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Um olhar sobre a Assembleia Eclesial Latino-americana

Conversamos com Mónica Villanueva Galdos, da SIGNIS Peru, que fez um balanço sobre essa importante experiência de sinodalidade da Igreja no nosso continente, com especial atenção à perspectiva da comunicação eclesial

Há 7 meses - por Luís Henrique Marques
Mónica Villanueva, da SIGNIS Peru: Assembleia Eclesial Latino-americana é motiva de esperança para a Igreja
Mónica Villanueva, da SIGNIS Peru: Assembleia Eclesial Latino-americana é motiva de esperança para a Igreja (foto por Arquivo pessoal)

Muitos já são os ecos positivos sobre a Assembleia Eclesial Latino-americana, realizada recentemente na cidade do México. Ali, a Associação de Comunicação Católica SIGNIS América Latina e Caribe esteve presente, representada por um pequeno grupo, além de participações no modo virtual.  

A comunicadora Mónica Villanueva Galdos, pertencente à SIGNIS Peru, foi uma dessas representantes convidada pela Agência SIGNIS para dar sua impressão a respeito dessa experiência inédita na Igreja. Nessa conversa, demos especial à atenção ao tema da comunicação eclesial, sobre a qual Mónica é especialista.  

Para ela, essa assembleia – a despeito do fato de que há ainda muito a ser feito em termos de renovação da comunidade eclesial – representa um sinal de esperança no caminho que a Igreja deve seguir. Vamos à entrevista:

 

Como se deu a sua participação durante o programa da Assembleia Eclesial Latino-americana?

A minha participação foi como membro da assembleia, assim como os demais que participaram dos grupos de discernimento convidados a debater sobre os desafios que a Igreja enfrenta hoje no nosso continente. Nós nos ocupamos, sobretudo, de refletir e contribuir para com as orientações pastorais que ajudariam a definir os 12 desafios pastorais escolhidos como marco dessa primeira assembleia.

 

Como especialista em comunicação eclesial, você teve a oportunidade de abordar essa temática específica?

Na realidade, nos grupos havia uma diversidade de vozes e preocupações e não nos dedicamos somente à questão da comunicação, embora eu estivesse ali para transmitir o papel que nós comunicadores exercemos no seio da Igreja, bem como qual é a nossa relação com a comunicação e como melhor pensá-la para promover essa aproximação como o Povo de Deus e com as pessoas que estão fora da Igreja. O fato é que tivemos que tratar de diferentes temas eclesiais como, por exemplo, o acompanhamento das populações vulneráveis no nosso continente, segundo a realidade particular que vivemos em cada um dos nossos países; a participação do leigo e das comunidades de base e outros.

 

Agora, especificamente sobre a comunicação eclesial, seja no interior das comunidades eclesiais quanto na sua relação com a sociedade, considerando o que você ouviu na Assembleia Eclesial desde a fase de escuta, quais são os principais desafios que a Igreja deve enfrentar, segundo a sua avaliação?

Estou convencida de que a comunicação tem que ser um eixo transversal que deve estar presente em todas as pastorais da nossa Igreja, porque é importante escutar, considerando a diversidade de carismas que temos, todas as vozes que ressoaram nessa assembleia eclesial. Creio que colocamos em evidência muitas realidades que nos preocupam e sobre isso, nós como comunicadores, temos que dar visibilidade a elas. Por isso, a comunicação deveria ser um eixo transversal em todas as nossas pastorais, como uma prática cotidiana da nossa própria Igreja. É inacreditável que entre nós mesmos, às vezes, não saibamos expressar quais são as nossas opiniões sobre temas da realidade. Nesse sentido, é crucial que a comunicação humana se desenvolva em termos  de confiança, de empatia, da sinodalidade como hoje a Igreja quer; que estejamos caminhando juntos.

 

O processo de escuta dessa assembleia já é um primeiro passo importante nesse sentido...

