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Jornal Brasil Hoje marca trajetória do jornalismo católico no Brasil

No ar desde 1996, programa chega à edição de número 10 mil com histórico de coberturas especiais e de temas sociais.

Há 8 meses - por Cléo Nascimento
Jornal Brasil Hoje marca trajetória do jornalismo católico no Brasil
Em 1980, quando o Papa João Paulo II esteve no Brasil pela primeira vez, um grupo de emissoras (pool) foi formado para reportar sua passagem pelo país. A iniciativa partiu da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) e, embora a Igreja Católica estivesse diretamente envolvida na organização, a cobertura jornalística do evento - considerada uma das mais amplas da história brasileira - ficou, sobretudo, nas mãos de grandes veículos da época.
 
João Paulo II passou pelo Brasil outras três vezes, mas apenas na última, em 1997, a Igreja conseguiu organizar sua própria cadeia de transmissão. Os quatro dias em que o papa aqui permaneceu foram acompanhados e registrados também por veículos de comunicação católicos de diversas regiões do país. Pelas ondas do rádio, um programa recém criado noticiou para cerca de 200 emissoras em rede esse momento histórico. Era o Jornal Brasil Hoje, da Rede Católica de Rádio (RCR) que, nesta quinta-feira (10), chegou à sua edição de número 10 mil.
 
A história do JBH está estreitamente ligada à Rede Católica de Rádio e sua criação. Entre o final da década de 1980 e meados de 1990, o Brasil acompanhou um crescimento importante de veículos de comunicação de inspiração cristã-católica e o surgimento da maior rede de rádios do Brasil, a RCR, em 1994. 
 
Mais que ser um órgão representativo, a RCR percebeu que precisava apresentar alternativas para suprir as principais carências das emissoras, especialmente as menores e de regiões distantes de grandes centros urbanos. Essas carências eram "o jornalismo, a qualidade técnica para transmitir grandes eventos e ainda alguns programas de curta duração em horários comuns a todos", conforme apontado em um documento de 1996, contendo informações sobre o jornal.
 
Um dos expoentes do Jornal Brasil Hoje foi Padre Jesus Flores - que faleceu em setembro de 2021. "Criamos a Rede Católica de Rádio com um grande jornal, com representantes em diversas partes do país, tentando ver a realidade do Brasil e analisar essa realidade a partir da ótica do Evangelho", lembrou o missionário redentorista em um vídeo produzido para o Mutirão de Comunicação (Muticom), no ano passado.
 
Por dez anos, Pe. Jesus Flores foi o responsável pela produção e comentários do JBH, enquanto era gerado pela Rádio Difusora de Goiânia. "Jornalismo católico que se preza olha a realidade, analisa a realidade, julga a realidade e, sob a ótica do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja, se posiciona a favor ou contra as políticas do país e de suas autoridades. Ao jornalismo cabe perguntar se a política pública contribui para o bem ou para o mal da maioria ou minoria da população", disse em um de seus comentários para o Jornal Brasil Hoje, da TV Pai Eterno, da mesma rede em que o programa iniciou.
 
Alcance nacional e de temas sociais
 
A princípio, o JBH era levado ao ar de segunda a sábado, via satélite e com tecnologia digital. Repórteres distribuídos em 22 estados traziam a cada edição um panorama dos principais acontecimentos do Brasil, com destaque para os temas sociais. Na época, a RCR mantinha uma sucursal em Brasília, cuja equipe garantia ampla cobertura ao Congresso Nacional, Palácio do Planalto, Ministérios e Poder Judiciário. Um desses profissionais era o experiente jornalista Romoaldo de Souza que, diariamente, fazia entradas "ao vivo", levando as principais informações da capital federal.
 
"Nós tínhamos uma grande preocupação que era estar com programas, com movimentos e com ideias sociais, sejam da sociedade civil, sejam do governo. E, me lembro bem que o então ministro da reforma agrária Raul Jugmann levou a Rede Católica de Rádio a acompanhar várias experiências de trabalho que o governo desenvolvia na área da reforma agrária", episódio que recordou em entrevista para a edição comemorativa do JBH que, desde 2020, está sob produção da Rádio Cultura de Guarapuava.
 
O jornalista acompanhou de perto fatos importantes. Em 2010, a convite da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), pode relatar a situação do país, após a tragédia ocorrida em janeiro daquele ano. Em 2007, Romoaldo também participou de uma entrevista com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
  

Reprodução: Revista Integração

 
Lula não foi o único presidente da república a ser ouvido por jornalistas do Brasil Hoje. Fernando Henrique Cardoso, durante seus mandatos, também recebeu a RCR para entrevistas exclusivas e, claro, reproduzidas pelo JBH.
 
