Pesquisa nacional revela juventude marcada por sofrimento emocional e busca por espiritualidade
Levantamento apresentado ao Conselho Permanente da CNBB ouviu quase 11,5 mil jovens e aponta desafios para a evangelização, acompanhamento, busca por referenciais, comunicação e a presença da Igreja no ambiente digital
A realidade das juventudes brasileiras, suas relações com a fé, a Igreja, o ambiente digital e os desafios emocionais estiveram entre os temas apresentados durante a reunião do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB.
Na ocasião, a Comissão Episcopal para a Juventude apresentou aos bispos os dados da Pesquisa Nacional de Evangelização da Juventude no Brasil 2025, realizada com a participação de 11.498 jovens de diferentes regiões do país.
A apresentação foi conduzida pelo bispo de Imperatriz, no Maranhão, e presidente da Comissão Episcopal para a Juventude da CNBB, dom Vilsom Basso, e pela coordenadora do Observatório Juventudes da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a PUCRS, doutora Patrícia Espíndola Teixeira, responsável pela coordenação do grupo de pesquisa. Os resultados foram reunidos em um relatório de aproximadamente 140 páginas. Segundo dom Vilsom, a previsão é que, até setembro, sejam impressos 20 mil exemplares para distribuição em dioceses, pastorais, movimentos e diferentes organismos da Igreja no Brasil.
A pesquisa foi realizada entre os meses de abril e junho de 2025 e ouviu jovens ligados ao universo religioso. Entre os participantes, 55,6% são mulheres e 44,4% homens. A maior parte dos entrevistados, 64,8%, encontra-se na faixa etária dos 18 aos 24 anos. Outros 32,5% têm entre 25 e 29 anos, enquanto 2,7% são adolescentes com idades entre 12 e 17 anos.
Sofrimento emocional e exposição às telas
Um dos pontos de maior atenção no levantamento está relacionado à saúde emocional e aos aspectos classificados pela pesquisa como “sofrimento expressivo”. Metade dos jovens entrevistados afirmou não se sentir plenamente bem. Além disso, 37,6% relataram dificuldades de concentração, associadas à exposição permanente às telas, à ansiedade e à privação do sono. A insegurança também aparece como um fator presente na vida dos jovens. Entre os participantes, 36,7% disseram sentir-se inseguros na maior parte do tempo, condição que pode provocar impactos na autoestima, na tomada de decisões, nas relações pessoais e também na abertura para experiências de fé.
Os dados chamam a atenção para uma geração conectada, mas que, ao mesmo tempo, enfrenta desafios relacionados ao excesso de estímulos, à pressão social, à comparação constante e à dificuldade de estabelecer momentos de descanso e silêncio. Nesse contexto, a evangelização das juventudes não pode ser pensada apenas a partir da transmissão de conteúdos religiosos. Ela exige escuta, acompanhamento, acolhimento e compreensão das condições concretas em que os jovens vivem.
Espiritualidade como caminho de resiliência
Embora os dados revelem situações de vulnerabilidade emocional, a pesquisa também aponta a religião e a espiritualidade como importantes fontes de apoio e resiliência.Entre os entrevistados, 64% afirmaram que a espiritualidade os ajuda a enfrentar os problemas do cotidiano. Para 55,8%, a presença pastoral contribui para o fortalecimento pessoal diante das dificuldades.
Outro dado significativo é que 43,4% dos participantes disseram manter uma visão esperançosa em relação ao futuro, apesar dos desafios enfrentados. Os resultados demonstram que a experiência religiosa, quando acompanhada por relações comunitárias, espaços de escuta e presença pastoral, pode contribuir para o fortalecimento emocional e para a construção de projetos de vida. Mais do que oferecer respostas prontas, a Igreja é chamada a criar ambientes em que os jovens possam ser ouvidos, acolhidos e reconhecidos em suas dores, seus sonhos e suas inquietações.
Família permanece como principal porta de entrada para a fé
A pesquisa também analisou a pertença e as práticas religiosas dos participantes. Entre os entrevistados, 98% declararam-se católicos. Para 61%, a aproximação com a Igreja ocorreu por meio da experiência de fé dos pais e dos avós, o que reforça a importância da transmissão religiosa no ambiente familiar. Além disso, 93% afirmaram já ter recebido os sacramentos da iniciação à vida cristã. Os dados demonstram que a família continua exercendo papel fundamental na formação religiosa das novas gerações. Ao mesmo tempo, indicam que a continuidade da experiência de fé depende da capacidade das comunidades eclesiais de oferecer espaços de participação, protagonismo e pertencimento. A recepção dos sacramentos, por si só, não garante a permanência dos jovens na vida comunitária. O desafio está em transformar a experiência sacramental em caminho de acompanhamento, formação e missão.
