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CNBB: prevenção de abusos deve integrar missão evangelizadora

Em encontro latino-americano sobre cultura do cuidado, dom Wellington de Queiroz afirma que proteção de menores e vulneráveis exige enfrentar silêncio, clericalismo e fragilidades institucionais

Há 8 horas - por redação com CNBB
dom Wellington de Queiroz Vieira, presidente da Comissão para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis da CNBB / Foto: Fiama Tonhá
dom Wellington de Queiroz Vieira, presidente da Comissão para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis da CNBB / Foto: Fiama Tonhá

A prevenção dos abusos contra crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis precisa ser compreendida como parte da própria missão evangelizadora da Igreja. A afirmação é de dom Wellington de Queiroz Vieira, bispo de Cristalândia (TO) e presidente da Comissão para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Durante o IV Encontro da Rede Latino-americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado, o bispo apresentou os principais obstáculos para a consolidação de ambientes eclesiais seguros na América Latina e no Caribe e defendeu que a proteção seja incorporada às estruturas e práticas das Igrejas locais.

“Não há evangelização autêntica sem ambientes seguros”, afirmou.

A reflexão abordou aspectos teológicos e pastorais, características da realidade latino-americana e caminhos para fortalecer uma cultura de prevenção, escuta, responsabilização e reparação.

“Uma Igreja segura não tem medo da verdade”

Dom Wellington afirmou que o enfrentamento dos abusos não pode estar subordinado à preservação da imagem institucional.

“A dignidade de uma criança ou de uma pessoa vulnerável, na comunidade mais distante do nosso continente, vale mais do que a reputação da nossa instituição”, ressaltou.

Para o bispo, uma comunidade verdadeiramente comprometida com o Evangelho precisa tornar esse compromisso perceptível na maneira como acolhe e protege aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade.

“Uma Igreja segura não é uma Igreja sem conflitos, é uma Igreja que não tem medo da verdade.”

Ele acrescentou que uma Igreja segura também não é uma instituição que se apresenta como perfeita, mas aquela que é capaz de “aprender, corrigir, reparar e prevenir”.

Da mesma forma, alertou para o risco de colocar a reputação institucional acima das pessoas atingidas pelos abusos.

“Uma Igreja segura não é uma Igreja centrada em sua imagem, é uma Igreja centrada nas vítimas, nos pequenos e no Evangelho.”

Abuso não pode ser tratado apenas como pecado individual

Ao falar a partir de sua experiência como padre e, posteriormente, como bispo, dom Wellington destacou a mudança na maneira como a própria Igreja passou a compreender os abusos.

Segundo ele, durante muito tempo o problema foi abordado principalmente como pecado individual. Hoje, a compreensão precisa considerar também sua dimensão criminal, o trauma psicológico provocado nas vítimas, as feridas espirituais, as falhas de proteção e as relações de poder envolvidas.

Nesse contexto, o bispo retomou uma reflexão apresentada na abertura do encontro: a prevenção não pode ser responsabilidade de uma pessoa isolada.

O enfrentamento exige “rede, responsabilidade, vigilância, humildade e conversão”.

América Latina enfrenta cultura do silêncio e clericalismo

Ao analisar a realidade da América Latina e do Caribe, dom Wellington reconheceu a diversidade cultural e a forte presença católica no continente, mas apontou condições que podem dificultar a implementação de políticas de prevenção.

A região, segundo ele, é marcada por “desigualdades, distâncias, cultura de silêncio, machismo, clericalismo e fragilidades institucionais”.

Esses fatores exigem que protocolos e políticas de proteção não permaneçam apenas no campo documental, mas sejam efetivamente incorporados à vida das comunidades e instituições.

Entre os caminhos indicados pelo bispo estão a consolidação de uma cultura de proteção, aplicação de protocolos, criação de canais de escuta, formação permanente, prevenção no ambiente digital, fortalecimento da governança e trabalho articulado em rede.

Dom Wellington também ressaltou a importância da participação de leigos e mulheres e da escuta das vítimas na construção das políticas e práticas de cuidado.

Proteção antes que o abuso aconteça

Para o presidente da Comissão da CNBB, uma cultura do cuidado não pode se limitar à resposta oferecida depois de uma denúncia. A prevenção precisa atuar antes que a violência aconteça.

Ele sintetizou o compromisso esperado das Igrejas locais em diferentes etapas: proteger preventivamente, escutar quando a dor é revelada, agir com justiça diante das denúncias, reparar as falhas, formar continuamente e prestar contas.

“Que cada Igreja local da América Latina e do Caribe possa assumir esse compromisso com coragem: proteger antes que o abuso aconteça; escutar quando a dor aparece; agir com justiça quando há denúncias; reparar quando houver falha; formar continuamente; prestar contas e colocar os vulneráveis no centro.”

A reflexão apresentada por dom Wellington teve como referência a dignidade inviolável da pessoa humana e relacionou a cultura do cuidado aos desafios contemporâneos envolvendo novas formas de poder, manipulação e vulnerabilidade.

Ao concluir, o bispo retomou a proteção das crianças como expressão concreta da própria missão cristã.

“Onde uma criança é protegida, aí o Evangelho se torna concreto.”

O IV Encontro da Rede Latino-americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado prossegue com rodas de conversa e partilha de experiências entre representantes das diferentes regiões do continente. A programação também prevê uma reflexão específica sobre abusos em ambientes digitais.

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