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Articulação da Rede Eclesial do Aquífero Guarani e Grande Chaco

Há 2 meses
Manifestantes se reuniram na Praça do Rosário, em Cuiabá
Manifestantes se reuniram na Praça do Rosário, em Cuiabá (foto por Sérgio Gouvêa/TV Centro América)

E surgiu a necessidade de constituirmos uma Rede de articulação das iniciativas no campo da Ecologia Integral do Aquífero Guarani e Grande Chaco. Como aconteceu o Sínodo da Amazônia e se articulou a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) esta iniciativa foi estimulada pelo Conselho Episcopal Latino-americano (Celam). O papa Francisco impulsiona a Igreja em saída a organizar redes eclesiais via territórios de identidade desde 2020: Red Eclesial de la Basin del Congo (REBAC), Mesoamérica (REMAM), entre outras. Maurício Lopes inspira a partir da Conferência Episcopal Amazônica (CEAMA) e propõe pontos ou nós nessa rede para manter sua eclesialidade e sinodalidade, uma construção democrática que já faz parte do processo da Igreja estar no mundo com esse viés de maior cuidado da Casa Comum.

Estamos construindo a nossa identidade em processos lentos e consequentes no Brasil e constituímos um grupo que acompanha as articulações latinas que já estão em passos largos para constituir a Rede. A partir deste coletivo, em comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), foi encaminhado que a Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração (CEEM) seria o guarda-chuva de um Grupo de Trabalho que fará a articulação institucional com o Grupo Brasil e com o Grupo de animação da América Latina. O desafio é articular em rede os 8 regionais da Conferência Episcopal, que fazem parte deste território no Brasil com identidade e territorialidades próprias dentro desse processo. Os membros desse corpo são os bispos para representar o Grupo Brasil de Articulação da Rede para o GT da CEEM da CNBB: Dom Reginaldo Andrietta (como coordenador), Dom João Aparecido Bergamasco e Dom Guilherme Werlang; os assessores do nosso Grupo Brasil de articulação da Rede para o GT da CEEM da CNBB: frei Rodrigo de Castro Amédée Péret ofm (CEEM / SINFRAJUPE, como Vice Coordenador), padre Aloir Pacini sJ (CIMI/UFMT), irmã Lucia Gianesini icf (CIMI); Isolete Wichinieski (CPT), Frei Marx Reis ofm (SEFRAS), Cláudio Di Mauro (UFU), Roberto Malvezzi (CEEM).

Assim, Moema de Miranda reverberou o meu comentário de que nós não precisamos esperar a rede perfeita para começar a pescar, porque o ideal é inimigo do real, o ótimo é inimigo do bom e precisamos compreender que o melhor é o que é possível e com isso podemos ser mais humildes no caminho. Esse é o caminho humilde da Articulação da Rede Aquífero Guarani e Grande Chaco que se propõe fazer um ato fundador ainda em novembro desse ano com a argumentação da urgência climática e a necessidade de pescar com as “redes” que temos.

Uma forma de contribuir para a sensibilização do episcopado brasileiro em relação aos impactos gerados pelos setores que causam e ampliam os conflitos sociais e ambientais acontece em Cuiabá e Mato Grosso por meio da mobilização que tivemos para evitar barragens e hidroelétricas no Rio Cuiabá e o cuidado do Pantanal que gerou uma ampliação de atuação no grupo Defesa Biomas e Rios MT.

O Formad, que reúne diversas entidades do Mato Grosso para propor alternativas de desenvolvimento sustentável e controle social das políticas públicas, fez a “Revoada em Defesa do Pantanal” em protesto contra destruição do Pantanal e lá estávamos nós.[1] Depois nos concentramos na Praça do Rosário e caminhamos até a Praça do Ipiranga no amanhecer do dia da Pátria. Percorremos as ruas de Cuiabá no Grito dos Excluídos e Excluídas[2] para pedir uma democracia participativa. Na imagem abaixo estou conversando com Carlos Abicalil que já foi senador no Mato Grosso pelo PT e é grande defensor dos indígenas e causas sociais e ambientais.

A superação do antropocentrismo nos leva a experiências pessoais místicas impressionantes, resultados das construções socioculturais únicas, pois nessa perspectiva ameríndia o mundo não está aí para servir o ser humano, mas esse deve usar sua ciência e razão para louvar, reverenciar e servir a Deus Criador, Salvador e Santificador da humanidade. As diversas descentralizações vivenciadas no passado e intensamente arrebatadoras nas tecnologias digitais globalizantes mostram as conexões virtuais como nós ou pequenos centros vitais, como pontos culturais e socioambientais de uma grande Rede da vida na mãe-terra que é urgente cuidarmos para que se perpetue.

