Migrar é um direito: pastoral na Baixada Santista dá rosto e voz a senegaleses, venezuelanos e haitianos
Na Diocese de Santos, a Pastoral da Mobilidade Humana, animada pelo carisma escalabriniano, acompanha migrantes e refugiados com cursos de português, apoio material, escuta e defesa da dignidade frente à xenofobia e à desinformação
Na Diocese de Santos (SP), a Pastoral da Mobilidade Humana tem dado rosto, nome e voz a migrantes e refugiados que chegam à Baixada Santista em busca de vida digna. A partir do carisma escalabriniano, a pastoral acompanha sobretudo pessoas do Senegal, da Venezuela e do Haiti, oferecendo cursos de português, apoio material, escuta e mediação em situações de vulnerabilidade.
Coordenada por Juliana Ramalho, leiga escalabriniana e professora, a pastoral atua especialmente no distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá (SP), região marcada pela proximidade com o Porto de Santos, o maior da América Latina, que intensifica o fluxo de entrada e saída de pessoas.
“Todo mundo tem o direito de ir e vir. Você não pode proibir uma pessoa de migrar, isso é inconstitucional”, afirma Juliana, ao criticar discursos que associam migração à perda de direitos ou empregos.
Uma pastoral que nasce do chão da paróquia e da história migrante
Juliana, 28 anos, cresceu na Paróquia Nossa Senhora das Graças, de inspiração escalabriniana, em Vicente de Carvalho. A região sempre conviveu com fluxos migratórios internos, especialmente de famílias nordestinas, caso da própria família de Juliana, de origem pernambucana.
Nos últimos dez anos, a realidade se ampliou com a chegada de um número crescente de senegaleses à cidade. A partir de uma experiência de voluntariado na Missão Paz, em São Paulo, onde dava aulas on-line de português para imigrantes, Juliana e a irmã perceberam uma lacuna: embora a paróquia fosse escalabriniana, não havia um trabalho estruturado com a imigração externa.
Dessa inquietude nasceu a Pastoral da Mobilidade Humana, hoje reconhecida pela paróquia e pela diocese. O nome foi sugerido por um padre escalabriniano, justamente para sublinhar que não se trata apenas de “pastoral do imigrante”, mas de uma atenção permanente à mobilidade humana, marcada por deslocamentos constantes.
Senegal, Venezuela e Haiti: quem são os migrantes acompanhados?
Segundo Juliana, cerca de 90% das pessoas acompanhadas pela pastoral são do Senegal e da Venezuela, com um grupo menor de haitianos.
Os senegaleses, em sua maioria muçulmanos, estão espalhados por diversos bairros do Guarujá, como Cachoeira, Santo Antônio, Enseada e Vicente de Carvalho, e costumam trabalhar como ambulantes e trabalhadores autônomos, vendendo meias, eletrônicos e outros produtos nas praias e áreas de grande circulação, enquanto muitas mulheres fazem tranças em turistas.
Embora muita gente veja apenas a fachada, morar perto da praia, circular em áreas turísticas, Juliana relata que a realidade é marcada por muita precariedade:
“Quando a gente entra nos apartamentos, a situação é bem difícil. A maioria são homens, morando em cinco ou seis, em beliches ou no chão.”
As famílias venezuelanas chegam frequentemente em busca de empregos formais. Ela menciona o caso de uma advogada e de sua filha jornalista, que tiveram de deixar cargos importantes na Venezuela e recomeçar do zero no litoral paulista por causa da crise no país. Entre os haitianos, a busca também é por emprego com carteira assinada, e alguns acabam atuando como ponte entre a pastoral e a comunidade, como um haitiano que se tornou professor de francês para paroquianos.
Apesar das diferenças culturais e de trajetória, Juliana destaca um traço comum:
“O que mais surpreende é a esperança e a gratidão. Eles quase nunca falam mal do Brasil. Às vezes, são eles que, ao contar suas histórias, fazem a comunidade perceber o quanto a gente reclama de barriga cheia.”

