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Papa: IA deve ser serva do bem comum, não rival da humanidade

Em encontro com legisladores católicos, Papa defende que avanços da IA sejam acompanhados por critérios éticos, proteção dos direitos fundamentais e compromisso com o bem comum

Há 51 minutos - por redação com Vatican News
O Papa em audiência com a Rede Internacional de Legisladores Católicos  (@Vatican Media)
O Papa em audiência com a Rede Internacional de Legisladores Católicos (@Vatican Media)

O Papa Leão XIV recebeu nesta sexta-feira, 21, membros da Rede Internacional de Legisladores Católicos e destacou a responsabilidade das autoridades públicas diante dos rápidos avanços da inteligência artificial. Para o Pontífice, o desenvolvimento tecnológico precisa ser acompanhado por discernimento ético e por instrumentos legais capazes de garantir que a inovação permaneça a serviço da pessoa humana.

O encontro integra a reunião anual da organização, que neste ano tem como tema “Dignidade Humana e Inteligência Artificial: Desafios, Oportunidades e Controle”.

Ao falar aos participantes, Leão XIV afirmou que o desenvolvimento da inteligência artificial coloca a sociedade diante de uma questão que ultrapassa as possibilidades técnicas.

“Não apenas o que podemos fazer, mas o que devemos fazer?”

Segundo o Papa, diante das novas tecnologias, a humanidade pode ceder à tentação de construir uma nova “Torre de Babel”, orientada pelo poder, pela eficiência e pelo controle. O caminho alternativo, afirmou, passa pela construção de uma sociedade em que a tecnologia contribua para o desenvolvimento integral da pessoa.

Doutrina Social como critério para a tecnologia

Leão XIV apresentou princípios da Doutrina Social da Igreja como referências para o discernimento sobre a inteligência artificial. Entre eles estão a dignidade inviolável de cada pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade e a solidariedade.

Para o Pontífice, esses princípios oferecem critérios para avaliar não apenas aquilo que as tecnologias são capazes de realizar, mas também as consequências de seu desenvolvimento e aplicação na sociedade.

Nesse contexto, o Papa chamou atenção para a responsabilidade específica dos legisladores. Segundo ele, cabe às autoridades estabelecer políticas capazes de orientar a inovação tecnológica sem impedir o desenvolvimento científico.

A tarefa, ressaltou, não é impedir a inovação, mas “guiá-la com sabedoria”.

Papa defende proteção da privacidade e dos direitos

Entre as prioridades apontadas por Leão XIV estão a proteção dos usuários contra formas de exploração, a preservação da privacidade, a transparência na utilização das tecnologias e a garantia de que os sistemas de inteligência artificial não enfraqueçam as instituições democráticas.

O Papa defendeu a existência de “quadros legais robustos, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não abdique de sua responsabilidade”.

Segundo ele, essa responsabilidade precisa ser exercida em diferentes níveis, do âmbito local ao internacional, favorecendo a construção de princípios éticos e parâmetros comuns.

A preocupação também alcança as desigualdades entre os países. Leão XIV advertiu que o desenvolvimento tecnológico pode ampliar a dependência das nações mais pobres em relação às mais ricas e favorecer novas formas de “colonialismo ideológico ou econômico”.

Outro ponto abordado pelo Pontífice foi o poder adquirido pelas plataformas e pelos sistemas algorítmicos na organização da vida social.

Leão XIV citou situações em que algoritmos podem determinar quem ganha visibilidade ou permanece invisível, plataformas influenciam o debate público sem responsabilização adequada e trabalhadores têm sua dignidade subordinada à lógica de otimização dos sistemas.

Para o Papa, esses fenômenos podem representar novas formas de uma antiga tentação humana: exercer poder sem colocá-lo a serviço dos outros.

Como resposta, Leão XIV propôs uma tecnologia inserida na construção de uma “civilização do amor”, orientada pela responsabilidade, pela compaixão e pela defesa da dignidade humana.

Inteligência artificial também desafia as famílias

O Papa dedicou parte de sua reflexão aos impactos da inteligência artificial sobre a vida familiar. Ele definiu a família como a “primeira escola da humanidade”, espaço no qual a pessoa aprende relações que não podem ser reduzidas à lógica do cálculo.

É na família, destacou, que se aprende a confiar antes de calcular, a exercer a generosidade antes da competição, a dialogar antes da divisão e a amar antes de buscar o poder.

Por isso, Leão XIV advertiu para o risco de que as tecnologias reduzam pessoas e relacionamentos a dados e simulações, exponham crianças e jovens a conteúdos capazes de distorcer seus desejos ou fortaleçam modelos econômicos que fragilizem a vida familiar.

O Pontífice pediu aos legisladores políticas que fortaleçam o casamento e as famílias, apoiem os pais em sua responsabilidade educativa e ofereçam condições para que os jovens possam olhar para o futuro com confiança.

Ao concluir sua mensagem, Leão XIV reforçou que o desafio não está simplesmente na existência ou no avanço da inteligência artificial, mas na maneira como a humanidade decide desenvolvê-la, regulá-la e utilizá-la.

Para o Papa, o mundo não precisa de uma inteligência artificial que diminua a humanidade, mas de inteligência humana iluminada pela sabedoria, autoridade política orientada pela consciência e inovação tecnológica colocada a serviço da caridade.

“Só então a inteligência artificial deixará de ser uma rival da humanidade e se tornará uma serva do bem comum.”

A mensagem reforça uma preocupação recorrente de Leão XIV sobre os impactos humanos, sociais e políticos das novas tecnologias e coloca sobre legisladores e autoridades públicas a responsabilidade de assegurar que o desenvolvimento da inteligência artificial não esteja dissociado da dignidade da pessoa humana.

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