Reprodução / Pe. Cesar Moreira e Pe. Jesus Flores em encontro com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
 
 
Falando à revista Integração da SIGNIS, Pe. César Moreira lembrou que, entre os resumos de imprensa levados todos os dias ao presidente, estava o do Jornal Brasil Hoje. "E não foram poucas vezes em que se fizeram ouvir reclamações pelos editoriais, tidos como agressivos aos interesses e às verdades do governo".
 
Também os comentários do Pe. César Moreira se destacaram na história do programa, especialmente no período em que esteve sob o comando da Rádio Aparecida, entre os anos de 2005 a 2018. 
 
"Vale deixar bem claro: fazer jornalismo opinativo sempre significou para a Rede Católica de Rádio o mesmo que evangelizar. Ou sendo mais explicito: mostrar os fatos que mais dizem respeito à vida do povo, defender os que menos conseguem se fazer representar, exigir direitos, expor princípios humanos e cristãos, cobrar ética no trato da coisa pública são posturas decorrentes do anúncio da chegada do Reino preconizado pelo Evangelho", disse o religioso.
 
 
Coberturas Especiais da Igreja
 
Por diversas vezes, a Igreja acompanhou a cobertura de grandes fatos, temas e eventos que lhe diziam respeito a partir da perspectiva de veículos de comunicação alheios à sua missão e valores, como visitas papais, conclaves e até mesmo festas populares.
 
O apoio dos mais recentes pontificados foi importante para essa presença eclesial na esfera midiática. João Paulo II, Bento XVI e Francisco incentivaram e favoreceram a compreensão de que isso era urgente e necessário: a Igreja precisava, ela mesma, contar para a sociedade, a partir de sua própria ótica, os seus próprios acontecimentos.
 
Em 2013, quando o Papa Francisco esteve no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, a Rádio Catedral - integrante da RCR - ficou responsável por gerar o evento em uma das maiores coberturas da imprensa católica.
Nos microfones da emissora e de uma maneira informal, Francisco afirmou: "Eu diria que, uma rádio católica, hoje em dia, é o púlpito mais próximo que temos de onde podemos anunciar os valores humanos, os valores religiosos e, sobretudo, anunciar a Jesus Cristo, ao Senhor. Dar ao Senhor essa graça de colocá-lo em nossas coisas".
 
Dom Orani João Tempesta, cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, ao lado do Papa Francisco, durante a Jornada Mundial da Juventude
 
O Jornal Brasil Hoje mais uma vez noticiou cada passo do pontífice, cuja eleição também pode acompanhar diretamente de Roma, em março daquele ano. O jornalista Tales Giovani Armiliato, enviado especial da RCR, trazia boletins atualizados. Todos os episódios, desde renúncia do Papa Bento XVI à escolha de Jorge Mario Bergóglio, repercutiram nas edições do JBH.
 
"A partir do Papa conhecido, acompanhamos as mais diversas ações e momentos de reflexão de Francisco. Sua primeira oração, a missa de início do pontificado, o primeiro Ângelus e, até mesmo, o encontro com a presidente Dilma Roussef. Acho que conseguimos revelar os primeiros passos de Francisco e, melhor, com momentos de pura exclusividade para o Brasil, em se falando de radiojornalismo", contou Tales em reportagem da revista da SIGNIS.
 
Reprodução: Revista Integração | Jornalista Tales Giovani Armiliato, enviado pela RCR para cobrir o conclave em 2013.
 
Também o Papa Bento XVI recebeu atenção especial quando esteve no Brasil, em 2007. Todas as notícias sobre sua estadia e sobre a Quinta Conferência-Geral do episcopado Latino-americano e Caribenho foram reproduzida para dezenas de emissoras, por meio da Rede Católica de Rádio.
 
Reprodução: Revista Integração 
 
 
JBH mantém sua linha editorial
 
 
Nestes 26 anos, o Jornal Brasil Hoje foi produzido e editado por diversas emissoras e profissionais. A condição para abrigar o programa sempre foi manter a sua linha editorial e seu compromisso com a Igreja.
 
