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Dona Zica: fé, esperança e caridade em oito décadas de vida

“Às vezes as coisas ficam difíceis, olho para Jesus e digo: ‘olha só, Senhor, dá um jeito, foi você que me trouxe aqui’. E prossigo”

Há 28 dias - por Osnilda Lima
Dona Zica: história de mobilização em favor dos mais vulneráveis
Dona Zica: história de mobilização em favor dos mais vulneráveis (foto por Arquivo pessoal)

88 anos, uma agenda cheia, entre lives, compromissos na Igreja, ações de solidariedade às pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica e militância social. Sempre muito atenta e ágil, em nossas chamadas pelo whats, marcamos e precisamos remarcar a conversa, devido à sua agenda intensa. Depois de algumas tentativas, conseguimos 1h20 de conversa com Anazir Maria de Oliveira, ou com ela diz: “para os meus amigos, eu sou a Zica”.

Zica conta que em meio à pandemia causada pelo coronavírus, quando a orientação era ficar em casa, “mas como ficar em casa sem tem famílias passando necessidades, com fome?”, E assim foi, conta. Seguindo rigorosamente os protocolos de prevenção à Covid-19, sempre com a máscara, álcool em gel e com o devido distanciamento, mas sem tomar distância da dor das pessoas, foi de porta em porta, escutar e ver a famílias que estavam passando necessidade. Cadastrou com as amigas, 55 lares, e os tem acompanhado para além da cesta básica. Também tem realizado rodas conversas, sobre saúde, educação e direitos. “A maioria são mulheres negras, sem emprego. Sofrem discriminação por serem negras, por serem mulheres, e por conta do lugar onde moram”, relata. “Eu sabia que era um momento de recolhimento, mas eu precisava ir a campo. Meus filhos só não ‘me bateram’ (risos) porque não dei confiança a eles”, revela bem-humorada.

 

Mulher em movimento

Zica voltou à sala de aula aos 40 anos. Aos 82 anos, graduou-se em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Mas antes, cursou Pedagogia. Estava convencida de que tanto a pedagogia como o serviço social a ajudam em sua ação na comunidade.

 

“Então, me levantei e falei! Ah, fomos ouvidas. Resultado? Mais trabalho para nós”

 

Pioneira no Movimento Sindicalista das Domésticas do Brasil, Zica atua em sua comunidade, em Nova Aliança, Bangu, Rio de Janeiro. Conta que iniciou seu envolvimento com as questões sociais incentivada por seu pároco, padre Bruno Lorenzo. “À época, década de 70, as pastorais sociais estavam com muitas iniciativas. Na paróquia começou a Pastoral do Trabalhador; o padre me chamou para participar; fui, não entendi quase nada. Foi quando ele falou para começarmos um trabalho com as mulheres domésticas”.

Marcaram a primeira reunião com outras companheiras, mas não faziam ideia do que propor em pauta. “Muitas mulheres compareceram. Pensei: ‘e agora?!’ Foi quando propusemos: ‘vamos falar mal de nossas patroas?!’”, conta divertidamente. A reunião estabeleceu uma conexão forte entre as mulheres e gerou uma mobilização, criando assim o Grupo de Doméstica da Zona Oeste, do Rio de Janeiro.

Zica ressalta que aos poucos foram promovendo incidência e fazendo valer os seus direitos. Lembra que em 1972, com a aplicação da Lei 5859/72, conseguiram alguns poucos direitos como: 20 dias úteis de férias após 12 meses de serviço prestado a mesma pessoa ou família, carteira de trabalho e previdência social (CTPS) assinada pelo empregador, além de benefícios da previdência social.

 

“Mamãe não sabia o desenho do a, mas quando saí para trabalhar, ela disse: ‘Zica pode ir, mas com a condição de que possa estudar’”

 

Conduzindo-nos na viagem histórica, Zica rememora dois marcos importantes em sua trajetória de luta social, sempre com o incentivo de padre Bruno, numa ação a partir do envolvimento com as Pastorais Sociais. Um marco é a participação direta no processo da Constituinte de 1987/1988 que resultou na construção da Constituição Federal de 1988. “Ela foi confeccionada por nós! Nos pertence!”, enfatiza com emoção.

