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As Rosas de Presente (Epifania)

Há 16 dias
As Rosas de Presente (Epifania)

"Assim, permanecem agora estes três: a Fé, a Esperança e o Amor. O maior deles, porém, é o Amor."

(1 Coríntios 13:13)

 

Minha mãe gosta muito de rosas. Por isso, seu quintal está cheio de roseiras que havia plantado e regado para que crescessem e desabrochassem em belas rosas. A cada ano, a dura tarefa de podar as roseiras é um problema, pois seus galhos são cheios de espinhos. Nesse momento, a tentação foi arrancar as roseiras... Contudo, pensando na sua beleza, encheu-se de Esperança e voltou a podá-las, apesar do risco de espinhar-se e recolher os galhos cortados ou fincar no chão para que novos pés crescessem.

Pelo Natal, examinou suas roseiras e observou os botões, que em breve desabrochariam, na ponta dos galhos mais altos que brotaram viçosos depois do inverno. Procurou segurar e sua mão sofreu com os espinhos. Pensou: “Como pode uma flor tão bonita estar cercada de espinhos tão afiados?”.

Na Epifania, minha mãe decidiu que levaria suas rosas para embelezar cada uma das sepulturas dos que passaram em sua vida, pois são rosas e espinhos. Assim, ela pareceu me dizer a forma violenta como perdeu meu pai e meus irmãos Ailson e Ademir: o ouro, o incenso e a mirra.

Pessoas são como a rainha das flores. Dentro de cada alma humana existe uma rosa: são as qualidades dadas por Deus, mas também têm os espinhos, as nossas falhas. Muitas vezes, quando examinamos a nós mesmos ou aos outros, vemos somente os espinhos - os defeitos. Ficamos presos aos nossos defeitos e dos outros, chegando a pensar que nada de bom pode vir de nosso interior. Desanimamos e nos recusamos a regar o bem dentro de nós e, consequentemente, não desabrochamos para as coisas boas. Não somos capazes de observar nem nosso próprio potencial.

Até os espinhos têm sua razão de ser, pois auxiliam a proteger a beleza da rosa. Um dos maiores dons que uma pessoa pode possuir ou dividir é ser capaz de passar pelos espinhos e encontrar as rosas dentro dos outros e de si. Esta é a maior característica do amor. Olhar uma pessoa inteira, por dentro e por fora, conhecer suas verdadeiras falhas e, mesmo assim, aceita-la em sua vida. Quando ajudamos alguém a perceber que é amado, damos a oportunidade de entender que pode superar suas aparentes imperfeições e desabrochar em flor.

Em nossa vida cotidiana frequentemente temos lidados com os espinhos do nosso tempo de pandemia e de tantos absurdos. No final do ano, foi noticiado que 10 dos 13 bilionários cariocas enriqueceram como banqueiros. Os outros três enriqueceram astronomicamente com negócios na saúde privada.[1]

O sistema de saúde brasileiro ou a rede pública de saúde foi desmontada propositalmente e isso pode explicar porque parte do dinheiro destinado ao combate da pandemia foi parar nos banquetes que o Exército Brasileiro faz às custas do povo.[2]

As estatais poderiam, por exemplo, oferecer energia, água, combustível mais baratos porque são dons de Deus. Também os serviços de saúde e educação deveriam assim ser ofertados, afinal, são obrigações do Estado! O objetivo das estatais deveria ser o equilíbrio social e não o lucro. Privatizar gera lucro para alguns e preços altos para todos os consumidores. O que era de todos passa a ser de um grupo pequeno geralmente associado ao capital internacional. Deveríamos melhorar a administração do que é público e evitar privatizações de bens que são do povo brasileiro como petróleo, minérios, água etc. Não são do governo.

Ouro, incenso e mirra - conforme Mateus, capítulo 2, versículos 1 a 12 - foram os presentes dos magos ao Menino Jesus. Seriam esses magos estudiosos das coisas da terra e dos céus ou religiosos do zoroastrismo, astrólogos e astrônomos? O certo é que eram pessoas atentas aos sinais dos tempos, assim como os pajés ou xamãs indígenas que alertam o mundo para o cuidado da mãe-terra, segundo o Papa Francisco. Melquior, já com seus 70 anos, vindo de Ur, terra dos Caldeus; Gaspar, ainda jovem, vindo das montanhas perto do Mar Cáspio e o mouro Baltasar, de meia idade, com a barba cerrada, vindo do Golfo Pérsico, na Arábia foram guiados pela estrela. Também nós o seremos nesse ano para não sermos iludidos na eleição.

Outro fato noticiado foi a seleção de policiais federais, entre todos os servidores públicos, para receberem aumento de salário por serem subservientes ao governo atual (ou para que o sejam). Assim, o policial federal que preside a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) desde o ano passado, mandou processar a principal organização indígena do país, a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), por ter produzido uma série em 9 capítulos, chamada Maracá, feita em 2020, para denunciar o genocídio indígena. Vale à pena assistir esses capítulos de pura arte indígena (no link http://bit.ly/SerieMaraca).

Os espinhos vão aparecer no meio do caminho, porém,  mais importantes são as rosas, são as frutas colhidas para saciar a fome do próximo. Contudo, é preciso saber se precaver deles, ter consciência de que estão ali, para que os seus efeitos não sejam perversos... Com este novo ano nos enchemos de Esperança, porque nossa Fé é no Amor de Jesus Cristo que vence o ódio e as fake news. Para Ele, todos os nossos presentes, nossas vidas valem a pena! Minha mãe sabe porque correu e se espinhou toda no meio dos gravatás!

 

[1] Jorge Moll Filho, dono da Rede D'Or de hospitais e do grupo de laboratório Labs, no ano passado passou de 11,2 bilhões para 63,9 bilhões. A dona do plano de saúde Amil, Dulce Pugliese de Godoy Bueno, passou de 19,7 para 34 bilhões, lucra com o plano de saúde, com a Rede Ímpar de hospitais e os laboratórios Dasa. Pedro de Godoy Bueno passou de 6,2 para 17 bilhões, lucrando com a UnitedHealthe e com os laboratórios Dasa.

[2] https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/politica/2021/07/dinheiro-do-sus-para-pandemia-e-desviado-para-gastos-militares-diz-mp.html

 

Sobre o autor

Aloir Pacini

Antropólogo, jesuíta e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em estágio pós-doutoral com pesquisa sobre o território transnacional dos Guaranis. Fez Mestrado no Museu Nacional (UFRJ) com estudos sobre as Missões com os Rikbaktsa e o Doutorado com os Chiquitanos (UFRGS). Em etnologia indígena, estuda os territórios tradicionais (águas) e suas vinculações com as identidades nas fronteiras dos Estados. Seu trabalho reflete o do cuidado da casa comum (proposta do Papa Francisco) e os papéis das instituições nas sociedades, também da Igreja no contexto de Mato Grosso e Brasil.