Angelica Lima, que foi apresentadora e editora do jornal, quando ele este sob os cuidados da Rede Imaculada, entre 2018 e 2020, lembra do compromisso profético, como uma das marcas do JBH. "É missão da Igreja e nós, enquanto veículo de comunicação que da voz à Igreja, a gente tem que noticiar, a gente tem que cobrar, tem que denunciar, o que incomoda muita gente, até mesmo dentro da própria Igreja. E, para nó, enquanto jornalistas, a gente tem o compromisso com a informação e é isso que o Jornal Brasil Hoje faz".
 
Hoje, a edição do JBH esta a cargo do jornalista Cleber Moleta que, ao lado de Jorge Teles, vice-presidente da Signis Rádio/RCR, apresenta de segunda a sexta-feira o programa. Para ele, a função representa uma realização profissional, justamente por compreender o jornalismo como algo essencial para o debate público e para a cidadania.
 
"Não há cidadania, não há acesso à direitos se você não tem informação. Eu busco no dia-a-dia, trabalhando também no Jornal Brasil Hoje a realização desse anseio, porque a gente tem um compromisso ético muito grande. Estando à frente do programa, eu acredito que consigo cumprir plenamente aquilo que eu me propus quando busquei o jornalismo como caminho profissional".
 
 
Edição 10 mil
 
Ao final do programa deste dia 10 de fevereiro, os apresentadores deixaram uma mensagem de agradecimento:
 
"E nós lembramos ao longo dessa semana, especialmente hoje, de pessoas que ajudaram a construir essa história. Mas, se chegamos à edição dez mil, temos que agradecer a você, ouvinte de todo o Brasil. Graças ao seu carinho, a sua confiança, a sua crítica, seguimos aqui. Não existe rádio se não existir você, ouvinte. E o Jornal Brasil hoje segue com o compromisso de trabalhar por você. Atender a sua necessidade de informação, sempre alicerçado nos valores do jornalismo e da comunicação de inspiração católica. Hoje é dia de dizer principalmente muito obrigado a você".
 
 

Cleber Moleta e Jorge Teles, apresentadores do Jornal Brasil Hoje | Reprodução: Facebook Rádio Cultura de Guarapuava

 
Confira alguns trecho dos depoimentos, concedidos e reproduzidos ao longo desta semana, por ocasião da marca de 10 mil edições.
 
"Imaginemos quantas informações em mais de 10 mil edições. Quantas alegrias e quantas tristezas narradas e comunicadas. Mas, acima de tudo, quanta informação que nos formou, derrubou em nós o muro do preconceito e do não saber".
Silvonei José, jornalista do Vatican News
 
"Parabéns Jornal Brasil Hoje, 10 mil edições. Que maravilha, que lindo e também tão desafiador. Quantas histórias... quantas notícias, histórias de alegria, conquistas. Quantas histórias de tristeza, de decepção... Mas, sobretudo, o Jornal Brasil Hoje sempre esteve fiel ao seu compromisso de levar a verdade, de levar o jornalismo, sempre à luz da esperança, a partir do Evangelho de Jesus"
Angela Morais, presidente da RCR - SIGNIS Rádio
 
"Nós tivemos sempre essa abertura, nós não nos preocupávamos em fazer notícias da Igreja, porque a Igreja vai ser notícia a mesma coisa. Mas se tratava justamente de temas da política, da educação, das questões sociais, e com os critérios dos direitos humanos (...) Porque nós acreditamos que com isso contribuímos para formar cidadãos, pessoas conscientes, pessoas que sabem escolher. Então me marca muito dizer que naquele tempo e hoje também o jornalismo precise ser pautado por esses valores (...) Aquele princípio de que nós não precisamos falar explicitamente de Deus, mas falamos cristamente de todas as coisas e o jornalismo é uma oportunidade enorme que as nossas emissoras cultivam e que o Jornal Brasil Hoje sempre teve em pauta"
Irmã Helena Corazza, religiosa paulina, uma das fundadoras da RCR
 
"O Jornal Brasil Hoje é, ao mesmo tempo uma realidade, porque ele acontece diariamente, unindo toda a Igreja, e é também um emblema. Ele é simbólico porque, além de ser um jornal há tanto tempo no ar, prestando um serviço da boa notícia, sem fake news, unindo pessoas, ele é ainda o desejo que nós temos. Ou seja, da Igreja toda unida nessa direção de termos uma boa comunicação, com um bom jornalismo".
Dom Joaquim Giovanni Mol, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a comunicação
 
 
O Jornal Brasil Hoje é veiculado de segunda a sexta-feira, das 7h às 7h30 (pelo horário de Brasília) e transmitido por emissoras da RCR e Signis Rádio. A edição 10 mil do jornal pode ser ouvida na seção "Podcasts".

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