Cookies e Política de Privacidade
A SIGNIS Agência de Notícias utiliza cookies para personalizar conteúdos e melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade.

Que passe outubro para chegar novembro!

Há 2 meses
Pe. Aloir: "Todos nós seres humanos, não importa a religião, etnia ou país, precisamos respeitar a criação"
Pe. Aloir: "Todos nós seres humanos, não importa a religião, etnia ou país, precisamos respeitar a criação" (foto por Luís Henrique Marques)

O mês de outubro deste 2021 é tão importante como mês missionário, da Mãe Aparecida, das crianças e seus educadores. A homilia do arcebispo Dom Orlando Brandes, na missa do Santuário de Aparecida (SP), no último dia 12 de outubro, repercutiu como as palavras de Jesus no coração dos fiéis e dos fariseus. Os empobrecidos desse país acolheram com palmas, porém houve manifestações que se excederam em ofensas e agressividade que é feio até reproduzir aqui, estendidas à CNBB, ao Papa e, por extensão, a todos os cristãos e pessoas de boa vontade comprometidas com o Evangelho.

Mais especificamente veio dos esgotos o poder que tomou conta do Brasil e, de forma fascista, colocou-se ao serviço das forças demoníacas do farisaísmo da época de Jesus, para excluir e matar. Estão tão longe da prática de Jesus Cristo que ama os pobres e os eleva para um lugar de dignidade, que o próprio Evangelho denuncia. Assim o deputado estadual Paulo Frederico D´Ávila (PSL na ALESP) procedeu, numa típica manifestação bolsonarista, ao ofender a Dom Orlando, à CNBB e ao Papa em 15/10/2021. Esse deputado, eleito na condição de judeu, não terá provavelmente a conivência nem mesmo da Confederação Judaica que mantém diálogo e relações fraternas com a Igreja Católica.

Em vez de conversão, formalmente fez uma carta de pedido de “desculpas” (18/10/2021), por causa dos processos que pode sofrer, mas somente repetiu o discurso com palavras mais brandas, pura hipocrisia, própria dos fariseus que se acham mais santos do que até o próprio Jesus Cristo. Penso que o pecado cometido deve sempre ser perdoado quando há pedido de perdão, mas os crimes cometidos merecem o rigor da lei para que discursos que incitem o ódio e a violência parem de circular nesse Brasil.

O mais grave de tudo isso não são as palavras, mas os efeitos delas, pois levam a atos desastrosos na falange do mal. Em Roraima, os garimpeiros se sentem acobertados pelo governo para invadir as terras indígenas. Por isso, um desastre terrível entre os yanomami levou duas crianças à morte numa draga de garimpo,[1] um sinal de que estamos mal na foto e precisamos assumir nossas responsabilidades como fez Dom Orlando e fizeram os Padres da Caminhada em seu manifesto contra os desmandos que vivemos e tantos que são solidários, cristãos de verdade como o MST que doa alimentos saudáveis a quem passa fome nesse Brasil.

Curiosamente no mês das crianças, também lembramos os educadores, e somos chamados a priorizar a educação escolar para mudar nosso modo de estar no Brasil e são tantos os testemunhos de educadores dedicados e desprendidos que nos enobrecem. Não coniventes com a desigualdade social, refletimos também nesse mês sobre a necessidade da segurança alimentar, pois a mais perversa forma de violência é a fome, e são tantos estão atuando para além de suas casas, porque quem tem fome tem pressa. [2]

Por isso, estamos diante de uma oportunidade de nos manifestar também para os líderes mundiais de 196 países que se reunirão em Glasgow, na Escócia, entre os dias 1º e 12 de novembro para a Conferência do Clima (COP26). Ali tomarão decisões que afetarão a nossa casa comum. Pela primeira vez, um papa participará de uma Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU, dada a liderança mundial que o Papa Francisco vem assumindo evangelicamente. Estamos pedindo quatro ações, inspirados na cosmovisão guarani (na cruz missioneira que aponta para os 4 elementos da natureza, as 4 direções da mãe-terra): combater a emergência climática e a crise da biodiversidade juntas; limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius e prometer que não haverá mais perda de biodiversidade; garantir uma ação global equitativa, incluindo apoio aos mais afetados; proteger e respeitar os direitos humanos, incluindo os direitos dos povos indígenas e comunidades locais nas ações relacionadas ao clima e à biodiversidade.[3]

Todos nós seres humanos, não importa a religião, etnia ou país, precisamos respeitar a criação. Nossa responsividade é mais que a responsabilidade do dia a dia. Precisamos levantar a voz antes que seja tarde, juntar nossas mãos para colocar em prática nossa fé, porque esse é o tempo de criação de Deus também para nós, e nossa criatividade faz a diferença, porque toda a criação geme em dores de parto pela nossa contribuição de cristãos (Rm 8,22).

