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Quando o Evangelho deixa de ser discurso

Há 2 horas
Relatos de milagres e graças alcançadas se multiplicaram, tanto no Brasil quanto no exterior, superando a marca dos 14 mil catalogados | Crédito: Foto: Acervo Memorial Irmã Dulce
Relatos de milagres e graças alcançadas se multiplicaram, tanto no Brasil quanto no exterior, superando a marca dos 14 mil catalogados | Crédito: Foto: Acervo Memorial Irmã Dulce

Celebrar Santa Dulce dos Pobres é deixar-se alcançar pela vida de uma mulher que não esperou que todas as condições fossem favoráveis para começar a amar. Há algo profundamente evangélico e, ao mesmo tempo, desconcertante em sua história: uma religiosa aparentemente frágil, inserida numa estrutura eclesial marcadapor regras, limites e costumes próprios de seu tempo, permitiu que a audácia do Espírito Santo alargasse as fronteiras daquilo que parecia impossível. Dulce não se colocou contra sua congregação, mas também não fez da obediência uma desculpa para permanecer indiferente diante do sofrimento que encontrava. Sua fidelidade foi criativa, inquieta, fecunda. Quando os pobres já não cabiam nos lugares disponíveis, ela procurava outro espaço, quando os recursos não existiam, buscava-os, quando as estruturas pareciam insuficientes, ela as tensionava por dentro, não pelo desejo de romper, mas porque havia vidas concretas que não podiam esperar. T alvez esteja aí uma das marcas mais bonitas de sua santidade: Dulce compreendeu que as estruturas religiosas só cumprem verdadeiramente sua finalidade quando permanecem abertas à ação de Deus e a serviço da vida.

Essa liberdade nasce de uma experiência anterior a qualquer obra social: Dulce sabia-se amada por Deus. Antes de construir hospitais, acolher doentes ou procurar um lugar para quem não tinha onde ficar, havia uma mulher alcançada pelo amor de Jesus. E quem se reconhece profundamente amado por Deus começa, quase inevitavelmente, a olhar de outra maneira para aqueles que Deus ama. Por isso, sua caridade não pode ser reduzida à filantropia, por mais extraordinária que tenha sido sua obra. Dulce fazia reverberar nos irmãos e irmãs aquilo que primeiro havia experimentado em sua própria vida. O Evangelho de Mateus 25, “tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era estrangeiro e me acolhestes”, deixou de ser, em suas mãos, apenas uma página proclamada na liturgia. Ganhou rosto, cheiro, cansaço, feridas, camas improvisadas, alimento repartido e gente acolhida. Quem olhava para Dulce podia compreender, sem necessidade de grandes explicações teológicas, o que Jesus quis dizer quando se identificou com os pequeninos. 

E talvez seja justamente aí que sua memória se torne incômoda para nós, religiosos e religiosas, ministros ordenados, agentes pastorais e comunidades cristãs. T ornamo-nos, algumas vezes, extraordinariamente competentes em falar sobre os pobres. Produzimos documentos, pronunciamentos, encontros, homilias, campanhas e reflexões muito bem elaboradas sobre justiça, fraternidade e opção preferencial pelos pobres. Tudo isso tem sua importância. O problema começa quando o pobre se transforma apenas em categoria pastoral, tema de documento ou objeto de discurso, mas deixa de ser uma pessoa cujo nome conhecemos, cuja história escutamos e cuja dor permitimos que “desorganize” alguma coisa em nossa vida. Há uma contradição dolorosa quando a Igreja fala dos pobres sem conviver com eles, quando religiosos defendem a pobreza sem permitir que a realidade dos pobres atravesse suas agendas, suas casas e suas escolhas, quando denunciamos estruturas injustas, mas permanecemos confortavelmente acomodados em estruturas que não transformam. Santa Dulce nos recorda que não basta sentir compaixão pela pobreza: o Evangelho nos chama também a enfrentar aquilo que produz, mantém e naturaliza a pobreza.

Por isso, sua caridade nunca deveria ser interpretada como simples assistencialismo. Dar comida a quem tem fome é urgente, mas perguntar por que aquela pessoa continua tendo fome também é uma exigência cristã. Acolher quem dorme na rua é necessário, mas uma sociedade na qual seres humanos continuam condenados à rua precisa igualmente ser interrogada. Dulce começava pelo corpo ferido diante dela, porque o amor cristão não pode esperar pela transformação completa das estruturas para socorrer quem sofre hoje; mas sua própria vida demonstra que a caridade, quando levada a sério, acaba transformando estruturas. O pequeno gesto torna-se obra, a obra mobiliza pessoas, as pessoas criam novas possibilidades e aquilo que parecia impossível começa a mudar. A audácia do Espírito age precisamente assim: fazendo-nos perceber que a realidade não precisa permanecer como est

Celebrar a Festa de Santa Dulce dos Pobres deve nos fazer transbordar o Amor que ela nos ensina, com os mais pobres e necessitados. Se a celebração de sua memória terminar apenas em admiração, teremos compreendido muito pouco de sua santidade. Celebrar Dulce é permitir que sua vida nos desinstale, que nosfaça perguntar quem são os pobres que efetivamente fazem parte de nossa vida e quanto estamos dispostos a deixar que o encontro com eles transforme nossas escolhas. É recordar que a santidade não consiste em fugir do mundo, mas em amá-lo como Deus o ama, sobretudo a partir daqueles que tantas vezes o mundo prefere não enxergar. Santa Dulce não precisou de muitas palavras para explicar o Evangelho. Fez de sua própria existência uma parábola do amor de Deus. E talvez seja essa a graça que devemos pedir hoje: que nossas palavras sobre os pobres encontrem mãos dispostas a servir, portas capazes de se abrir, estruturas que aceitem ser transformadas e, sobretudo, uma vida suficientemente tocada pelo amor de Deus para que esse amor não consiga permanecer somente em nós.

 

 

Sobre o autor

Alan Matheus Gloss

Alan Matheus Rodrigues Gloss é licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e pesquisador nas áreas de teologia pastoral, mobilidade humana, migração e refúgio. Atuou no Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) e como secretário-executivo da Rede CLAMOR Brasil, desenvolvendo trabalhos de articulação, formação e incidência em temas relacionados à mobilidade humana e aos direitos das pessoas migrantes e refugiadas. Atualmente, é candidato à Companhia de Jesus (Jesuítas) no Brasil.

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