Dom Oscar Romero: quando comunicar se torna um ato profético
Arcebispo salvadorenho fez do rádio um púlpito de verdade, denunciando injustiças e dando voz ao povo em meio à violência e à censura
Em um contexto marcado pela repressão, silêncio imposto e violência estrutural em El Salvador, uma voz atravessava as ondas do rádio e chegava aos lares, às comunidades e aos corações do povo. Era a voz de Óscar Romero, que transformou a comunicação em missão pastoral e em exercício radical de profetismo. Mais do que um líder religioso, Romero tornou-se referência mundial de uma comunicação comprometida com a verdade, justiça e a dignidade humana.
As homilias dominicais de Óscar Romero, transmitidas pela rádio arquidiocesana YSAX, não eram apenas momentos litúrgicos. Tornaram-se um verdadeiro espaço público de informação, reflexão e denúncia. Em um país onde grande parte da imprensa era censurada ou controlada, suas palavras assumiram um papel essencial:
- relatavam violações de direitos humanos
- denunciavam assassinatos e desaparecimentos
- traziam à luz histórias silenciadas
A cada domingo, o arcebispo construía uma narrativa que unia fé e realidade. Sua comunicação não era neutra era profundamente comprometida com o sofrimento do povo.
Fé encarnada na realidade
O modo de comunicar de Óscar Romero revela uma característica central de seu ministério: o profetismo. Suas homilias seguiam uma dinâmica clara e profundamente pastoral:
- escuta da Palavra de Deus
- leitura da realidade social
- discernimento à luz do Evangelho
Essa estrutura transformava a comunicação em um verdadeiro exercício de fé encarnada.
Romero não falava “sobre” o povo falava a partir do povo. Sua palavra nascia da escuta das dores concretas: mães que perderam filhos, trabalhadores explorados, comunidades ameaçadas.
Nesse sentido, sua comunicação realizava aquilo que hoje se reconhece como essencial: dar voz aos que não têm voz, interpretar os acontecimentos com responsabilidade ética, assumir posição diante da injustiça
O rádio como espaço de resistência
O uso do rádio por Romero antecipou práticas que hoje são reconhecidas como fundamentais na comunicação social:
- escuta ativa da população
- verificação das informações recebidas
- linguagem acessível e direta
- compromisso com a verdade
Suas homilias eram preparadas com base em relatos enviados pelo povo, investigados pela Igreja e organizados de forma clara e pastoral.
Mais do que comunicar, Romero construía uma rede de confiança.
Em meio ao medo e à desinformação, sua voz tornou-se referência segura — um espaço onde a realidade podia ser nomeada sem distorções.
O compromisso com a verdade teve consequências. Após o assassinato do padre Rutilio Grande, Romero assumiu uma postura cada vez mais firme diante das injustiças estruturais em El Salvador.
Sua comunicação passou a confrontar diretamente:
- o regime militar
- as elites econômicas
- a violência institucionalizada
Ele chegou a pedir publicamente o fim do apoio internacional à repressão, evidenciando a dimensão política de sua denúncia.
Essa fidelidade ao Evangelho e ao povo custou-lhe a vida. Em 24 de março de 1980, Óscar Romero foi assassinado enquanto celebrava a Eucaristia.
Um legado para a comunicação contemporânea
Reconhecido hoje como mártir e santo da Igreja, Romero permanece como referência fundamental para comunicadores, especialmente aqueles comprometidos com a ética, a justiça e a transformação social. Seu testemunho interpela o tempo presente:
- Em um mundo marcado por fake news, ele aponta para a verdade como compromisso
- Em uma comunicação muitas vezes superficial, ele recorda a centralidade da realidade
- Em um cenário de polarização, ele reafirma a dignidade humana como critério
Romero ensina que comunicar não é apenas informar — é assumir responsabilidade diante da vida.
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