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Artista cearense percorre o Brasil levando arte sacra a igrejas e comunidades

Aos 36 anos, Maria Fonseca se inspira em Cláudio Pastro e chama atenção por seus traços leves que convidam ao encontro com o belo e o sagrado.

Há 7 meses - por Karla Maria
Artista cearense percorre o Brasil levando arte sacra a igrejas e comunidades
(foto por Arquivo pessoal)

“Eu sou a porta”, diz o Livro de João, no versículo 9, do capítulo 10. Atravessar essa porta, deixando para trás a Babilônia externa para um encontro com a Jerusalém Celeste e com o lugar do repouso n’Ele, é o propósito daquela que faz de sua arte uma linguagem universal do amor manifestado no próprio Cristo.

Essa é a missão de Maria Fonseca. Natural de Fortaleza, a artista sacra de 36 anos percorre o país pintando a boa nova e promovendo o encontro com o Criador por meio de suas pinturas. Maria vem se destacando no cenário da arte sacra a cada novo traço, a cada nova beleza registrada nos templos e na história das comunidades pelas quais passa.

Nossa conversa aconteceu algumas horas antes horas antes de Maria iniciar um novo trabalho em Tocantinópolis, no Estado do Tocantins, a cerca de 2.220 quilômetros de distância, encurtados por uma internet instável. A artista revelou que estava esperando a finalização do trabalho dos pedreiros para iniciar o seu, que sempre começa com a escuta atenta aos clientes, seja o pároco ou o conselho da comunidade, ciente de que seu trabalho marcará gerações.

“Também me coloco muito no lugar deles. Observo muito”, contou, lembrando que a observação e a convivência chegam a ser tão intensas que traços dos meninos que a rodeavam, enquanto pintava sobre andaimes em uma comunidade no Pará, já apareceram em obras. “O Cristo saiu com cara de menino indígena. Depois eu fico olhando e vou vendo as semelhanças”, disse revelando outra de suas marcas: realçar a pluralidade do povo brasileiro.

 

Conduzir ao mistério do sagrado

 

Após a escuta e observação vem a oração. Como ela mesma diz, não se trata apenas de uma forma, “e sim de uma obra catequética formativa, somada à mistagogia”, em que faz “o fiel também gozar um pouco dessa relação entre ele e Deus”, explica Maria.

A palavra “mistagogia” é de origem grega e significa a ação de guiar, conduzir para dentro do mistério, e é isso que Maria faz.

A rotina do seu trabalho inclui um café da manhã que pode ser na casa paroquial, de alguém da comunidade ou em um hotel de alguma cidade deste imenso país, o que determina também seu cardápio: ovos, inhame, pãozinho na chapa, pão de queijo, açaí, um peixinho, tudo varia e acompanha o sabor e o sotaque local.

Após um trajeto feito a pé, carro ou barco, Maria chega à igreja. Diante da “tela” em branco, que pode variar de tamanho, traça o sinal da cruz, sobe os andaimes e, acompanhada por pincéis, tintas e seu celular, inicia seus desenhos. Antes, contudo, aciona a playlist de músicas que a inspiram na arte de dar concretude ao mistério do encontro com o próprio Deus. Celina Borges e Ziza Fernandes são alguns dos nomes que a acompanham em sua atividade.

“Eu entrego meu trabalho a Deus. Aí eu coloco uma música católica que tenha a ver com o que eu estou produzindo. Coloco uma música para que eu chame o Espírito Santo. Não é só a emoção, às vezes eu intercalo com áudios de passagens da Bíblia pra ouvir a passagem bíblica daquilo que eu vou criar. Eu tenho várias Bíblias de estudo e com várias traduções, e isso ajuda também a atentar aos detalhes”, reflete.

Então, como uma antropóloga, faz uma imersão em outros tempos e na mística de sua função, a artista vai desbravando passagens e cenários bíblicos, recontando histórias que só a Bíblia e a arte foram capazes de guardar de geração em geração.

“Eu quero que as pessoas entrem e olhem pra aquilo que está sendo representado e principalmente pro olhar. O olhar de Cristo, o olhar de Nossa Senhora, o olhar dos santos, a sua piedade”, diz a iconógrafa, que explica. “Não é à toa que eu sou iconógrafa. Estudo e vou nos detalhes. O ícone tem esse peso: bíblico, teológico, litúrgico, mas também da espiritualidade do lugar. Então, às vezes, eu entro com um pouco de inculturação com o com o nome do lugar, com a devoção específica daquele lugar”.

 

Lectio Divina

 

Maria encara seu ofício com a responsabilidade de quem sabe que está pintando e marcando a história de uma comunidade de fé, tal como aconteceu com as primeiras comunidades cristãs. “As primeiras igrejas cristãs faziam todo o ritual pra poder provar do amado e a arte nos dá essa graça, a de olhar com um olhar dócil porque ela abre o meu coração para assim Deus entrar”.

