Cardeal Tolentino fala sobre poesia, silêncio e fé na Flip em Paraty/RJ
Cardeal participou de mesa na Festa Literária Internacional de Paraty e apresentou reflexões sobre identidade, espiritualidade e literatura
O cardeal José Tolentino de Mendonça participou nesta quinta-feira, 23 de julho, da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro. Durante o encontro, o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação refletiu sobre poesia, silêncio, identidade e fé.
O cardeal português integrou a mesa “Saber de cor o silêncio”, ao lado do poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira. A conversa, mediada pela poeta e editora Sofia Mariutti, ocorreu no Auditório da Matriz, no Centro Histórico de Paraty.
“É uma grande alegria estar aqui, partilhando a mesa com o Edimilson e com todos vocês, porque, no fundo, é a mesa da poesia que hoje nos reúne, a nós sedentos de palavra”, afirmou Tolentino na abertura.
Poesia como iniciação ao espanto
Durante o encontro, o cardeal leu o poema A infância de Herberto Helder, que considera um dos primeiros textos que escreveu e reconheceu como poesia.
A obra reúne referências ao filme A infância de Ivan, do cineasta russo Andrei Tarkovski, ao poeta português Herberto Helder e às recordações da infância de Tolentino na Ilha da Madeira.
Ao comentar sua experiência com a literatura, o cardeal afirmou que a poesia deve despertar no leitor uma nova forma de contemplar a realidade.
“A poesia tem de ser uma iniciação ao espanto”, declarou.
Tolentino também relacionou a experiência poética à vida espiritual. Para ele, tanto a poesia quanto a fé exigem abertura, deslocamento e disponibilidade para acolher aquilo que ainda não se conhece plenamente.
“A fé pede sempre a disponibilidade para um nomadismo interior. Não é a instalação dentro de um território, não é possuir uma verdade, é deixar-se possuir pelo desejo dessa verdade”, disse.
O silêncio como presença
O título da mesa foi retirado de um poema da escritora brasileira Orides Fontela. A partir dessa referência, Tolentino refletiu sobre o silêncio não como ausência, mas como espaço de escuta, criação e descoberta.
O cardeal convidou o público a “usar o silêncio como luz que se acende na casa vazia”, destacando a capacidade da poesia de atribuir novos sentidos àquilo que não pode ser expresso apenas por palavras.
Diálogo com a literatura brasileira
Tolentino também falou sobre a influência da poesia brasileira em sua trajetória. Em entrevista concedida antes da Flip, afirmou possuir uma “imensa dívida de gratidão” com a literatura produzida no Brasil.
Entre os autores mencionados está Adélia Prado, definida por ele como uma “mestra do catolicismo contemporâneo”. Segundo o cardeal, a poeta mineira apresenta uma experiência de fé que não separa o corpo do espírito nem a vida cotidiana da presença de Deus.
Tolentino também destacou João Cabral de Melo Neto. Para ele, enquanto Adélia Prado ensina a reconhecer o extraordinário nas situações comuns, João Cabral revela a importância de retirar do poema tudo o que é dispensável, até que permaneça o essencial da linguagem.
Antologia lançada no Brasil
A participação na Flip ocorre durante o lançamento de Os enigmas singulares: antologia poética, primeira coletânea de poemas de Tolentino publicada no Brasil.
Lançada em junho pelo Círculo de Poemas, a obra reúne textos selecionados de 13 livros publicados pelo autor desde 1990.
Outros títulos do cardeal disponíveis no país são Nenhum caminho será longo, A mística do instante e Elogio da sede, publicados pela Paulinas.
Nascido em 1965, na Ilha da Madeira, José Tolentino de Mendonça é poeta, sacerdote, teólogo e professor. Foi criado cardeal pelo Papa Francisco em 2019 e, desde 2022, atua como prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação.
Antes de participar da programação literária, Tolentino presidiu, na quarta-feira, 22, uma missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no Centro Histórico de Paraty.
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