De fato, com essa experiência profunda de sinodalidade que vivemos, creio que seja importante que a comunicação esteja presente a partir desse processo de escuta sobre o qual falamos bastante durante a assembleia. Porém, podemos ir além de sermos meros “escutadores” passivos. O que temos que fazer é buscar melhor uma comunicação retroalimentada, uma comunicação que transforme vidas, uma comunicação capaz de criar comunhão. Precisamos nos vincular, o quanto possível, a processos de diferentes realidades presentes na Igreja, como as diferentes pastorais, (indígenas, da mulher, dos jovens...) Há um sem-número de preocupações e não podemos somente evidenciar aquilo em que já somos protagonistas na Igreja, mas é preciso potencializar com um novo caminho, que construa sinodalidade e que ocorra segundo o olhar, por exemplo, do Bom Samaritano, que se envolveu na miséria do seu irmão caído e que, com a sua ação, lhe deu esperança de vida. Ou como o cego Bartimeu que não teve dúvida em gritar pelo nome de Jesus para ser escutado e curado. Desse mesmo modo, temos que perseguir a vida, contando as nossas histórias, mostrando com clareza aquilo que Deus quer para os mais pobres, para os jovens, para as mulheres. Isso tem implicações na nossa identidade como comunicadores, isto é, necessitamos sermos autônomos, leigos e olhar para além do ambiente eclesial.  Temos que impregnar nossa pratica com toda a sensibilidade que se necessita para chamar a atenção das pessoas a respeito dessa realidade de injustiça, de desigualdades, de desrespeito aos direitos humanos. Não podemos nos dar por vencidos. Como já disse o papa Francisco, caminhar em sinodalidade pode ser algo incômodo, difícil para se por em prática. Por isso, temos que nos dar as mãos e seguir valorizando essa perspectiva do caminho sinodal que queremos aplicar na Igreja para que ela seja discípula e missionária.  

 

Ainda no que diz respeito à comunicação eclesial, outro aspecto que certamente precisa ser superado é essa visão instrumental aplicada às práticas comunicacionais. O que você pensa sobre isso?

Concordo plenamente com você. Ao exercemos a comunicação em instituições eclesiais, podemos nos limitar à mera prática de difundir informações institucionais. Com isso, estamos nos esquecendo de transmitir a vida. Agora, o que queremos é que a comunicação seja um instrumento de apoio que permita a união de todas as vozes, assim como queremos que essa comunicação seja mais democratizada, que todos tenhamos possibilidade de falar e não calar. Trata-se também de uma comunicação que permita evangelizar e que, nesse caso, não tem que necessariamente falar de Jesus Cristo, porém precisa promover processos pelos quais pessoas que permaneçam marginalizadas pela sociedade sejam ouvidas. Essa tem que ser uma comunicação mais decidida, “de saída”, que consiga estabelecer os vínculos que necessitamos, inclusive trabalhando em rede. Isso é muito importante!

 

Que balanço geral você faz dessa Assembleia Eclesial Latino-americana?

Obrigado por essa pergunta! Sim, foi um privilégio participar da assembleia eclesial na qual pudemos unir muitas vozes, muitos nomes, muitas histórias e realidades. Pudemos falar de esperança e de entender como projetamos o nosso futuro. Definitivamente, vivemos um momento de fraternidade. A Igreja está dando passos. Mudanças não vão acontecer de um dia para o outro. Mas já o fato de seguir em frente porque queremos uma Igreja renovada, que deixe de lado certos costumes que não estão de acordo com este tempo, é um passo importante. É também importante termos refletido sobre isso, porque sem dúvida precisamos nos deixar conduzir pelo Espírito Santo que é quem vai nos ajudar a superar todos os desafios que assumimos. Creio que essa assembleia nos deu respaldo para estarmos mais prontos a deixarmos de ser autorreferenciais e nos unirmos. Sabemos que, unidos, podemos ir mais longe. O caminho que está sendo traçado em termos de sinodalidade foi vivido nessa assembleia. Houve gestos muito bons, positivos, de solidariedade, de fraternidade, de pertença, de participação. Além disso, sabemos que temos que ser muito pacientes com aqueles que ainda resistem às mudanças. Vamos amadurecer pouco a pouco e Deus queira que todos respondam ao chamado que hoje nos é feito como a olhar com maior acuidade as vulnerabilidades pelas quais passam os nossos povos, a diversidade que também surge de diferentes realidades, em que a mulher necessita ser mais bem visibilizada e estar em espaços de decisão. Temos que seguir trabalhando por isso; precisamos escutar as mulheres, os pobres, aquele que estão na nossa Igreja e precisam ser compreendidos como, por exemplo, a comunidade LGTBI. Todas essas preocupações vieram à tona na assembleia eclesial e, por isso, esse é um momento importante. Há ainda que mencionar a ecologia integral e temos que ver de que maneira responderemos, seguiremos e ajudaremos para que não se continue transgredindo a vida dos irmãos que estão em espaços onde estão ocorre a exploração indevida. Trata-se de ver como seguimos protegendo a vida dos povos, suas culturas e escutando o grito da terra de modo a garantir um maior cuidado para com a Criação.

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