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Os perigos da vida em situação de rua para além do frio

Passada a onda gelada histórica, ficam as mortes, as histórias e as dores daqueles quem vivem em situação de rua

Há 1 mes - por Karla Maria
Segundo levantamento censitário de 2019, mais de 24 mil pessoas vivem nas ruas da capital paulista
Segundo levantamento censitário de 2019, mais de 24 mil pessoas vivem nas ruas da capital paulista (foto por Karla Maria )

As canelas finas de Teresa tremiam. Nem a bermuda jeans e as meias grossas que recebera de doação na noite passada conseguiam lhe aquecer de modo efetivo. Aliás, quando nos encontramos em frente à estonteante Sala São Paulo, na região central da capital paulista, ela estava arrancando as meias que grudavam em seus pés castigados por bolhas. Era 30 de julho, a madrugada mais fria desde 2004, com termômetros registrando 3°C.

 Teresa, que prefere ser chamada de Paulinha e só, não revela a idade, mas já passou dos 60. Seus cabelos curtos e grisalhos e o corpo franzinho e levemente curvado denunciam o peso do tempo. Ela vive em constante caminhada nas ruas de São Paulo atrás de comida, água, cobertor, gorrinho, qualquer coisa que possa protegê-la do inferno que vive.

Ela é mais uma sobrevivente nas ruas de São Paulo e neste inverno de 2021 tem encontrado na caridade de anônimos algum amparo para manter seu corpo aquecido, vivo. Naquela madrugada ela recebeu um gorrinho e cobertor de agentes da Pastoral do Povo da Rua, da Arquidiocese de São Paulo. Mas eu vi que não foi só isso.

 

“Esse povo aí é de Deus mesmo. Imagine sair de casa nesse frio pra vir ajudar a gente”, contou Fabiano Pereira, 40 anos

 

 “Minha filha, por que essa bolha aí no pé? Cuide-se, não deixa roubarem suas coisas, porque amanhã não vai ter mais”, aconselhou uma agente de pastoral que realiza esse trabalho há cerca de 30 anos, diariamente, faça chuva ou sol. Aliás, a chuva e o frio são para Francisco Galdino as maiores dificuldade da vida em situação de rua. “A gente toma cachaça para aquecer, mas e quando passa o efeito? Ontem morreram dois malucos de hipotermia aqui. O coração deles congelou”, contou enquanto recebia um gorrinho da agente da pastoral. Galdino está há três anos em situação de calçada e é natural de Feira de Santana, na Bahia, e para lá não quer voltar.

Segundo o Movimento da População em Situação de Rua, até o fechamento desta reportagem 12 pessoas tinham sido vítimas fatais do frio neste inverno de 2021. “Estamos acionando a Prefeitura e os órgãos responsáveis para apurar os casos. Providências devem ser tomadas para que esse absurdo não se repita”, registrou a vereadora Erika Hilton em sua rede social ao compartilhar seu “pedido de providências ao Ministério Público de São Paulo”.

 Naquela madrugada acompanhei o trabalho dos agentes da pastoral, que estavam distribuídos em duas Kombis com adesivo da Arquidiocese de São Paulo, e três carros de voluntários. Seguimos pela região da Luz com os automóveis carregados com cobertores, agasalhos, gorrinhos, cachecóis, água, café e uma sopa fumegante e cheirosa. É assim todo dia, me disseram.

 “Esse povo aí é de Deus mesmo. Imagine sair de casa nesse frio pra vir ajudar a gente”, contou Fabiano Pereira, 40 anos. Estávamos na Praça Princesa Isabel, na região da Luz, em um cenário de muitas barracas, fogueira e gente encolhida debaixo de cobertores. Pais de três filhos, Pereira está há cinco meses em situação de rua depois de deixar sua família na zona sul da capital paulista. “Não aceitamos as regras das nossas famílias. Não me aceitaram, nem aceitaram meus amigos, então os deixei para trás”.

Pereira namora Alex Godoi, 30 anos, e juntos, além de enfrentar a situação de rua, encaram a violência gerada pelo preconceito. “Eles não respeitam a gente não e dá medo. A senhora não sabe onde posso encontrar uma barraca. Devido à nossa situação, nós não podemos dormir aqui. Eles fazem de conta que respeitam, mas de madrugada atacam. Não posso confiar não, minha vida é uma só”, contou Pereira enquanto tomava sua sopa.

