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Biblioteca Vaticana recupera manuscrito perdido desde o século XVIII

Códice histórico da Biblioteca Palatina de Heidelberg, desaparecido desde 1798, retorna ao acervo da Biblioteca Apostólica Vaticana após identificação no mercado de antiguidades

Há 1 mes - por da redação com ACI DIGITAL
Biblioteca Apostólica Vaticana. | Vatican Media
Biblioteca Apostólica Vaticana. | Vatican Media

A Biblioteca Apostólica Vaticana incorporou recentemente às suas coleções um manuscrito de extraordinário valor histórico e filológico, considerado perdido desde o fim do século XVIII. Trata-se do códice identificado como Palatinus Latinus 851, volume que pertenceu originalmente à célebre Biblioteca Palatina de Heidelberg, cujo acervo foi em grande parte transferido para Roma em 1623.

O manuscrito foi adquirido pela Biblioteca Vaticana após ter sido colocado à venda pela livraria de livros antigos Inlibris, de Hugo Wetscherek, em Viena, especializada em obras raras.

A intervenção decisiva de Heidelberg

A operação só foi possível graças à intervenção de Jochen Apel, diretor da Biblioteca Universitária de Heidelberg. Ao tomar conhecimento de que o manuscrito estava disponível no mercado de antiguidades, Apel entrou em contato com o padre Mauro Mantovani, prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana, alertando sobre a possível identificação da obra.

A partir desse contato, a Biblioteca Vaticana conseguiu adquirir o códice e reintegrá-lo à coleção histórica à qual pertence.

Conteúdo e origem do manuscrito

Produzido na Alemanha no início do século XVI, provavelmente na cidade de Worms, o códice é composto por 115 fólios em papel, além de duas folhas de guarda. O volume reúne cinco textos hagiográficos — dedicados a São Ciríaco, São Galo, São Mauro Abade, São Goar e São Burcardo, bispo de Worms — além da Historia Langobardorum, de Paulo Diácono.

Segundo comunicado oficial da Biblioteca Vaticana, o manuscrito é particularmente relevante pela raridade dos textos hagiográficos que contém. A diversidade de escribas envolvidos em sua produção reforça sua importância do ponto de vista filológico e histórico.

Encadernação histórica e vínculo com a Biblioteca Palatina

O códice conserva ainda uma encadernação datada de 1556, da qual permanecem os dois planos originais com o retrato de Ottheinrich, príncipe-eleitor do Palatinado entre 1556 e 1559, figura central na história da Biblioteca Palatina.

O valor da aquisição reside, sobretudo, no fato de que o manuscrito pôde ser identificado sem qualquer dúvida como o Pal. lat. 851, volume que havia desaparecido após a revisão do acervo realizada em 1798 na Biblioteca Vaticana.

Da Biblioteca Palatina a Roma

O manuscrito chegou a Roma em 1623, juntamente com milhares de volumes da Biblioteca Palatina de Heidelberg, considerada a mais importante biblioteca renascentista do Sacro Império Romano-Germânico. Fundada na década de 1430, a instituição tornou-se um símbolo do saber humanista e do protestantismo europeu.

A transferência dos manuscritos ocorreu no início do século XVII, organizada por Leone Allacci, então responsável pelo inventário dos manuscritos gregos da Biblioteca Vaticana, e foi resultado de uma doação feita por Maximiliano I da Baviera ao papa, em agradecimento pelo apoio da Santa Sé durante a Guerra dos Trinta Anos (1618–1648).

Identificação e percurso do manuscrito

A identificação definitiva do códice foi confirmada por meio dos inventários históricos dos fundos palatinos e pelas assinaturas e ex-líbris preservados nas folhas de guarda. Esses elementos documentam a passagem do manuscrito por importantes colecionadores desde o fim do século XVIII, entre eles Frederick North, quinto conde de Guilford, Sir Thomas Phillips e Maurice Burrus.

Cooperação acadêmica e preservação do patrimônio

Descrita pela Santa Sé como uma operação de “grande importância cultural e científica”, a recuperação do manuscrito foi realizada em poucos dias, graças à colaboração estreita entre a Biblioteca Universitária de Heidelberg, a Biblioteca Apostólica Vaticana e a livraria Inlibris.

Essa cooperação insere-se em uma longa tradição de intercâmbio entre as duas instituições. Em 1886, por ocasião do quinto centenário da universidade alemã, o papa Leão XIII enviou a Heidelberg os primeiros catálogos impressos dos manuscritos da Biblioteca Palatina. Um século depois, volumes do Vaticano foram emprestados para uma grande exposição na igreja Heiliggeistkirche, em Heidelberg.

Mais recentemente, em 2010, as duas instituições lançaram conjuntamente um projeto piloto de digitalização da Biblioteca Palatina, por meio do portal digi.vatlib.it, com o objetivo de preservar e tornar acessíveis esses tesouros documentais.

Um legado que retorna ao seu lugar

Com a recuperação do manuscrito Pal. lat. 851, uma peça fundamental desse patrimônio retorna ao seu contexto original, reafirmando o papel da Biblioteca Apostólica Vaticana como guardiã e servidora do patrimônio escrito da humanidade, a serviço da pesquisa, da cultura e da memória histórica.

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