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Óscar Romero, o santo dos perseguidos da América Latina

Canonizado há três anos, Dom Óscar Romero é exemplo de defesa dos direitos humanos, de todos os humanos

Há 14 dias - por Karla Maria
Dom Óscar Romero:  testemunho do amor de Cristo pelos mais pobres
Dom Óscar Romero: testemunho do amor de Cristo pelos mais pobres (foto por franciscanos.org)

Eram tempos conturbados em El Salvador, em que a capital São Salvador e suas igrejas já tinham sido alvo de bombas e tiroteios. Uma guerra civil estava a ponto de se iniciar, que duraria 12 anos com um saldo entre 60 e 80 mil mortos, inclusive o santo Óscar Arnulfo Romero (1917-1980).

As tensões do dia a dia eram observadas e registradas pelo bispo que gravou 30 fitas-cassete dos seus últimos dois anos de vida. Nelas, uma sequência de atividades e sentimentos sobre os trabalhos pastorais da Arquidiocese, a falta de compreensão do Vaticano sobre as questões internas do país, a necessidade de promover o diálogo entre as partes em conflito em El Salvador, a solidariedade internacional, os ataques a bombas na universidade católica e em igrejas da capital.

As fitas revelam longos dias de um padre que não se furtava a celebrar a Eucaristia com o povo, a aconselhar quem o procurava, e a atender jornalistas de todo o mundo para denunciar a opressão que seu povo vinha atravessando. Ao ser questionado pelo jornalista brasileiro José Maria Mayrink (1938-2020), de O Estado de S. Paulo, se tinha medo de morrer, o bispo disse: “Em El Salvador, todos temos. Eu prego a verdade e a justiça. Prego o Evangelho que é o Cristo, solução por caminhos de paz e amor. Pode parecer ridículo pregar isso, mas é esta solução. As soluções violentas não são dignas do homem e nem estáveis”, disse. A entrevista está nos arquivos do jornal, com data de 26 de março de 1980.

Dom Óscar Romero buscou soluções, diálogo e incomodou. Foi assassinado no dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava uma missa na capelinha do Hospital da Divina Providencia. “Monsenhor estava preparando para a consagração. Dizem que ele tinha visto o atirador se preparar. Não foi no momento que levantou o cálice, nem foi atingido no coração, como se propaga para dar um dramatismo. Foi no peito, com um bala de calibre 22 expansiva. Assim ele cai”, contou-me Pablo (nome fictício para sua segurança) em 2014, um ex-membro da Forças Armadas Resistência Nacional (FARN).

O povo de longe e de perto sentiu. “Foi um golpe muito duro para todos nós. Começamos a receber ligações de pessoas dando-nos os pêsames, já que nos consideravam também sua família. Foi uma coisa terrível”, contou-me Leonor Chacon também em de 2014, quando estive no memorial que ela e sua família mantêm em homenagem ao amigo e agora santo na antiga colônia de Santa Tecla, na capital salvadorenha.

Leonor contou que no dia da morte de dom Óscar Romero, naquele 24 de março de 1980, a família o aguardava para a refeição. A comida fora preparada e servida na mesa: os frijoles volteados que ele tanto gostava. Tudo estava pronto para recebê-lo. Mas monsenhor Romero nunca mais voltou. Às 18h, a família Chacon recebeu a notícia: ele estava morto. “Era nosso amigo e pastor, ele gostava da nossa comida, tomava a cevada. Aqui ele não falava de política. Contávamos piadas. Falávamos da vida, porque ele dizia que vinha para comer e se distrair, esquecer um pouco o que acontecia”, contou dona Leonor.

Para Pablo, admirador do santo salvadorenho, dom Óscar Romero foi fundamental na luta pela democracia de El Salvador. “Quando ele foi morto, as negociações para não irmos ao conflito acabaram e nós fomos ao que passou a ser chamada de ‘Guerra Prolongada’ para as mudanças que geraram os acordos de paz em 1992. Depois de firmados os acordos, o conflito armado parou”, o que para o ex-combatente foi uma estratégia da direita do país, responsável por criar a Lei da Anistia.

Da mesma maneira que no Brasil, a Lei de Anistia em El Salvador é criticada por setores da sociedade, porque preserva civis e militares que cometeram torturas e assassinatos. Fugindo da repressão, em 1989 Pablo e sua família buscaram refúgio no Brasil, e só tempos depois voltaram a El Salvador.

Para Andrea Guarniere, professora na rede paulista de ensino público, ter contato com a história do santo Óscar Romero é ter contato com a história do povo oprimido da América Latina, ou seja, a nossa própria história. “Lá (em São Salvador) nós vimos a Igreja do Rosário, que foi atacada, o sacrário alvejado, porque você não pode esquecer a sua história, e o Brasil esquece a sua história. Não preserva os locais e faz as pessoas acharem que a ditadura era melhor”, disse a professora, nitidamente indignada com a relativização da história no país.

Andrea também esteve em El Salvador em peregrinação e conheceu alguns dos locais sagrados para os fiéis que são devotos do santo. “Estar no lugar em que ele viveu e conhecer toda a realidade é muito especial porque você entra em contato com a história, pisa nela. Estar lá e celebrar na capela que ele foi martirizado trouxe mais sentido àquilo que eu já admirava. É entender que ele vivia uma vida muito simples”, conta a professora.