Cada ponto desses como o Aquífero Guarani tem identidade e tem suas referências sócio-históricas, mas desde sempre estão conectados com o todo da criação e o Criador. Ao observar isso com maior intensidade nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, ganham relevância os pontos culturais e ecologicamente próximos de nós para que passamos cuidar com mais urgência como o Pantanal, o Cerrado, o Pampa ou o Rio Cuiabá e/ou o Paraguai, mas também pode ser a fonte de água que está aqui no Bairro Lixeira (Cuiabá-MT), porque está dentro da nossas culturas ou famílias ampliadas, porque esses pontos culturais nos ligam nessa rede pelas comunidades sociais humanizadas.

Por exemplo: uma rede solidária foi criada para encontrar uma vida digna para os Warao por aqui, mesmo que não considerados cidadãos brasileiros, por enquanto. A conversão integral é demorada e agora está exigindo uma dinâmica sinodal. Por isso, fizemos uma grande festa para Nossa Senhora de Coromoto no dia 11/09 (também dia de proteção do Cerrado, o segundo maior bioma no Brasil e o mais ameaçado), a fim de aglutinar os Warao em Cuiabá e cerca de 200 almoços foram servidos em meio a apresentações culturais típicas na comunidade eclesial de Santa Ana (Bairro Cangica).

Graças a Deus estamos saindo do caos em que nos metemos no Brasil por causa do golpe contra o governo legitimamente eleito e o posterior uso do sistema jurídico para perseguir o Movimento Sem Terra ou o Partido dos Trabalhadores.[3] Usar de discursos de ódio e fakenews para desqualificar quem poderia vencer as eleições levou o Brasil a uma sinuca de bico, porque a muito custo estamos conseguindo ter a paciência histórica de voltar para as urnas sem revidar com violência e despejar no esgoto esse mundo perverso que tomou conta da maioria das instâncias dos governos por aqui.

Aparelhar as instituições do Estado e implantar os fascismos via voto surgiu como estratégia de corrupção mais profunda nas democracias atuais. Usar da religiosidade para sustentar esse tipo de perversidade é a mesma retórica perigosa que desejava eliminar o próprio Jesus Cristo (o outro) que falava do amor até aos inimigos, este é o grande problema que experimentamos. E São Paulo já dizia com precisão que a Lei mata e é necessário fazer novamente o Espírito vivificar (2Cor 3,6; 1Cor 15,45; Gl 3,10). Não ter vergonha de virar o voto da arma que mata (∟) para o L da Liberdade, da Esperança e da Paz é a sabedoria de quem se move no Espírito Santo.

O papa Francisco está chamando toda a Igreja para uma dinâmica de rede que não deve reforçar o institucional, mas os encontros e as relações humanas. Isso faz repensar não só a gestão eclesial, porque mais importante é centrar nossas energias e ações em criar comunhão na convicção de que sem o misterioso entrelaçamento relacional que molda em cada um de nós cheguemos à possibilidade de viver o Amor e o serviço gratuito. Essas experiências eclesiais marcam radicalmente nossas vidas que se tornam cheias de sentido, pois isso constitui a própria Igreja corpo místico de Cristo para a salvação de todos e todas.

 

[1] https://formad.org.br/arquivos/2474

[2] A 28ª edição do “Grito dos Excluídos e Excluídas: Vida em Primeiro Lugar” reuniu, no dia 7 de Setembro, cerca de 200 manifestantes com tema “Brasil - 200 anos de (In)dependência para quem?”

[3] A guerra jurídica (lawfare) usa da lei (law) como instrumento de guerra e destruição do outro (warfare), ou seja, não se respeita os procedimentos legais e os direitos da pessoa que se pretende eliminar, algo planejado de forma a ter uma aparência de legalidade, com a ajuda da mídia golpista.

Sobre o autor

Aloir Pacini

Antropólogo, jesuíta e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em estágio pós-doutoral com pesquisa sobre o território transnacional dos Guaranis. Fez Mestrado no Museu Nacional (UFRJ) com estudos sobre as Missões com os Rikbaktsa e o Doutorado com os Chiquitanos (UFRGS). Em etnologia indígena, estuda os territórios tradicionais (águas) e suas vinculações com as identidades nas fronteiras dos Estados. Seu trabalho reflete o do cuidado da casa comum (proposta do Papa Francisco) e os papéis das instituições nas sociedades, também da Igreja no contexto de Mato Grosso e Brasil.
 

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