Religião e espiritualidade entre os temas mais buscados na internet
O ambiente digital ocupa lugar central na vida dos jovens pesquisados. Entre os temas mais procurados na internet, religião e espiritualidade aparecem em posição de destaque, superando assuntos como entretenimento, educação e política. A pesquisa mostra ainda que 43,3% dos jovens utilizam redes sociais, aplicativos de mensagens, fóruns de discussão e plataformas de relacionamento como espaços de interação. As redes sociais, como Instagram, TikTok, X e Facebook, correspondem a 26,4% desse uso. Já os aplicativos de mensagens, especialmente o WhatsApp, representam 16,2%. Os dados revelam que a internet não é apenas um espaço de entretenimento. Ela também se tornou ambiente de busca por sentido, orientação, espiritualidade e pertencimento.
Essa realidade amplia a responsabilidade da Igreja e dos comunicadores católicos. A presença digital não pode limitar-se à reprodução de conteúdos religiosos ou à divulgação de eventos. É necessário construir relações, promover escuta, oferecer formação e comunicar de maneira ética, acessível e próxima da linguagem das juventudes. Ao mesmo tempo, os impactos negativos do uso excessivo das telas exigem uma presença pastoral capaz de educar para uma relação mais equilibrada com a tecnologia.
Igreja aparece como uma das principais fontes de informação
Outro dado relevante da pesquisa está relacionado às fontes de informação utilizadas pelos jovens. A Igreja aparece como a terceira maior fonte de informação para 13,5% dos entrevistados. Influenciadores digitais e youtubers correspondem a 12,4% da preferência na busca por informações.
O resultado demonstra que a Igreja continua sendo reconhecida como espaço de orientação, reflexão e produção de sentidos. Essa confiança, no entanto, traz consigo uma grande responsabilidade. Em um ambiente marcado pela desinformação,polarização e velocidade das redes sociais, a comunicação eclesial precisa ser comprometida com a verdade, diálogo e a dignidade das pessoas. Mais do que disputar atenção com influenciadores e plataformas digitais, o desafio está em oferecer uma comunicação capaz de ajudar os jovens a compreender a realidade, discernir informações e participar ativamente da vida social e eclesial.
Participação social e protagonismo
A pesquisa também investigou o envolvimento dos jovens em ações coletivas e questões sociais. Mais de 41% dos participantes afirmaram não participar de formas de mobilização coletiva. Por outro lado, 23% disseram demonstrar simpatia individual por pautas ligadas a interesses coletivos. Os dados apontam para uma possível distância entre a sensibilidade diante de causas sociais e a participação efetiva em grupos, movimentos ou iniciativas comunitárias.
Essa realidade desafia a Igreja a criar espaços em que o protagonismo juvenil possa ser exercido de forma concreta. O jovem não pode ser visto apenas como destinatário da ação evangelizadora. Ele deve ser reconhecido como sujeito da missão, capaz de contribuir com suas ideias, suas linguagens e suas experiências.
A pesquisa também abordou a forma como os jovens percebem a Igreja Católica, os elementos que os atraem ou afastam da comunidade, a participação em ambientes eclesiais, a vocação e a construção do projeto de vida.
Dados devem orientar caminhos para a evangelização
Ao final da apresentação, o arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler, destacou a necessidade de aprofundar e refletir sobre os dados apresentados. Para o presidente da Conferência, o levantamento deve contribuir para o aprimoramento da evangelização das juventudes no Brasil. Mais do que apresentar números, a pesquisa oferece um retrato de uma geração marcada por contradições: jovens conectados, mas muitas vezes solitários; inseridos no ambiente digital, mas em busca de espiritualidade; vulneráveis emocionalmente, mas ainda capazes de cultivar esperança. Os resultados indicam que a ação pastoral com as juventudes precisa integrar fé, saúde emocional, cultura digital, participação social, vocação e projeto de vida.
Também apontam para a necessidade de uma comunicação eclesial mais próxima, dialogal e preparada para acompanhar as juventudes nos ambientes em que elas vivem e constroem suas relações.
Durante a tarde, os bispos do Conselho Permanente também conheceram os dados da avaliação da 62ª Assembleia Geral da CNBB. A apresentação foi conduzida pelo bispo de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e presidente do Regional Leste 1, dom Gilson Andrade da Silva.
A programação também incluiu uma rodada de reunião reservada entre os membros do Conselho Permanente.
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Pesquisa Nacional sobre Evangelização da Juventude (2025)(0,90 MB)
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