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Aprendizados do cárcere, com ou sem vírus

Com a expansão da vacinação, cristãos voltam a se encontrar nas missas e aprendem a valorizar este que é o momento ápice de alimento, partilha e esperança na liberdade e no isolamento

Há 7 meses - por Karla Maria
Missa na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Região Episcopal Brasilândia, de Arquidiocese de S. Paulo: comunidade se reencontra presencialmente em torno da Eucaristia e da Palavra
Missa na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Região Episcopal Brasilândia, de Arquidiocese de S. Paulo: comunidade se reencontra presencialmente em torno da Eucaristia e da Palavra (foto por Karla Maria )

Chovia forte naquele dia. Era o quinto sábado de janeiro de 2022. Quase 19h, e a igreja estava preenchido de cadeiras de plástico brancas e beges, e nelas uma gente bonita, muitas de cabelos grisalhos, com máscaras e sorrisos escondidos. Os tijolinhos à mostra, sem pintura, bem como os pingos da chuva que chegavam de lado, das janelas sem vidro, denunciavam a obra inacabada.

Ninguém se importava. As mulheres da comunidade, sempre elas, secavam as cadeiras com paninho e com o rodo puxavam a água que insistia em fazer parte da missa. Estávamos na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, do bairro Cruz das Almas, na periferia de São Paulo, a mesma em que meus pais se casaram em 1982. Um detalhe de bastidores.

A missa daquela noite ganhara contornos históricos não só para a repórter, mas para a comunidade paroquial de 64 anos, que ali, durante a Celebração Eucarística, deu posse a seu novo pároco, padre Reinaldo Torres, e vigário, padre Alvaro Moreira. Era, portanto, um momento de encontro e reencontro após severo isolamento em decorrência da pandemia de Covid-19. Momento de partilha e celebração, escuta, memória e comunhão em torno da figura de Jesus Cristo.

 Para compreender o valor da missa, em uma entrevista ao jornal La Stampa. o papa Francisco explicou que “devemos primeiro compreender o significado bíblico do ‘memorial’”.  Disse o papa: “Não é apenas a memória dos acontecimentos do passado, mas os torna de certo modo presentes e atuais”. Francisco destaca que cada Eucaristia é, portanto, uma passagem pascal, uma espécie de acordo entre os irmãos na experiência de Cristo ressuscitado.

Durante o período de isolamento a que a humanidade foi submetida em decorrência da Covid-19, muitas foram as experiências e esforços que se apresentaram para suprir a ausência da missa, dessa experiência coletiva em memória ao sacrifício de Cristo. Para padre Rodrigo Thomaz, as tentativas foram muitas e com bons frutos.

 

"Conhecer o rito com seus significados, a beleza que é a missa pode ser um caminho. Agora, a oração diária, por exemplo, é também um caminho do apaixonar-se pela missa. Porque a missa é a fonte e o ápice e esse momento precisa ser alimentado com as orações diárias, e aí as pessoas têm as suas devoções, o terço, novena.... Então, viver uma vida de oração, te leva inevitavelmente para a missa” (Padre Rodrigo Thomaz)

 

“Eu acredito, inclusive, que essa história do remoto veio pra ficar. Claro que nada substitui o presencial, mas para as pessoas doentes, por exemplo, e para a catequese vimos que há opções que ajudam as famílias”, disse o padre, que é professor na  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e adaptou-se ao ensino a distância.

“A Igreja [Católica] aprendeu muito. Quando a pandemia aconteceu, eu estava morando em Roma e lá acompanhávamos as missas transmitidas pelo papa, diariamente. E sabe o que é interessante? O papa captou a ideia de que aquilo ali era um jeito dele falar com o mundo todo [...] Lembra-se daquelas cenas dele, no auge da pandemia, lá na Itália andando na Praça São Pedro? Foi muito forte ele sozinho naquela garoa, ali nós entendemos o significado da participação ativa. Éramos Igreja com o papa, mesmo a distância”, explicou o padre que, em Roma, ficou de fato isolado, trancado em casa, com autorização para sair uma vez por semana para comprar suprimentos.

