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A política de Deus e dos demônios

Há 2 meses
Papa Francisco:  política de Deus, em encíclicas e discursos
Papa Francisco: política de Deus, em encíclicas e discursos (foto por Luís Henrique Marques)

Deus Pai fez política quando enviou seu Filho ao mundo para nos salvar da mão dos Herodes e Nossa Senhora fez política quando aceitou a proposta de colaborar nessa Missão. Jesus Cristo fez política quando morreu na cruz para nos salvar e São Pedro fez política quando negou Jesus três vezes antes do ocorrido. O Espírito Santo fez política quando desceu sobre os discípulos e criou a Igreja para formar um povo capaz de distribuir o pão e não temer a morte feita pelo Império que tinha tomado o poder em Jerusalém e em Roma. E assim Deus e os demônios fazem política através de nós seres humanos.

Tempos de crise é bom para pensar se estamos servindo a Deus ou aos demônios. Em geral, quem demoniza a política, está servindo aos demônios... Estamos chegando a quase 600 mil mortos pela Pandemia no Brasil e somos o quinto país em que mais gente já morreu, isso em números proporcionais à população. Além de ter que combater uma pandemia nós temos que combater um pandemônio no governo. O aquecimento global está dando sinais de catástrofe ambiental que prejudica os mais empobrecidos, e as pessoas estão se alertando para o fracasso da proposta desenvolvimentista do governo, principalmente a partir da Ditadura Militar que se propunha a acabar com o “Inferno Verde” da Amazônia.

A sensibilidade de trazer a participação indígena para o cenário nacional tem nos alertado para os seus direitos fundamentais presentes na Constituição de 1988, pois eles possuem uma visão que auxilia a compreender o cuidado da mãe-terra como mandamento de Deus para sairmos do antropoceno como perspectiva de des-envolvimento. O Movimento Sem Terra está trabalhando intensamente para a produção orgânica de alimentos, sem agrotóxicos e isso é um sinal visível desse aprendizado histórico e da sensibilidade para o tempo presente nos trazer saúde.

Tem gente querendo te enganar dizendo que não devemos entrar na política, mas usa o nome de Deus em vão. Aqui no Brasil e no Afeganistão dizem “Deus acima de tudo” para tirar os direitos dos índios, dos aposentados, dos trabalhadores, para dar salários de mais de 100 mil para os amigos e para os pobres nem um salário mínimo, para juntar dinheiro na mão de poucos. Assim os demônios fazem política e enganam com mentiras os filhos de Deus que não se dão conta que existem muitos lobos vestidos com pele de cordeiros. Graças a Deus vimos nessa semana em Brasília a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) visitando os indígenas e dando apoio contra o Marco Temporal que é pura enganação dos demônios que fazem política e não querem que você faça política, dizem para você não se meter em política que isso é coisa para eles.

As cosmologias ameríndias relacionadas com a mãe-terra são bem acolhidas pelos assentados da Reforma Agrária porque essa sensibilidade parece entrar em comunhão com as pessoas que tem Amor no coração. Para o xamanismo amazônico, os animais e outros seres são gente. A terra, a floresta amazônica e a bacia do rio Amazonas ou Paraguai (o Pantanal ou o Cerrado) são associados frequentemente com o corpo humano, uma linguagem capaz de conectar com a sensibilidade das pessoas nos tempos atuais e criar vínculos de solidariedade e compromissos com o cuidado da Mãe Terra no contexto de questionamento da forma capitalista de exploração da natureza pela sociedade ocidental. Compreensões de des-envolvimento vindo de fora para dentro da Amazônia são uma faca de dois gumes, mas não produz dois legumes, simplesmente devastam sem a sabedoria ancestral das populações tradicionais que ali vivem. Esta visão da “Marcha para Oeste” coloca o planeta em risco, e nos leva à consciência de que o descartável e o consumo desenfreado é incompatível com o cristianismo e o cuidado da casa comum porque leva à destruição e à fratura ecológica na mãe-terra.

Essa política dos demônios foi levada a cabo pela ditadura militar e pode ser diagnosticado pelo VII Recenseamento no Brasil (1970), que não buscava cidadãos, mas justificar as invasões dos territórios tradicionais indígenas: onde houvesse vegetação nativa não haveria população presente e, com crédito para a iniciativa privada, os funcionários governamentais do território/nação Brasil, entre eles os militares, puderam adquirir pedaços de áreas demograficamente vazias, a chamada terra nullius. Rondônia já tinha sido dividida para a devastação e, nos anos que se seguiram, Mato Grosso foi novamente dividido e milhares de vidas de seres humanos também foram ceifadas. O governo federal, na época ditatorial, mostrava ao mundo sua força de ação com o recorde histórico de PIB de taxas de crescimento acima dos 14% ao ano com endividamento externo sem precedentes. E toda essa riqueza foi massivamente implementada na agenda antropocênica, a maior parte da economia voltada para exportação, o ouro e outros minérios passaram a ser explorados e levados para fora do Brasil, quase sem controle governamental.

