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A Igreja nasceu para a sinodalidade

Há 3 meses
Sinodalidade: vocação da Igreja desde suas origens
Sinodalidade: vocação da Igreja desde suas origens (foto por Luís Henrique Marques)

Como um farol, o Cardeal José Tolentino Mendonça, aponta o porto seguro e os caminhos para a Igreja de Francisco, da mesma forma que São João Batista apontou para Jesus, o Cordeiro de Deus! A alegria e gratidão por seus ensinamentos, por nos evangelizar por meio das artes, com poesias, escritos diversos, diferentes formas de depoimento e por seu testemunho de vida foram manifestadas no encontro da Província Jesuíta do Brasil nos dias 21 a 23/07/2021. Assim nos engrandeceu pessoal e eclesialmente, porque nos leva à comunhão com a Igreja em saída e nos motiva a viver a Alegria do Evangelho com o Papa Francisco, que tem nos desinstalado dos nossos confortos. Por isso, o poliedro é a metáfora para compreender a Igreja Católica nos dias de hoje, uma Igreja irreverente, seguidora de Jesus do Evangelho.

Integrado no corpo da Companhia de Jesus, sou mais que um corpo, porque estou em rede com outros corpos e mais ainda quando pensamos esse corpo dos jesuítas dentro da Igreja, porque tudo está conectado e damos ênfase a algumas interconexões. Mas alguns de nós que são importantes precisam ser reforçados nesse contexto de pandemia: as pessoas, as comunidades onde vivemos, atuamos, celebramos, sempre com arte. O Papa Francisco em Vamos sonhar juntos, reconhece que até o incomodava os bispos brasileiros fazerem tantas referências à Amazônia em maio de 2007, no santuário de Nossa Senhora Aparecida (Brasil), mas depois de muitos encontros, diálogos e acontecimentos, seus olhos foram se abrindo, como que num acordar, num amanhecer. A consciência de que o mundo é sistêmico germinou e cresceu em terra fértil, e o processo de conexão com tudo e todos é onde está a “brasa” de Maria Madalena que encontrou-se com Jesus Ressuscitado; de João Batista que encontrou Jesus no rio Jordão; de João Evangelista que comungou no pão e vinho naquela Santa Ceia...

Por isso, depois do Sínodo para a Amazônia, a Igreja é chamada a ser sinodal, uma Igreja que escuta a todos e todas e a sinodalidade tornou-se o caminho. Aqui podemos identificar mais uma “brasa” para cuidar da mecha que ainda fumega, sem querer se tornar detentor do fogo, mas continuar a encontrar na centralidade da Palavra de Deus, o reconhecimento da dimensão da interioridade do kérygma (do grego κήρυγμα), anunciado. Assim Santo Inácio de Loyola, cuja conversão estamos recordando neste ano inaciano (20 de maio de 2021 – 31 de julho de 2022, aniversário da sua morte) colocou nos Exercícios Espirituais o centro de tudo, a Palavra de Deus que deve ser rezada, meditada, contemplada! E assim vamos aprendendo o discernimento, a enxergar as “brasas” presentes na Igreja de Francisco.

Uma Igreja com rosto amazônico é um sinal para o cerrado, para o pampa, para o chaco e os outros biomas do mundo, que também devem sobreviver conosco, humanidade em pandemia. O Papa Francisco chutou a bola, mas os bispos e todos nós precisamos entrar no jogo com gosto, no caminho para uma Igreja comunitária, animada por grupos de ministérios, a serviço do Reinado de Deus na terra.

A Igreja nasce em Pentecostes, do encontro daqueles que acreditaram na ressurreição do Cristo Jesus. Eram um pequeno grupo, uma brasa acesa que incendiou o mundo e chegou aos confins da terra. A Igreja está também hoje nas pequenas comunidades. Dom Hélder Câmara já falava das minorias e lembro que, na Paraíba de Dom José Maria Pires (carinhosamente dito Dom Pelé), fazíamos o encontro das Comunidades Eclesiais de Base na festa de Cristo Rei em que Margarida Maria Alves fora martirizada. Não havia ali hierarquia, havia uma Eclésia e todos comíamos no mesmo prato. A ousadia de Francisco tem resistências de quem está acomodado, mas está contagiando para sempre nosso ser comunidade de seguidores do Mestre dos Mestres, Jesus!

A sinodalidade não é uma invenção do Vaticano II ou do Papa Francisco. Está nos Atos dos Apóstolos, no Evangelho que desinstala, na Palavra de Deus que é central como brasa que sempre reacende quando é alimentada, quando a meditamos, e arde, provoca crises e converte. Pela espiritualidade que nos harmoniza e centra quando alimentados pela Palavra de Deus, descobrimos que Deus habita em nós e buscamos os Sacramentos que sintetizam essa energia de Deus, o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria, com a mesma arte com que Jesus amou os seus que estavam no mundo e amou-os até o fim. Por isso, o encontro com a Palavra de Deus leva a viver os sacramentos como sinal vivo de Amor e não apenas como rito litúrgico, como uma Moral, uma Lei. Urgente é voltarmos para a Igreja centrada na Palavra e de Palavra, sempre coerente e profética na defesa da vida e que se dispõe a ser peregrina com os pobres.

O papa Francisco tem sido um grande ícone, "Um fogo que acende outros fogos!" quando pensamos em Santo Alberto Hurtado no Chile, pela coragem do chamado a estarmos em caminho, a dançar tango com os desafios, uma grande experiência de acertar os passos, um chamado para a Igreja e para todos nós. Assim celebramos as vitórias, mas também meditemos sobre os fracassos que nos colocam em reflexão e oração como oportunidades de humanização, crises que auxiliam a aprofundar nossa fidelidade criativa, para passar do confinamento ou quarentena ao acrisolamento de quem gera um tempo novo. Percebendo que não estamos sozinhos, que Deus caminha conosco, purificamos assim nossa fé.

O Papa Francisco tem nos ensinado, em seu pontificado, a construir pontes, a passarmos pelas crises com o olhar fixo em Jesus que levantou quando caiu sob o peso da cruz e, com Ele, sempre novamente podemos recomeçar. A pandemia é consequência de um caminho que nos deixou doentes, egoístas, consumistas e se tornou oportunidade para repensar nossos modelos de exploração do outro, nossos paradigmas. Estamos em reflexão e na escuta da Palavra de Deus neste momento com o Papa Francisco, que nos encoraja, mesmo nesses tempos difíceis que estamos vivendo, e a nos tornar pessoas melhores.

Com os olhos fixos em Jesus e os pés no chão, escutando o Evangelho com o auxílio do Espírito de Deus que sopra onde quer e queima dentro, nos perguntamos o que o Senhor quer de nós: crescer na fé, na esperança e na caridade concreta, pois muitos de nossos irmãos estão com fome, assim proclamamos a justiça de Jesus Cristo numa Eclesiologia Integral.

Sobre o autor

Aloir Pacini

Antropólogo, jesuíta e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em estágio pós-doutoral com pesquisa sobre o território transnacional dos Guaranis. Fez Mestrado no Museu Nacional (UFRJ) com estudos sobre as Missões com os Rikbaktsa e o Doutorado com os Chiquitanos (UFRGS). Em etnologia indígena, estuda os territórios tradicionais (águas) e suas vinculações com as identidades nas fronteiras dos Estados. Seu trabalho reflete o do cuidado da casa comum (proposta do Papa Francisco) e os papéis das instituições nas sociedades, também da Igreja no contexto de Mato Grosso e Brasil.