“Então eu acho que a gente aprendeu muito, mas há muito o que aprender, porque as redes sociais têm os seus perigos, haja vista as fake news”, conta o padre, que aos 40 anos de idade e 13 de sacerdócio, orienta aos fiéis que façam uso maduro e consciente do tempo, valorizando os momentos dedicados à oração, à missa, ao trabalho e à família, cuidando para que esses momentos não sejam banalizados.

Padre Rodrigo conta com 30 minutos de redes sociais por dia. A disciplina, que pode ter vindo do seminário, é uma das estratégias que o sacerdote usa para otimizar seu tempo e aquilo que de fato precisa ser valorizado, cuidado, amado. “O celular tem feito mal pra muita gente. Não só durante a missa. É um desafio mesmo dos nossos tempos”.

Para ele, para que a missa (seja no formato presencial ou vias transmissões) seja valorizada e vivida de modo efetivo com uma presença consciente, é preciso que os católicos voltem a entendê-la, desejá-la, como aquele que prepara uma grande festa, um bonito encontro.

“Conhecer o rito com seus significados, a beleza que é a missa pode ser um caminho. Agora, a oração diária, por exemplo, é também um caminho do apaixonar-se pela missa. Porque a missa é a fonte e o ápice e esse momento precisa ser alimentado com as orações diárias, e aí as pessoas têm as suas devoções, o terço, novena.... Então, viver uma vida de oração, te leva inevitavelmente para a missa”, disse o padre lembrando da célebre frase de um dos livros mais vendidos no mundo, o Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry: “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade!”

A missa no cárcere

Quem vive no cárcere sabe bem o que é esperar, e dentro de um presídio, a espera por uma missa é ansiosa e culmina em alívio e presença, partilha sem julgamentos, só esperança. Ali, em uma capela ecumênica, espaço livre para a propagação da fé seja ela qual for, a presença do padre e da Eucaristia se torna um momento de banquete, e quem já comeu em presídio pode compreender bem o significado dessa “refeição”.

A partilha do pão é uma das referências mais originais a respeito da Eucaristia; a expressão “partilha do pão” indica um ato de partilha do alimento, a refeição em comum. Mas padre Mauro Negro, professor de teologia bíblica e exegese, lembra em seu artigo Refeição, Fração do Pão, dar Graças que, no Evangelho segundo São Lucas (cf. Lc 24,13-35), essa refeição vai adquirir mais significado.

 

 “Nós levamos a Palavra de Deus, lá nós os ouvimos. São nossos irmãos e estão ali cumprindo uma pena, mas que seja com dignidade” (Rosa Pereira Lima, coordenadora da Pastoral Carcerária de Guarulhos-SP)

 

“Dois discípulos de Jesus, na tarde de domingo depois da Paixão e Morte do senhor, caminhavam entristecidos, de Jerusalém para Emaús, dialogando sobre a tragédia daqueles dias: o fracasso de Jesus como profeta e anunciador do Reino. E Jesus [depois de preso e torturado] ressuscitado pôs-se no meio deles, como outro viajante”, conta o padre.

Jesus estava no meio dos discípulos, e foi em torno de uma mesa, durante uma refeição que ele tomou o pão, o abençoou e o partiu. “O partir do pão assinala a presença de Jesus”, escreve padre Mauro Negro.

Jesus, um preso e torturado, morto na cruz, estava ali com os presos de nossos tempos. Lembro bem das mãos postas para trás dos que acompanhavam a oração do Pai Nosso, depois dos braços erguidos em louvor a Nossa Senhora, a Mãe nossa. Tudo seguido pelos olhos e quem sabe corações dos agentes penitenciários que observavam o comportamento da comunidade de fé ali reunida em torno do altar. Além, claro, de agentes da Pastoral Carcerária.