A capela a que Andrea se refere recebeu outro nome em março deste ano: Capela Martirial São Óscar Arnuldo Romero, Bispo e Mártir, mas os bancos simples de madeira clara permanecem lá e são testemunhas do sangue derramado. En este altar Mons. A. Óscar Romero ofrendo su vida a Dios por su peblo, registram as letras de ferro soldadas no presbitério aos pés da imagem do Cristo Ressuscitado, lembrando que ali o arcebispo levou um tiro no peito.

Dom Óscar Romero viveu ali mesmo, atrás da capela, em um pequeno quarto ao longo de cinco meses. “Monsenhor dizia que o pastor tinha que estar ao lado dos pobres, então em um primeiro momento como arcebispo viveu em um quarto atrás do altar”, contou uma das irmãs carmelitas missionárias de Santa Teresa, que cuidam do Centro Histórico Monsenhor Óscar Romero, o que nos faz recordar de um bispo nosso, que também viveu em dependências anexas à sacristia, nos fundos de uma igrejinha entre 1968 e 1999, em Recife, no Pernambuco. Falo de Dom Helder Câmara, cujo processo de canonização tramita no Vaticano.

Não foi coincidência, e sim os ventos do Concílio Vaticano II (1962-1965), do Pacto das Catacumbas, do qual Óscar Romero foi um signatário posterior e com ele a postura de procurar viver segundo o modo da população no que dizia respeito à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. No pacto, os bispos renunciavam à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje.

Pude entrevistar outro signatário do Pacto das Catacumbas, dom Pedro Casaldáliga, falecido em 8 de agosto de 2020. Era setembro de 2014 e perguntei-lhe sobre dom Óscar Romero. Como um profeta de nosso tempo, escreveu-me: “Foi um cristão de verdade, que se deixou converter pelo povo dos pobres e pelo sangue dos mártires. Um cristão que viveu a fé encarnada na caminhada histórica de seu povo. Um santo da nossa América na Igreja da Libertação”.

Em 1977, o bispo salvadorenho recebeu as chaves de sua residência, a poucos metros da capela. Uma casa também simples que ainda hoje guarda relíquias: objetos pessoais que revelam o gosto de dom Óscar Romero por fotografia, a batina usada no dia de sua morte, com a mancha deixada pelo sangue, um solidéu, a mitra, pares de óculos, livros, muitos livros, e o calendário com data de 24 de março. Ali, o tempo parou. A cama em que repousava e o gravador no qual registrava seu dia a dia também estão lá.

O corpo de dom Óscar Romero está sepultado na Cripta da Catedral de São Salvador, capital do país, um local de peregrinação.

A Comissão da Verdade em São Salvador  concluiu que o assassinato do arcebispo salvadorenho Óscar Arnulfo Romero, ocorrido há 41 anos, foi produto de uma conspiração entre o governo de El Salvador e um “esquadrão da morte”, grupo paramilitar de extrema-direita comandado pelo então chefe do exército, Roberto D’Aubuisson. O assassino havia recebido mil colones salvadorenhos (a moeda local) para disparar contra o arcebispo de São Salvador. Atualmente, um colon equivale a US$ 0,22.


Vida e família

Natural da cidade de Berrios, província de San Miguel, Óscar Romero nasceu em 15 de agosto de 1917. Era um entre os oitos filhos do casal Santos Romero e Guadalupe de Jesús Galdámez. Foi criado em uma família simples. Aos 13 anos de idade entrou para o seminário menor, dos padres claretianos de San Miguel. Foi para Roma completar o curso de teologia com 20 anos e se ordenou sacerdote em 1943.

Em 1967 foi nomeado bispo auxiliar de São Salvador e em 22 de fevereiro de 1977 designado arcebispo da capital.  No mês seguinte à sua nomeação viu camponeses e sacerdotes sendo assassinados pelas forças de segurança de El Salvador. Entre as vítimas estava Rutílio Grande García, jesuíta, que será beatificado em 22 de janeiro de 2022.

Para o papa Franscisco, “são Óscar Romero soube encarnar, com perfeição, a imagem do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. Por isso, agora e, sobretudo, desde a sua canonização, vocês podem encontrar nele ‘exemplo e estímulo’ no ministério que lhes foi confiado: exemplo de predileção pelos mais necessitados da misericórdia de Deus; estímulo para testemunhar o amor de Cristo e a solicitude pela Igreja. Que o santo bispo Romero os ajude a ser, para todos, sinais da unidade na pluralidade, que caracteriza o santo povo de Deus”, disse por ocasião da canonização de Romero, em 14 de outubro de 2018. 

Confira na pequena galeria abaixo uma série de fotos de Andrea Guarniere, fonte desta reportagem e que aparece numa das imagens, sobre espaços de memória, perigrinação e culto a Santo Óscar Romero, em San Salvador (El Savador). Dom Romero é também patrono da Associação de Comunicação Católica SIGNIS, mantenedora da Agência de Notícias SIGNIS. 

Galeria de imagens

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