O que a pastoral faz: língua, alimento, escuta e cuidado
O trabalho começou pequeno: aulas de português às segundas-feiras e entrega de cestas básicas aos finais de semana. Hoje, a pastoral conta com uma equipe de cinco pessoas voluntárias: Juliana, sua irmã e três outras mulheres e organiza uma rede de ações que envolvem:
- Curso de português para migrantes e refugiados, na paróquia;
- Cestas básicas, leite e fraldas, especialmente para famílias com bebês e crianças pequenas;
- Apoio jurídico, em diálogo com a Missão Paz, quando necessário;
- Visitas às casas, escuta, apoio emocional e espiritual;
- Projetos de empreendedorismo e formação, como cursos de idiomas (francês e espanhol) ministrados por migrantes para a comunidade;
- Atividades de integração, como rodas de conversa entre jovens da paróquia e migrantes, além de passeios em pontos turísticos de São Paulo.
Nem sempre, porém, o acompanhamento se restringe a questões materiais. A pastoral está próxima também de situações de dor extrema, como a recente perda de um bebê por uma família senegalesa.
“Eles estavam muito felizes com a maternidade, e a bebê não resistiu. Sem falar bem o português, longe da família, é tudo ainda mais duro. O que a gente faz é acolher, abraçar, escutar. É um acolhimento cristão que é, ao mesmo tempo, profundamente humano”, conta.
Xenofobia, desinformação e a disputa de narrativas
Desde o início, a pastoral teve de enfrentar a xenofobia e a desinformação, tanto dentro quanto fora dos ambientes eclesiais. Quando as primeiras ações foram divulgadas nas redes sociais da paróquia, surgiram comentários típicos de discursos de ódio: “eles vivem melhor que a gente”, “não precisam de ajuda”.
Juliana afirma que a resposta não pode ser na base da agressividade, mas da informação qualificada e da conscientização:
“Quem desconhece, fala do que não sabe. A gente combate com informação, com dignidade. Promovemos rodas de conversa, escuta, encontros com a comunidade. Quando o povo ouve a história real de um migrante, a visão muda.”
Ela recorda que o Brasil sempre foi país de acolhida e também de saída, e insiste na centralidade do direito de ir e vir, fundamento humano e constitucional. Colocar-se no lugar de quem teve de deixar o próprio país, sublinha, é o primeiro passo para transformar percepções.
Desafios, espiritualidade e sonhos para 2026
Sustentar esse trabalho, no entanto, exige persistência. A pastoral enfrenta falta de apoio financeiro estável; necessidade permanente de voluntários, sobretudo com domínio de idiomas; ausência de um espaço físico próprio: embora vinculada à paróquia, ainda não conta com uma sala exclusiva para atendimento e mediação.
Não raro, a equipe precisa complementar as doações com recursos do próprio salário. A motivação, segundo Juliana, vem da fé e do carisma escalabriniano:
“A gente encontra força em Jesus, em Maria e em São João Batista Scalabrine. Também na coragem e na gratidão dos próprios migrantes. Quando a gente pensa em desistir, retomamos o que está dando certo, rezamos, reordenamos o trabalho e seguimos.”
Para 2026, a pastoral projeta: retomada e ampliação dos cursos de português; novas capacitações profissionais, como a segunda edição do curso de manicure; participação em encontro de leigos escalabrinianos; passeios de integração com migrantes a pontos turísticos de São Paulo, busca de parcerias institucionais e financiamento via editais e projetos; o sonho de criar um Centro de Mediação para migrantes, com espaço fixo de acolhida, informação, orientação e formação.
“Falta escuta”: um chamado à sociedade e à Igreja
Ao refletir sobre o que gostaria que a sociedade entendesse “de uma vez por todas” sobre migração, Juliana resume:
“Todo mundo tem o direito de ir e vir. Não se pode proibir uma pessoa de migrar. O que mais falta hoje é escuta. A gente não se olha, não pergunta ‘como você está?’. Muitas opiniões prontas nascem exatamente porque ninguém quer ouvir a história do outro.”
Para ela, um dos eixos do carisma escalabriniano é justamente dar voz ao migrante: tornar visível quem é frequentemente reduzido a número, manchete ou alvo de discurso de ódio.
“Eles ficam o dia inteiro na praia, nas ruas, e muitas vezes são invisíveis. Quando a gente para para ouvir, a opinião muda. Nosso foco é isso: que o migrante tenha voz.”
Na Baixada Santista, a Pastoral da Mobilidade Humana lembra à Igreja e à sociedade que migrar é um direito humano, que a acolhida é um imperativo ético e de fé e que o futuro se constrói, também, escutando quem chega, sem medo e sem barreiras.
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