Esses homens e mulheres presas, bem como os funcionários do sistema carcerário precisam da nossa presença e oração. Eles precisam de esperança e celebrar Jesus é celebrar a esperança”, disse-me padre Valdocir Aparecido Raphael em um desses tantos dias de cadeia como repórter. Na ocasião, padre Valdocir era coordenador da Pastoral Carcerária da Diocese de Guarulhos.

Ele presidiu a missa na capela do presídio, cujos microfones, bancos, guitarra e bateria estavam a postos para a liturgia. Estávamos na Penitenciária José Parada Neto, ali na Rodovia Dutra, na cidade de Guarulhos, tempos antes da pandemia, mas a experiência da missa dentro do presídio tão vivida pelos agentes da Pastoral Carcerária, pelos presos e agentes do sistema carcerário chamava a atenção pela sede do próprio Cristo.

“Agradeço muito a presença de todos vocês aqui. Obrigado por acreditarem em nós e nos devolverem a esperança, porque assim como Jesus foi preso um dia, hoje nós estamos presos e daqui sairemos novos”, disse-me emocionado um Jerônimo, na ocasião com 50 anos de idade.

A presença do Cristo na Eucaristia, ali na missa, era sua esperança. “O pão que Jesus propõe, que começou com o pão sobre no qual Ele deu graças ou fez Eucaristia, não é apenas um alimento para a digestão e força física; é para que o homem se supere a si mesmo, divinizando-se com a intimidade de Jesus. É a porta para uma realidade nova, que constantemente se refaz, como em uma criação renovada”, explica padre Negro, o biblista.

“Receber esse apoio espiritual é muito importante pra suportar a vida aqui dentro. Ajuda a colocar a cabeça no lugar pra quando chegar a hora de sair daqui, porque eu sei que não será fácil. Ninguém dá emprego para ex-presidiário”, disse Ronaldo*, um jovem que estava no intervalo de seu trabalho na cozinha, onde providenciava as refeições dos 2.342 presos.

Agora, estamos em outro presídio, o Parada Neto, ainda em Guarulhos, e ali continuamos aquilo que Jesus Cristo fez: damos graças sobre o pão, partilhamos e comemos. Uma outra capela, outros bancos e nomes, mas uma mesma fé. “Nós levamos a Palavra de Deus, lá nós os ouvimos. São nossos irmãos e estão ali cumprindo uma pena, mas que seja com dignidade”, comentou Rosa Pereira Lima, coordenadora da Pastoral Carcerária na cidade.

Rosa nunca está sozinha. São vários os agentes da pastoral que voluntariamente dedicam um tempo de suas vidas para levar algum conforto e assistência jurídica aos que cumprem pena. Levam a Palavra de Deus. “O anúncio da Palavra de Deus é a primeira parte da Eucaristia. A Palavra indica o caminho, que é Jesus, reúne e forma a Igreja, preparando para a ceia, a partilha da presença do Senhor”, registra padre Mauro, e não por acaso, a Bíblia é o livro mais popular dentro dos cárceres.

As leituras, os Salmos, as exortações em torno da Palavra de Deus indicam que Ele o próprio Cristo, se comunica. O papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudim: o Anúncio do Evangelho no mundo atual (2013) destacou “[...] a homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor como seu povo [...], e mais “É oportuno recordar que a ‘proclamação litúrgica da Palavra de Deus, principalmente no contexto da assembleia eucarística, não é tanto um momento de meditação e catequese, como, sobretudo, o diálogo com Deus com o seu povo...”.

O quanto este momento de diálogo tem sido efetivo, transformador e valorizado é um tema delicado para tantos dos que fazem da missa – por vezes - um evento social e cultural apenas. Corre-se o risco de perder-se a essência da Eucaristia, como lembrou-nos em linhas anteriores padre Rodrigo Thomaz, mas como apontaram nossos irmãos aprisionados, pode ser momento de reencontro e esperança, tão desejado, valorizado e transformador.

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