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Questão de injustiça: papel das Forças Armadas precisa ser revisto

Há 4 meses
Questão de injustiça: papel das Forças Armadas precisa ser revisto
(foto por Agência Senado)

O jesuíta Stan Swamy, preso na Índia por defender os indígenas naquele país, falsamente acusado de ter ligações com movimentos maoístas e ser responsável por uma revolta em 2018, morreu na prisão no dia 5 de julho de 2021, aos 84 anos de idade. O padre Stan, que padecia de várias enfermidades, inclusive Parkinson, contraiu Covid-19 na prisão de Taloja. No dia 3 de julho, o seu estado de saúde se agravou e ele precisou ser intubado. Por toda a sua história de vida e dedicação aos direitos humanos dos povos indígenas, o padre Stan era chamado de “portador da Constituição”, “amigo e guerreiro dos Adivasis”[1] e “aliado dos oprimidos”, um exemplo de fidelidade radical na defesa e proteção dos direitos indígenas em todo o mundo. Sua fala ressoa em nós: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à Justiça em todo lugar!”.

Saímos da ditadura militar no Brasil que fez um estrago enorme, especialmente aos povos indígenas e aprendemos que a pior das democracias sempre é melhor que qualquer ditadura. Agora caímos num buraco novamente, o governo colocou militares nos postos chaves, e que parte deles estão envolvidos na corrupção.[2] Na crise mais grave de falta de leitos e de oxigênio em Manaus, o Hospital Militar que tinha os leitos disponíveis não abriu possibilidade de socorrer a população civil e muitos morreram asfixiados.

Não quero me alongar com os 33,8 bilhões de reais com pensões e aposentadorias das Forças Armadas entre setembro de 2015 e agosto de 2016 enquanto o Bolsa Família, programa de transferência de renda direcionado a famílias em situação de pobreza e atendeu 50 milhões de pessoas em extrema pobreza (R$ 28,8 bilhões).[3] Chegou a oportunidade histórica de rever o papel das Forças Armadas e é urgente pensar a unificação das polícias no Brasil.

Alguns dados saltam à vista: a portaria do Ministro da Economia aumentou o salário dos pares muito acima do teto permitido; a Reforma da Previdência deixou de fora os militares e a Reforma Tributária em curso não atinge os que ganham maiores salários, entre eles, as altas patentes das forças armadas. A corrupção das elites é exemplo para as bases: em plena pandemia, 73.200 militares com salário mensal religiosamente depositado em suas contas receberam indevidamente o auxílio emergencial de R$ 600. Boa parte dos militares que foi ao poder logo mostrou toda sua ganância por propinas e corrupção.[4] Todas as vezes que os militares saíram de sua tarefa constitucional e foram para a política, foi uma tragédia. No governo atual mostraram-se pouco adeptos ao trabalho, eticamente mal formados nos privilégios, pouco técnicos e científicos.

O senador Omar Aziz (Presidente da CPI da Covid que investiga o porquê da morte de mais de 530 mil brasileiros) diante da quantidade de militares envolvidos em falcatruas na Saúde declara que “a parte boa do Exército deve estar envergonhada com a pequena banda podre que mancha a história das Forças Armadas”. Ao menos sete nomes com origem nas Forças Armadas foram citados nas últimas semanas na CPI da Pandemia por suposto envolvimento em irregularidades e foram afastados. Outros 19 ainda ocupam cargos na pasta.

Sabemos que existem pastores, padres, bispos, leigos, defensores da família, dos bons costumes, da pátria etc. que são o exemplo da religião cooptada e servil aos interesses dos poderosos e sustentam essa forma injusta de colocar o Estado a serviço das elites, mas ficam longe da prática de Jesus Cristo. A crítica das religiões como ópio do povo deve ser retomada com urgência e aprofundada a partir da leitura da Bíblia nos moldes do CEBI. Nesse contexto, o papa Francisco indica o caminho do cuidado da casa comum antes que atravessemos a linha de não retorno e pede uma conversão integral para darmos conta de superar a pandemia pela qual estamos atravessando.

E como faz bem ter uma Igreja próxima de Jesus Cristo, do lado dos injustiçados e empobrecidos! A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) cobra apuração irrestrita e imparcial das denúncias sobre irregularidades cometidas pelo poder público na pandemia. A entidade pede a restauração da Justiça e chega a mencionar que a "trágica perda de mais de meio milhão de vidas" foi "agravada pelas denúncias de prevaricação e corrupção", numa referência ao presidente Jair Bolsonaro. Por isso, propomos Fora Bolsonaro, antes que seja tarde demais.

Existem soluções melhores para a ação das polícias. Por exemplo, caiu para zero a taxa de letalidade registrada em junho, isso em 15 batalhões da Polícia Militar de São Paulo cujos homens passaram a trabalhar com bodycams, câmeras no corpo que gravam sem interrupção todo o turno de trabalho do policial.[5] E agora Betina de Jesus que batia panela foi presa durante motociata pela PM em Porto Alegre no dia 10/07/2021.[6] Ela protestava contra o governo foi presa hoje durante a motocada organizada pelo presidente Jair Bolsonaro e quem não escutou o povo gritar? “Chama a polícia, chama a polícia que uma mulher que batia panela foi presa por bandidos escondidos atrás da farda!” Observo que o homem da moto que a agrediu não foi algemado como ela. Será por quê?

 

[1] Após ser criado o Estado Indígena de Jharkhand em 2000, a atividade do Padre Stan em Ranchi era capacitar os Adivasis por meio de treinamento, pesquisa, documentação e defesa dos direitos das pessoas sobre a terra, águas e florestas o que gerou confrontos contra o governo.

[2] LADRÕES DE VACINA - Militares estão diretamente envolvidos no escândalo de PROPINA na compra de vacinas do governo Bolsonaro! https://www.plantaobrasil.net/news.asp?nID=116879

[3] Aposentadoria de 300 mil militares consome R$ 33 bilhões dos cofres públicos https://cartacampinas.com.br/2016/12/aposentadoria-de-300-mil-militares-consome-r-33-bilhoes-dos-cofres-publicos/ Pesquisadores ficam sem 'salário' enquanto filhas de militares recebem R$ 5 bilhões por ano https://cartacampinas.com.br/2019/09/pesquisadores-ficam-sem-salario-enquanto-filhas-de-militares-recebem-r-5-bilhoes-por-ano/

[4] https://brasil.elpais.com/brasil/2021-07-09/militares-vao-de-vitrine-a-vidraca-ao-comandar-postos-chaves-no-ministerio-da-saude-em-meio-a-suspeitas-de-corrupcao-e-caos.html

[5] https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,apos-instalacao-de... (10 de julho de 2021).

[6] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/07/10/mulher-presa-motociata-jair-bolsonaro-porto-alegre.htm?utm_source=chrome&utm_medium=webalert&utm_campaign=politica

Sobre o autor

Aloir Pacini

Antropólogo, jesuíta e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em estágio pós-doutoral com pesquisa sobre o território transnacional dos Guaranis. Fez Mestrado no Museu Nacional (UFRJ) com estudos sobre as Missões com os Rikbaktsa e o Doutorado com os Chiquitanos (UFRGS). Em etnologia indígena, estuda os territórios tradicionais (águas) e suas vinculações com as identidades nas fronteiras dos Estados. Seu trabalho reflete o do cuidado da casa comum (proposta do Papa Francisco) e os papéis das instituições nas sociedades, também da Igreja no contexto de Mato Grosso e Brasil.