O OUTRO, O DIFERENTE E O ESTRANGEIRO
Diz o ditado popular que “com o andar da carroça, as melancias vão se acomodando”. Mas isso dura tão
somente até a próxima barreira. No passo a passo do cotidiano, a cada obstáculo corresponde um solavanco,
e este representa um sobressalto, seguido de uma nova reacomodação. Se assim não for, facilmente a
travessia se converte em uma caminhada monótona e sonolenta. São as pedras a serem vencidas diariamente
pelo caminho que nos colocam em permanente movimento. Por que preferimos a inércia? Por que o receio
das crises e obstáculos? Por que nos sentimos mais seguros numa rotina que raramente traz surpresas, ou,
quando as traz, não passam de pequenos arranhões, sem o poder de modificar o sossego e a tranquilidade?
Semelhante comodismo leva a evitar o outro ou diferente, o estranho ou forasteiro. O desconhecido tem o
poder de nos manter de sobreaviso. Toda novidade que nos tira da zona de conforto, por mais que possa
trazer benefícios, é vista como ameaça. Preferimos uma rotina insonsa, mas conhecida, a qualquer evento
imprevisível sobre o qual não temos controle. No dia a dia domesticado e repetitivo reside uma espécie de
paz viciada, quando não um mutismo tóxico. Ocorre o mesmo com a água: quando em movimento, é capaz
de purificar-se e tornar-se límpida, cristalina, deixando para trás os resíduos impuros e nocivos. Ao contrário,
quando imóvel, corre o risco de acumular detritos, gerando lixo e sujeira, o que a faz apodrecer. De resto,
tudo o que se acumula por muito tempo, tende a apodrecer.
Não é diferente com o tempo. Tempo acumulando, reservado unicamente para o gasto e o desfrute pessoal,
individual, converte-se em tédio. Quer dizer que também o tempo se depura e purifica no uso constante de
laços, relações e intercâmbios. Com ele é que se costura o tecido social. Quando cercado, impossibilitando o
acesso de outros, transforma-se em tempo latifúndio. Vazio, abandonado, improdutivo! Nada produz porque
não se abre à semente que vem de fora. Mas existe, ainda, o que se pode chamar tempo investimento, aquele
que é utilizado somente para gerar lucro sobre lucro. Tempo convertido em capital: se e quando aplicado,
deve tornar-se uma fonte de rendimento dobrado. Seu uso permanece irremediavelmente subordinado à lei da
acumulação de capital. Sendo assim, o tempo é meticulosamente dividido em fatias, e estas distribuídas de
acordo com a possibilidade de maior retorno.
Basta um olhar aos relatos evangélicos, por mais superficial que seja, para verificar que só o tempo gratuito é
capaz de criar relações genuínas, profundas e duradouras. O tempo de Jesus, sendo o tempo do Pai, passa a
ser gratuitamente distribuído aos pobres e excluídos, indefesos e marginalizados. Por isso é que, sempre com
os olhos fixos no Evangelho, a caravana do Mestre jamais atropela quem grita por socorro, venha o grito de
onde vier. Jesus se detém em atenção à pessoa que sofre e espera. A parábola do Bom Samaritano ilustra bem
esse aspecto. Enquanto os dois funcionários do templo (sacerdote e levita) não podem “perder tempo” com o
caído à beira da estrada e da vida, o samaritano coloca seu tempo à disposição daquela urgência. Dor, fome e
solidão não podem esperar. “Vai e faz o mesmo” – conclui o Mestre (Lc 10, 25-37). Daí que tempo latifúndio
e tempo investimento engendram, respectivamente, multidões famintas ou explorados. A forma de utilizar o
tempo condiciona o tipo de relacionamento que estabelecemos através dele.
Cabe a pergunta: de que forma a Igreja e seus representantes usam o próprio tempo diante do fenômeno das
migrações? Estas, como demonstram rostos, rotas e números, se tornam cada vez mais intensas, complexas e
diversificadas. O saudoso Papa Francisco jamais se cansou de alertar para o quadro frio e desolador dessas
multidões desenraizadas. Igualmente o atual pontífice, Leão XIV, retomando a preocupação pastoral de seu
antecessor, faz emergir a necessidade de abater muros e criar pontes, de passar da hostilidade ao diálogo, da
indiferença à solidariedade. “Igreja em saída”!... O tempo no interior da própria Igreja, das congregações, das
pastorais ou movimentos, entretanto, parece medido, demasiadamente calculado, regrado pela matemática.
Há tempo de sobra para o liturgismo formal, para o ritualismo estéril, para os paramentos ostensivos, para
certas devoções no mínimo estranhas e intermináveis, para as redes digitais, para um moralismo não raro
desencarnado... Mas falta tempo para os pobres, para os migrantes, para os grupos vulneráveis e descartáveis,
para a visita em suas casas, para o fortalecimento das organizações populares, para a defesa de seus direitos
básicos, para o resgate da dignidade humana aviltada, para uma postura profética diante dos opressores cada
vez mais milionários e bilionários...
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, assessor do SPM – São Paulo, 15/06/2025
Alfredo José Gonçalves
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