Por outro lado, as consequências de um território devastado ficam como prejuízo para o povo brasileiro. Na mesma dinâmica da exploração mineral está a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) que tem 241 dos 513 deputados federais e 39 dos 81 senadores foi fundada em 1995; são metade do Congresso e possuem um braço político, ideológico e financeiro próprio, o Instituto Pensar Agro (IPA), que recebe dinheiro de associações do agronegócio: dos sojeiros, da indústria de proteína animal, dos agrotóxicos, da indústria do tabaco, dos bancos etc. Eles representam os donos do boi, da soja, da cana, do arroz, da madeira etc. Eles são a bancada ruralista do agronegócio avançando sobre territórios “vazios” pensados como devolutos que depredam e poluem. Assim foi tirado o envolvimento que sustentava a terra em equilíbrio, des-envolveu e coisificou a natureza, transformou-a em fatura, em dinheiro. Isso os indígenas vêm denunciando desde muito tempo: somos irmãos da água, da árvore, da montanha, dos animais... filhos da mãe-terra!

A política dos demônios te engana colocando armas na sua mão, para você morrer achando que está protegido na mão de bandidos, pois eles têm o tempo todo treinado para atirar melhor que você. Bem diferente é a política de Deus entre os cultivadores e cuidadores das roças familiares que produzem alimento sadio entre os sem-terra e os índios, que pensam comida no prato para todos. Os chamados “Rios Voadores” são o vapor d´água que as florestas amazônicas emitem e que permitem que tenhamos a biodiversidade que ainda podemos contemplar no sul do continente. O pesquisador Antonio Nobre, do Inpe, afirmou em 2019 que, em razão das queimadas na floresta Amazônica e do grande esforço que o reino vegetal tem feito, a região leste da floresta Amazônica já está em fase de morte, não consegue mais se suster em razão da sobrecarga de trabalho buscando trazer equilíbrio climático nesta porção do corpo do organismo vivo, Yvy para os Guaranis; Abya Yala, nome em língua Kuna para América; Gaia para os gregos; Pachamama nos Andes; Shakti na Yoga para significar o poder feminino, a natureza, a energia feminina responsável pelo movimento do universo.

As pesquisas para garantir direitos dos sem-terra e dos indígenas estão sendo debatidas, mas sempre temos a preocupação com o ponto de inflexão que traz desastres ecológicos sem volta, o que tornaria sem sentido as demais lutas, por exemplo, sem água não tem agricultura. Os indígenas estão indo para Brasília fazer a boa política contra a PL 490 e contra o marco temporal reiteradas vezes, agora no dia 26 foi aberto pelo Supremo Tribunal Federal a votação do assunto e somente vai voltar no dia 1/09. Os mais de 6 mil índios de 173 etnias não têm como se manter lá, por isso voltam para suas aldeias. A política dos demônios chama o povo para sair nas ruas e desestabilizar as instituições democráticas na semana da Pátria e a boa política pensa no futuro do Brasil permitindo que os cidadãos tenham saúde e educação de qualidade. Assim Santo Inácio de Loyola nos ensina a arte do discernimento para saber se estamos sendo guiados pelos demônios ou pelo Deus vivo e verdadeiro.

O Papa Francisco tem mostrado a boa política, a política de Deus nas suas encíclicas e nas suas palavras. Por isso vemos tantos que praticam a política dos demônios falando mal do Papa, isso mesmo entre pastores e padres. As espiritualidades dos Povos Indígenas apontam para a política de Deus, para outro mundo possível. Temos que reconhecer que o mundo ocidental entrou entre os povos indígenas e muitos valores do bem viver foram se perdendo, mas é possível retomar o espírito dos povos originários, por exemplo: 1. A harmonia com a natureza; ter uma relação de vínculo, mais que olhar para a floresta como uma dispensa, manter uma relação saudável com a natureza, uma conexão com os animais, as plantas, conosco mesmos. 2. A sobriedade – simplicidade; uma vida simples é mais feliz, porque descobre a beleza do natural, da gratuidade: entrega sem interesse frente ao mundo orientado para o ter. 3. A solidariedade e comunidade no centro; compreender que todos estamos na mesma barca ou casa comum e ajudamos o mundo com o que temos e sabemos. 4. Recuperar a sabedoria, a experiência acumulada dos anciãos, por exemplo, o conhecimento das plantas como alimentos e das curativas, a medicina tradicional de mãos dadas com a ciência. 5. Encontrar a felicidade no Ser e desfrutar do tempo como um presente, frente a una sociedade acelerada e do cansaço. 6. Viver um comércio justo e a democracia participativa no possível. 7. Ritualizar a vida: possuir uma conexão profunda com a natureza é fundamental para ter uma saúde integral e convém refletir a respeito para apreender a bem viver.

Sobre o autor

Aloir Pacini

Antropólogo, jesuíta e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em estágio pós-doutoral com pesquisa sobre o território transnacional dos Guaranis. Fez Mestrado no Museu Nacional (UFRJ) com estudos sobre as Missões com os Rikbaktsa e o Doutorado com os Chiquitanos (UFRGS). Em etnologia indígena, estuda os territórios tradicionais (águas) e suas vinculações com as identidades nas fronteiras dos Estados. Seu trabalho reflete o do cuidado da casa comum (proposta do Papa Francisco) e os papéis das instituições nas sociedades, também da Igreja no contexto de Mato Grosso e Brasil.