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Se estão matando as pessoas, é preciso agir contra!

Há 1 mes
Bolsonaro:
Bolsonaro: (foto por Arouca (https://www.instagram.com/p/Cf3wnEbLTwJ/))

Se alguns chegam até a dizer que “Jesus não comprou pistolas porque não tinha naquela época”,[1] nós fazemos um esforço maior para conhecer o Coração de Jesus que ama até esses blasfemos. O indígena Elizeu Lopes denunciou no dia 2 de julho de 2018 que são as milícias armadas que levaram ao assassinato de 390 indígenas nos últimos 12 anos no Mato Grosso do Sul. Ou seja, tem o envolvimento de políticos locais, de fazendeiros e até da polícia nos ataques às comunidades Guarani-Nhandeva e Kaiowá.[2]

No Mato Grosso do Sul, são cerca de 45 mil indígenas presos em minúsculas reservas, impedidos de retornarem aos seus territórios tradicionais, porque os militares liberaram suas terras para a colonização. Foi assassinado em uma fazenda de Coronel Sapucaia em maio deste ano o jovem Guarani Kaiowá Alex Recarte Vasques Lopes.

A mais recente onda de ataques das forças militares do Estado começou na madrugada do dia 24 de junho, no Tekoha Gwapo’y Mi Tujury, em Amambaí (MS), o que levou a dezenas de Guarani e Kaiowá feridos e ao assassinato de Vitor Fernandes. Estamos convivendo com a barbárie alargada nos últimos anos no Brasil. Nosso processo civilizatório está sendo marcado por um trágico curso de agressão aos povos originários.

Manifestações reiteradas do governo atual contra a demarcação de territórios tradicionalmente cuidados por povos indígenas geram insegurança jurídica, conflitos e mortes. A fragilização e o aparelhamento dos órgãos de fiscalização fazem com que agressores e invasores de terras indígenas espalhem o terror, sem o menor constrangimento legal, um ultraje flagrante à nossa Constituição de 1988.

Como conselheiro de Educação Indígena junto à Secretária de Educação (SEDUC), participei no Fórum de Educação Indígena no dia 28 e 29/06. Levei os Warao Ravel Aquiles Rivero, Fabian Beria e José Morín Navaro ao Fórum que foram bem acolhidos pelos demais povos indígenas e propuseram uma escola específica e diferenciada para eles, o que foi aprovado em plenário. Depois, fizemos um domingo de atividades com eles para conhecer melhor os trilhos por onde passaram para chegarem até aqui, porque já dizia Mia Couto: “A escrita não é um veículo para se chegar a uma essência. A escrita é a viagem, a descoberta de outras dimensões e de mistérios que estão para além das aparências.” Os rastros (las huellas ou homunokos) que deixamos por onde passamos são significativos para contar nossas densas histórias:

Rabel disse que o chocalho dos Rikbaktsa que eu levara despertaria os espíritos dos falecidos, por isso não quis tocá-lo, e mostrou que era como os maracás usados em certos cantos para os rituais. Por isso, foi importante que eles escolhessem os cantos que cantariam durante o encontro. Rabel contou que saiu de seu lugar natal, uma terra entre águas, por isso morava em palafitas e o rio dava o sustento na maior parte do tempo, mas também nas épocas do baixio podiam plantar milho e outros produtos. Não recebiam nada do governo. Saíram por causa da invasão de seu lugar por petroleiras e extração mineral; a água ficou suja, não dava mais para beber e comer os peixes porque tinham mercúrio. Chegou com sua família na barranca do Orinoco; um golpe de fome e de sonho fez continuar caminhando. Passou por São Félix e Santa Helena para entrar no Brasil, Pacaraima e Boa Vista. Chegou em Manaus em 2018. Tinha que sair dali porque tinha muito migrante, não tinha vaga para viver bem no meio de outros venezuelanos nos acampamentos. Porto Velho também não tinha vaga e vieram para Cuiabá, porque aqui estava Jesus, Florência e sua família que foram para Porto Alegre. Já fazem mais de dois anos que estão aqui. “Sou cristão católico, aprendemos para cumprir. Vou conhecer primeiro os missionários em Cuiabá, pensei. Jesus me convidou para a Missa de Nossa Senhora de Coromoto no dia 11/09/2020. Depois Eurípia convidou para participar da Comunidade São Francisco de Assis, mas era longe demais para chegar até lá”.

Nesse interim. o arcebispo emérito de São Paulo, o cardeal Dom Claudio Hummes faleceu no 4 de julho de 2022. Eu tive a oportunidade de ir ao velório do conterrâneo na noite do dia 5 e abraçar a família em luto.[3] Também chegou ali o padre Júlio Lancellotti e Luiz Inácio Lula da Silva que foram amigos dos tempos difíceis da ditadura militar em São Paulo: juntos enfrentaram os despejos dos pobres nas periferias e organizaram as greves nos trabalhos na Pastoral Operária. Ali cumprimentaram a Mariane, sobrinha do cardeal, e a mim como se da família fosse. Importante é perceber que os trabalhos em favor dos pobres nos tornam corresponsáveis e transcendem o tempo e o espaço.