Sobre a responsabilidade, Maria Fonseca sente um peso além do painel ali finalizado. “É uma questão catequética que é a evangelização também. [...] A Palavra de Deus vem e isso também a gente pode chamar de uma Lectio Divina, que eu posso trazer pra mim de uma forma pessoal e também levar para o outro”.

Desde os tempos antigos os cristãos que buscam conhecer melhor a Palavra de Deus praticam a leitura orante da Bíblia, a chamada Lectio Divina, a fim de meditar e contemplar cada passagem. E é exatamente isso que Maria e os artistas sacros buscam possibilitar aos fiéis.

 

Influências de Cláudio Pastro

 

“A arte sacra é servidora. Se ela toma o lugar central não é mais arte sacra, pois não está mais servindo a um mistério. Veja o Santuário de Aparecida, com 34 painéis que nos trazem todo o Evangelho: é de uma beleza e singeleza, mas também de uma força, porque a beleza nos agarra, nos educa, por mais que o povo simples não tenha a compreensão teológica”, disse-me em uma ocasião o também artista sacro Guto Godoy, aluno de Cláudio Pastro.

Maria também foi aluna de Pastro, e não por acaso seus traços lembram os do mestre, falecido em outubro de 2016. De perto, ela observou a técnica do artista aos 16 anos de idade. “Eu sou iconógrafa, então olho muito os iconógrafos pelo mundo. Comecei com a iconografia tradicional bizantina e fazia cópias de alguns ícones. Depois conheci Cláudio Pastro e o trabalho dele. Fiz algumas reproduções do Cláudio [...] Identifiquei-me muito e fui afinando mais pra um estilo próprio, tentando um estilo próprio até hoje, mas na verdade as coisas vão fluindo, porque algumas regrinhas da iconografia eu aplico em alguns desenhos. Às vezes eu fujo um pouco, deixo a coisa mais moderna”.

A comparação das obras é algo natural para os fiéis frequentadores de comunidades,  por isso lisonjeira, já que Pastro marcou a história da arte sacra. “Conseguiu firmar-se como um dos grandes expoentes desse tipo de expressão artística nas últimas décadas no país, abrindo espaço, graças às suas publicações sobre o espaço sacro e litúrgico e ao seu estilo simples e acessível, para muitos outros jovens artistas sacros”, disse Sérgio Prata, artista plástico e técnico de pinturas formado pela École Nationale Supérieure des Beaux Arts de Paris.

“Cláudio Pastro superou muitos artistas. Eu não tento copiá-lo, apenas sobreviver da minha arte também. Mas ele era um grande pesquisador além de artista em si”, declara a artista e colega de Pastro, cujo corpo está enterrado no Mosteiro Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra, sua casa espiritual em vida.

 

Vocação

 

Maria Fonseca acredita que seu trabalho seja resultado de sua experiência pessoal com Deus. “A minha pintura não é decorativa. É como se eu tivesse contando uma boa nova, como aquele que recebeu algo maravilhoso e disse ‘gente, olha isso aqui como é lindo’”. Além da experiência há muita técnica. Maria mostrou vocação para a arte desde pequena.

Quando era criança pegava os arames de caderno e saía criando esculturas. Na pré-adolescência, em sua fase mais rebelde, admite, incentivada pela mãe dona Lídia Maria, que ajudava um pessoal a pintar umas capelas. Tinha 11 anos de idade quando deixou suas primeiras pinceladas pelo ar. “E com treze anos eu tive a minha primeira experiência, porque antes eu ia só pra olhar”.

Dona Lídia promoveu um jantar em casa e convidou os artistas da comunidade. Fazia de tudo para aproximar a filha do caminho da arte. “Ela gostava de arte também, ela amava a arte, sempre fez curso, mas seu dote artístico era dança e música. Ela tocava piano”, conta a filha.

Autodidata, Maria estudou arte sacra no atelier Agios Mandylion, referência na iconografia que se faz no Brasil e localizado na Igreja Nossa Senhora do Paraíso de São Paulo, um templo católico greco-melquita, de rito oriental. “Foi uma experiência magnífica. Pude ouvir, observar e aprender muito mais. E depois disso, eu comecei a dar aula. Foram muitos anos dando cursos pelo país, era itinerante”.

A artista segue pintando pelo país. Portanto, se estiver passando por uma igreja em obras e escutar uma mulher sobre um andaime de sorriso largo e aos cantos, observe bem, porque pode ser Maria Fonseca criando para que ali o sagrado se manifeste.

Galeria de imagens

Comentários

  • Juracy Fernandes Eufrasio

    Muito bonito seu trabalho, sou coordenador de capela e gostaria de poder entrar em contato com Maria Fonseca

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