No passado, Jesus e São João Batista sofreram a violência dos fariseus e de Herodes. João viveu no deserto quase toda a sua vida em vida austera, comendo tucuras (gafanhotos) e vestindo peles de camelos. Ele afirmava que o casaco que sobra no seu armário pertence a quem não tem. Como primo de Jesus, foi batizado nas águas do rio Jordão e ali passou a tradição dos profetas também Àquele que viera humilde pelo seio de Nossa Senhora, aqui Aparecida. Nas montanhas, ambos já tinham se encontrado nos oceanos do bem viver de Isabel e de Maria, porque é das montanhas que descem as águas para equilibrar os mares revoltos de nossas vidas. A missão de São João Bauptista foi batizar com as águas que descem dos céus e marcar com a Trindade Santa a nossa responsividade com a criação.

Sou nascido numa família cuja cultura diz que o pão é sagrado, e na simplicidade do dia a dia, não se colocava o pão de qualquer jeito sobre a mesa. Tinha que ser como foi assado. Antes de cortar o pão, fazia-se o sinal da cruz sobre ele e, depois de cortado, nem as migalhas eram jogadas fora. Também quando se cortava numa ponta não podia cortar na outra, tinha que continuar até chegar ao final, cada um recebendo a sua parte.

E aqui faço menção de um aprendizado que tive da partilha da chicha como do chimarrão e uma homenagem ao Chiquitano Don Lucho Rocha Peña que fez a passagem definitiva para os braços de Deus Pai no dia 8/10/2021. Santa Ana de Velasco (Bolívia) será sempre agradecida pelos seus serviços dedicados, generosos à Igreja de Jesus Cristo e vai sentir muita falta desse Sãocristão. O cuidado dos jesuítas, dos Chiquitanos e dos Guaranis antes da fundação de um Pueblo, antes de fincar a cruz e tornar sagrado o lugar para bem viver, era ver se ali teria água potável, água que brotasse do meio das pedras, de preferência em lugares altos para correr até as casas, mostra que a sustentabilidade, e mesmo a possibilidade da vida na terra, está na responsividade de cuidarmos da água para que continuem nos seus ciclos saudáveis, trazendo o equilíbrio para os seres humanos e todos os seres vivos que precisam passar pelos rios, pelos banhos, pelo perdão para seguir nas profecias de São João Batista, também dono do fogo e das águas, segundo esse exímio tocador de violino, parteiro e pajé Don Lucho. Guardaremos sempre na memória e, no coração, seus ensinamentos, sua alegria e sua musicalidade.

 

[1] Agora temos cerca de 20 mil garimpeiros dentro da Terra Indígena Yanomomi e no dia 14/10/2021 os Yanomamis denunciam morte de duas crianças indígenas sugadas por balsa de garimpo ilegal Yanomamis denunciam morte de duas crianças indígenas ... https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/brasil/yanomamis-denunciam...

[2] Entramos novamente no mapa da fome. Quase 20 milhões de brasileiros declaram passar 24 horas ou mais sem ter o que comer em alguns dias. Mais 24,5 milhões não têm certeza de como se alimentarão no dia a dia e já reduziram quantidade e qualidade do que comem. Outros 74 milhões vivem inseguros sobre se vão acabar passando por isso. www.ihu.unisinos.br/613613-20-milhoes-estao-passando-fome-no-brasil-e-o-numero-de-favelas-dobrou-em-10-anos. E também damos de nossa pobreza, estamos colaborando na campanha Haiti precisa de você para reconstrução de casas no Haiti, qualquer valor por meio da chave PIX/CNPJ: 20.846.050/0001-00, confira quem vai encaminhar para que chegue lá a sua doação: Jesuítas do Brasil. Bra.

[3] Eu assinei e apoio o Papa Francisco, assine a petição também.

Sobre o autor

Aloir Pacini

Antropólogo, jesuíta e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em estágio pós-doutoral com pesquisa sobre o território transnacional dos Guaranis. Fez Mestrado no Museu Nacional (UFRJ) com estudos sobre as Missões com os Rikbaktsa e o Doutorado com os Chiquitanos (UFRGS). Em etnologia indígena, estuda os territórios tradicionais (águas) e suas vinculações com as identidades nas fronteiras dos Estados. Seu trabalho reflete o do cuidado da casa comum (proposta do Papa Francisco) e os papéis das instituições nas sociedades, também da Igreja no contexto de Mato Grosso e Brasil.