“Só vocês mesmo pra estarem aqui, porque nesse frio sair de casa é muita coragem”, completou Godoi. Ambos são crentes de uma igreja neopentecostal. Pedem para se apresentar assim e se despedem entoando alguns versículos bíblicos.

Ainda na Praça Princesa Isabel, uma mulher se aproxima perguntando o que ia ganhar na fila. Era a mineira Rosenilda Alves Moreira, de 38 anos. Natural de Belo Horizonte, contou que estava há uma semana em São Paulo fazendo tratamento no Caps, o Centro de Atenção Psicossocial.

“Estou esperando meu tratamento no Caps. Sou alcoólatra. Bebia demais. Foi uma desilusão. Um homem não me deu valor”, contou. Ela está há cinco anos em situação de rua e cheia de saudade dos dois filhos, que estão em albergue na cidade de Contagem. “Nem gosto de lembrar, porque choro”, desabafou.

Rosenilda disse que é raro passar fome. Sempre tem doação de comida, de um pouco de tudo. “Ganho muito absorvente. Tomo banho e lavo a roupa por aí. Me viro bem na rua. Tomo até remédio controlado”, contou com um certo orgulho de seu asseio. Perguntei por que não ia dormir em albergue e a resposta vaio rápido. 

“Eu preciso de vaga para casal, não quero ficar em quarto separado. A comida também é muito pouca; por exemplo, o café da manhã é um café e um pão, pra mim não dá porque tomo remédio e tenho muita fome”, explicou desenhando seu sonho com o olhar escondido por entre cabelos e gorro. “Meu sonho é sair da rua e arrumar um canto que eu possa pagar aluguel. Tenho uma cesta (básica) guardada ali. A gente só precisa de um teto”.

Assim como Rosenilda outros tantos não aceitam ficar em albergues, e os motivos são diversos. “A rua é campo aberto, a cadeia e esses albergues são opressão, humilhação, tratam o ser humano como um nada. Tudo bem, eu cometi algo errado, mas não podem tratar a gente assim não”, contou André Barbosa, que naquela noite decidiu ir dormir na Casa de Oração do Povo da Rua, de onde saíram as Kombis para a distribuição das doações.

 

Antes de me despedir, perguntei por que havia aceitado dormir naquela noite na Casa de Oração, e ele admitiu. “Hoje eu vim por causa da sopa, bem temperadinha”. Nos despedimos e cada um seguiu seu rumo noite à dentro, desta vez, os dois aquecidos.

 

Barbosa contou que já passou por 16 internações em clínica para recuperação de dependência química. “Eu estou recaído, não tenho mais o direito de pedir ajuda não. Nem eu às vezes me entendo, sabe. Fiquei 14 anos casado. Tenho uma filha de 24 anos e outra de 13. Tenho muita saudade delas. É difícil, só Deus na minha vida”, contou entre uma colherada e outra da sopa que ele mesmo se serviu já na Casa de Oração.

Jardineiro, ele diz que sabe fazer “um monte de coisa”, mas que não consegue colocar foco na mente. “Queria arrumar um quartinho pra ficar de boa, mas eu não estou conseguindo arrumar emprego. Eu tenho vontade, mas não consigo. A culpa é minha, eu sei. Eu tinha casa, mas deixei lá pras minhas filhas. Perdi tudo para a droga e nem quero mais falar sobre isso”, disse terminando a conversa e concentrando-se em sua sopa.

Natural de Guarulhos, ele já morou em diversos pontos de São Paulo e disse já ter apanhado também. “Morei em frente à Marechal Deodoro, em tanto buraco e viaduto por aí. Já apanhei da polícia, não é fácil não. O dinheiro que eu consigo, eu uso droga. Tem horas que eu como um x-salada, mas tem momento que não suporto não, aí com dois reais compro um Corote (uma garrafinha de cachaça)”.

Ao terminar sua sopa, depois de conversar com um irmão da Fraternidade O Caminho, cuja missão é acolher quem chega naquela “casa”, nos despedimos para o seu descanso junto a outros “irmãos de rua” que já estavam no andar de cima da Casa de Oração, na capela. Ali, na presença do próprio Cristo na Eucaristia e os olhares das imagens de Santa Dulce e de Nossa Senhora Aparecida, dormiriam nos colchonetes e cobertores, com uma proteção que certamente ia além da térmica.

