição de ouvir a todos, particularmente os mais excluídos, menosprezados e marginalizados.  Nota-se bem, ‘estamos crescendo’ mas muito lentamente, pois não depende somente de nós Igreja, quando vivemos numa sociedade machista, excludente,  racista, intolerante e preconceituosa.  A Igreja deve criar espaços para acolhida, fortalecendo as pastorais específicas, como indígena, da negritude, da mulher marginalizada e outras,  bem como favorecer, no âmbito eclesial, grupos de reflexão, apoio para as comunidades LGBTQIA+, quilombolas e outros e avançar na criação espaços para  prevenção, orientação, escuta e denúncia dos abusos sexuais, de poder e de consciência.
 
Fala-se muito de um clericalismo forte e presente em nossas Igrejas e Comunidades. Por vezes, o próprio laicato, acostumado a este ‘sistema’ o promove e perpetua. Se falamos em sinodalidade, é preciso pensar maneira de superar essa postura. Como a Assembleia trabalhou esse tema?
Não houve um trabalho específico de como superar o clericalismo na Igreja, mas foi discutido em muitos momentos e creio que ficou muito claro em todo o processo de escuta a necessidade de erradicar essa chaga na nossa Igreja.  O projeto de Aparecida, rumo a uma Igreja Sinodal, só avançará com um laicato bem organizado, bem como a Vida Consagrada, conquistando cada vez mais espaços de participação. De fato há muitos membros do laicato e da Vida Consagrada com uma cabeça e práticas super clericalistas e machistas. Enquanto não crescermos na consciência do 'ser Igreja-Povo de Deus' não conseguiremos dar passos mais decisivos.  Além da longa história de uma igreja vertical,  sabemos que sempre está por detrás uma eclesiologia específica.  Se a Igreja da América Latina não aprofundar a eclesiologia do Vaticano II,  acolher e assumir, de fato,  Aparecida e a Evangelli Gaudium, estará correndo o risco de não avançar no processo fortalecido na I Assembleia Eclesial da AL e Caribe.
 
Podemos esperar uma renovação na Igreja da América Latina?
Sim, podemos esperar uma renovação da Igreja da América Latina!  Ela é assistida pelo Espírito Santo e isto é o principal.  Quantos passos já demos, do Vaticano a Medellín, de Medellín a Aparecida!  E o protagonismo do Papa Francisco que tão corajosa e profeticamente tem impulsionado a renovação da Igreja, com palavras e particularmente com gestos!
 
Como a experiência da Assembleia Eclesial contribui para a XVI Edição do Sínodo dos Bispos, que acontecerá em outubro de 2023?
A própria realização da Assembleia Eclesial já é um grande contributo. Todos os esforços, as escutas, as diferentes ações, como Igreja Povo de Deus, vai avançando e nos preparando para o Sínodo dos Bispos, sobre a Sinodalidade.  Esperamos que, em todos os níveis, os membros todos da Igreja na América Latina contribuam, participem do processo.  Temos mais tempo...  Não vamos reclamar como aconteceu com o espaço que tivemos para a preparação da Assembleia Eclesial.

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