O outro marco é a fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), entidade de representação sindical brasileira, nascida em 28 de agosto de 1983, durante o Primeiro Congresso Nacional da Classe Trabalhadora. “Lembro que foi a primeira vez que me levantei a falei para uma grande assembleia”, recorda Zica, ao lembrar que várias domésticas participaram dos grupos de trabalhos em preparação ao documento final para o Congresso, mas que não se viram contempladas no texto. “Então, me levantei e falei! Ah, fomos ouvidas. Resultado? Mais trabalho para nós”, ri.

 

As origens, a família, a fé em ação

Zica é a 8ª filha, de 11 irmãos. Entretanto, somente ela e um irmão chegaram à vida adulta. Os demais faleceram antes de completar dois anos de idade. “Naquele tempo era difícil. Não tinha o mínimo de acesso à saúde. Em uma das gestações, mamãe teve gêmeos. Foi muito sofrimento, uma criança nasceu em um dia, a outra, somente no outro dia”, conta.

Aos 9 anos, Zica deixou a zona rural, onde nasceu, em Manhumirim, localizada entre as serras do leste do Estado de Minas Gerais, a pouco mais de 300 quilômetros de Belo Horizonte. Em Manhumirim, Zica trabalhou de doméstica até os 15 anos. “Mamãe não sabia o desenho do a, mas quando saí para trabalhar, ela disse: ‘Zica pode ir, mas com a condição de que possa estudar’”, lembra.

Ela conta que sempre participou ativamente na igreja. “Aos 9 anos, eu estava preparada para receber a primeira Eucaristia, mas mamãe não podia me arrumar, pois era como preparar uma noiva”. Ela lembra que sempre chegava antes e ficava no pátio da igreja, brincado com as outras crianças. “O padre Júlio Maria sempre aparecia por lá, antes da missa. Quando eu tinha 11 anos, falei para ele que queria muito fazer a primeira comunhão, mas não conseguia me preparar com a vestimenta. Foi quando ele me perguntou se eu queria me confessar e eu respondi que sim. Fui, fiz a confissão e naquela missa recebi a Eucaristia. Ah, foi um dia muito feliz em minha vida”, diz com alegria.

 

"Aí, incentivados pelo padre Bruno, começamos a nos organizar para lutar por nossos direitos. Uma das coisas que ajudaram muito foram os círculos bíblicos e a participação nas Comunidades Eclesiais de Base."

 

Aos 15 anos, Zica migrou para o Rio de Janeiro. Na capital fluminense continuou o trabalho de doméstica. Casou-se aos 17 anos. Dessa união, os frutos hoje são 6 filhos, 20 netos, 32 bisnetos e 7 tataranetos. O tempo sempre foi distribuído entre a família, igreja e ação sociotransformadora.

No Rio, vivendo na Gávea, sofreu a remoção para a construção da Fundação Planetária, tendo sido retirada com família para o Bangu. “Num primeiro momento, fique muito feliz ao mudar para Bangu, pois recebemos uma casa, toda arrumadinha. Mas, ao começar a viver ali, percebemos que não tinha iluminação pública, não tínhamos acesso à saúde, à educação, lugar para fazer compras e ao transporte coletivo. Aí, incentivados pelo padre Bruno, começamos a nos organizar para lutar por nossos direitos. Uma das coisas que ajudaram muito foram os círculos bíblicos e a participação nas Comunidades Eclesiais de Base. Até hoje coordeno o círculo bíblico em minha comunidade”, conta.

Zica é também membro da Pastoral Afro-Brasileira da Arquidiocese do Rio de Janeiro e da Pastoral do Menor. É membro da ONG Criola, de mulheres negras que atuam como agentes de transformação, para uma sociedade fundada em valores de justiça, equidade e solidariedade, em que a presença e contribuição da mulher negra sejam acolhidas como um bem da humanidade.

E o que motiva Zica e essa dinamicidade toda? Ela responde: “O amor, a fé e a esperança! A gente não pode perder a esperança. O momento de hoje nos pede resistência. E nos leva à pergunta: o que estou fazendo? Por que estou fazendo? Qual a forma de fazer? É para mim? É por mim? É para todos? Às vezes as coisas ficam difíceis, olho para Jesus e digo: ‘olha só, Senhor, dá um jeito, foi você que me trouxe aqui’. E prossigo”, ensina a griô Zica.

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