Antes de me despedir, perguntei por que havia aceitado dormir naquela noite na Casa de Oração, e ele admitiu. “Hoje eu vim por causa da sopa, bem temperadinha”. Nos despedimos e cada um seguiu seu rumo noite à dentro, desta vez, os dois aquecidos.

Acolhida

A Casa de Oração do Povo da Rua era uma das opções para a população em situação de rua naquela noite fria. “Neste ano, a pastoral teve maior visibilidade, embora tenha trabalhado isso há mais de 30 anos. Na época de dom Paulo Evaristo Arns nós nos reuníamos com eles para pegar sobras de legumes no Mercado Municipal para fazer uma sopa debaixo do viaduto. Dali começou um trabalho e dom Paulo era aquele que sempre dava apoio. A sopa foi o começo e nunca deixamos de fazer”, contou Ana Maria, coordenadora da Casa de Oração.

 

Dentro das instituições isso não existe, é uma coisa muito fria, muito institucional. Exige respostas diferentes para cada um, mas quem está disposto a responder diferente? A pastoral trabalha convivendo”, explicou Ana Maria.

 

Ana é braço-direito do padre Julio Lancellotti, o vigário episcopal da Pastoral do Povo da Rua. Muito conhecido, padre Julio realiza um trabalho igual ao de muitos agentes de sua pastoral, mas vai além, ocupa as redes sociais e consciências para pautar a situação dessa população que vive pelas calçadas. Uma situação que só se agrava e escancara a desigualdade pela qual o país atravessa.

“Nós temos feito seguidamente as sugestões de aumento de locação social. As pessoas que são de outros estados vieram por causa da crise buscar resposta em São Paulo, estão nas ruas e não conseguem mais voltar para suas famílias. É preciso que se agilize o direito da pessoa voltar para a sua família, ao invés de uma opção higienista de expulsar as pessoas de cidades, como acontece em muitos municípios brasileiros. Quem está em São Paulo e quer voltar para a sua família, que possa fazê-lo”, disse padre Julio em coletiva de imprensa no mesmo dia 30, ao lados do prefeito Ricardo Nunes e do governador do Estado, João Doria.

Na ocasião, padre Julio destacou a necessidade de as autoridades públicas atualizarem suas respostas e soluções aos novos tempos e desafios enfrentado pela população mais vulnerável, que cresce de maneira assustadora. “A situação de rua mudou muito e as respostas muitas vezes continuam sendo as mesmas de outros perfis, então nós precisaríamos mudar a forma de resposta à população em situação de rua, garantindo autonomia. Essas pessoas muitas vezes se recusam porque não querem mais ser tuteladas e ter a sua autonomia preservada. Elas querem e têm direito a moradia, trabalho e convivência”.

Na mesma coletiva, o prefeito Ricardo Nunes destacou que são distribuídas 40 mil marmitas por dia na cidade de São Paulo e que a política da Prefeitura é de tentar fazer o convencimento para ir aos abrigos. “Mas, evidentemente, aquele que não deseja ir a Prefeitura não vai tirar a barraca ou remover. Teremos uma melhora no diálogo com essa população”.

Para Ana Maria, a Prefeitura precisa repensar suas políticas de abordagem e acolhimento. “Quando eles chegam aqui, eu não tenho uma cama para oferecer. Dou uma sopinha quente, que é entregue na mão deles. Não têm que pegar uma fila, não são apenas mais um. Vamos arrumar um cantinho pra dormir, vamos conversar, saber o nome. Hoje, como tinha bolo, eles comem bolo também. Dentro das instituições isso não existe, é uma coisa muito fria, muito institucional. Exige respostas diferentes para cada um, mas quem está disposto a responder diferente? A pastoral trabalha convivendo”, explicou Ana Maria.

O último levantamento censitário, realizado em 2019, apontou que 24.344 munícipes estavam vivendo nas ruas da cidade, sendo 11.693 acolhidos na rede socioassistencial e 12.651 em vias públicas. Mas, com o aumento do desemprego na pandemia de Covid-19, os movimentos da população em situação de rua acreditam e afirmam que esse número passa de 40 mil, e o perfil que sempre foi muito masculino tem se modificado com a chegada da pandemia. “Tem muita mulher, muita criança nas ruas, e eu me questiono o que vai ser desses jovens. O triste é pensar que aquela criança pequenininha já está aprendendo a pegar uma fila na rua pra tomar café da manhã”, lamentou Ana Maria.

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