Estamos precisando interpretar os sinais dos tempos, parece que ainda teremos momentos difíceis a enfrentar até as eleições de outubro para restabelecer a democracia no Brasil. Aqui, um vereador por Cuiabá (o tenente-coronel da Polícia Militar Marcos Paccola - Republicanos) matou pelas costas a tiros de pistola Alexandre Miyagawa, de 41 anos, agente de segurança do Sistema Socioeducativo no dia 1º de julho de 2022.[4] A vereadora Edna Sampaio, pelo PT, tem sido firme no Conselho de Ética da Câmara de Vereadores, mas sabe que não é seguro meter-se com as forças armadas. Mais longe daqui, o guarda municipal Marcelo Arruda, tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT) em Foz do Iguaçu (PR), foi morto na noite de sábado (9/7) durante sua festa de aniversário por um bolsonarista que invadiu o espaço e o feriu, mas quando se aproximou para os tiros de execução, a esposa do falecido atirou-se contra o invasor. Mas não teve solução: Marcelo agonizava e veio a falecer.[5] Mais um caso incentivado pela maneira como está sendo conduzido o Brasil, um incentivo ao ódio e ao uso de armas para eliminar o inimigo sem precedentes. A extrema direita fascista e inconsequente que deseja a morte dos pobres e a devastação da Amazônia, do Pantanal e do Cerrado, não aceita que possa voltar ao governo, pelas vias democráticas das urnas, pessoas de bom senso, que amem o Brasil. Muitos estão com medo, minha mãe pede para me cuidar, contudo evidente é que a violência e as agressões partem só de um lado político. O que tem matado é o ressentimento dos militares polarizados pelo bolsonarismo fanático. Não nos calarão!

E voltemos à nossa casa comum, pois o defensor público da União, Renan Vinícius Souto Maior, visitou os Warao no dia 8 de julho para conhecer melhor suas condições de vida e auxiliar a propor um lugar para que possam bem viver em Cuiabá. O aidamo Rabel Warao, Aquiles Rivero, falou que energia e água avançou muito alto: “não temos trabalho, por isso cortou. Estamos procurando outra casa, é imóvel, tem que pagar adiantado. Procuramos e não encontramos porque temos muitas crianças. Compramos cimento para concertar a casa e cal para pintar, mas dia 15 temos que sair onde estamos. Temos crianças pequenas, vamos ser jogados na rua.”

Contaram também que foram na prefeitura e ficaram na portaria, não foram atendidos porque são venezuelanos e não teria dinheiro para eles. Queriam falar da situação que vivem e perguntaram: “Não é obrigação atender as pessoas?” Ernaida Ribero Estrella concluiu: “Decidimos não viajar mais, vamos ficar aqui para termos saúde, estudar... viver. Também para ajudar nossa família que está na Venezuela, que está passando fome lá também. Não queremos voltar para a Venezuela, porque já não temos casa lá.”

A Rede de Justiça Socioambiental da Província dos Jesuítas do Brasil vem a público repudiar com veemência esta situação, causadora de tanto sofrimento aos irmãos e irmãs indígenas, povos que mais sabem cuidar da Mãe-Terra. Estarrecidos ficamos diante das manifestações de “proprietários rurais” que também os acusam de “falsos índios”, porque já usam roupa e celular. Esse texto é uma manifestação de indignação que junta a nossa voz às vozes de todos e todas que clamam por um Brasil democrático, pluriétnico e multicultural para resguardar a dignidade de todos os cidadãos, a começar pelos mais fragilizados.

 

[1] A leitura fundamentalista do Evangelho de Lucas (capítulo 22, versículo 36), precisamente a fala de Jesus Cristo para os discípulos depois da Última Ceia, “Agora, porém, o que tem bolsa tome-a, como também o alforge; e o que não tem dinheiro, venda a sua capa e compre espada”, mostra o perigo da falta de exegese e aprofundamento na leitura dos textos bíblicos, pois estamos sujeitos a usar o nome de Deus em vão. Pois Jesus também disse: “Quem lança mão da espada, pela espada perecerá” (Mateus 26, 52).

[2] https://www.brasil247.com/brasil/indios-guarani-kaiowa-denunciam-ataques-no-ms

[3] Já estava programado um encontro para pensar o cuidado da parte sul do Brasil na sua fronteira com a Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai, o que era nomeado Aquífero Guarani e Gran Chaco. Sério é o momento em que vivemos na bacia dor rio da Prata que recolhe as águas desde as cabeceiras do rio Paraguai, Paraná e Uruguai e com elas desce os agrotóxicos, o lixo que jogamos nesses veios d´água.

[4] https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2022/07/02/video-mostra-momento-em-que-vereador-de-cuiaba-atira-e-mata-agente-penitenciario.ghtml

[5] https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2022/07/10/o-que-se-sabe-sobre-o-assassinato-de-militante-petista-em-foz-do-iguacu.html

Sobre o autor

Aloir Pacini

Antropólogo, jesuíta e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em estágio pós-doutoral com pesquisa sobre o território transnacional dos Guaranis. Fez Mestrado no Museu Nacional (UFRJ) com estudos sobre as Missões com os Rikbaktsa e o Doutorado com os Chiquitanos (UFRGS). Em etnologia indígena, estuda os territórios tradicionais (águas) e suas vinculações com as identidades nas fronteiras dos Estados. Seu trabalho reflete o do cuidado da casa comum (proposta do Papa Francisco) e os papéis das instituições nas sociedades, também da Igreja no contexto de Mato Grosso e Brasil.
 

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