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O naufrágio da Concórdia

Há 3 meses
O naufrágio da Concórdia
(foto por Pixabay)

Para uma tragédia consumar-se, é necessário que o impensável aconteça. Era uma noite de céu estrelado, última etapa de um cruzeiro que já tinha passado por Marselha, Barcelona, Palma de Maiorca, Sardenha e Sicília. Algumas pérolas do Mediterrâneo tinham sido descobertas em um clima irreal que somente os cruzeiros podem garantir: suspensos no mar, os hotéis flutuantes garantem exclusividade e a impossibilidade dos encontros genuínos, que ocorrem quando a viagem não possui roteiros pré-estabelecidos e as solas dos sapatos desconhecem as calçadas. A embarcação navegava em direção da Ligúria, destino final dos felizes passageiros e o comandante preparava mais uma surpresa, que deveria ser a última, mas não a fatal. Em vez de passar perto da Ilha do Giglio, que é um lírio no nome e um verdadeiro primor na realidade, o comandante resolveu passar bem perto da ilha, para que os seletos viajantes vissem as ruas pequeninas iluminadas e pudessem ter a sensação de ver pirilampos na noite escura. Passou tão perto, com uma manobra tão audaciosa, que o navio bateu nos recifes e foi literalmente trespassado, como se uma peixeira tivesse arrancado as tripas de um vivente. O monstro de metal e tecnologia gemeu, inclinou-se e lentamente naufragou.

O comandante da embarcação foi manchete dos jornais por um longo período, pois em vez de ser o último a desembarcar, como exige a honra e o direito marítimo, ele pegou um bote, deixando os passageiros aos cuidados dos demais membros da tripulação e dos socorredores que foram chamados pela capitania dos portos da região. Trinta e duas pessoas morreram. Foi a maior tragédia marítima da Itália neste século. Os trabalhos de retirada do navio das águas puras da reserva natural onde se encontra a Ilha do Giglio duraram meses e milhares de euros.

Esse foi o fim de uma ilusão flutuante, a desmoralização do comandante, a tragédia das vidas perdidas por imperícia e prepotência, o desastre ecológico. Corria o ano de 2012, dia 13 de janeiro.

A cerca de cinco mil milhas de distância, uma população, talvez ainda eufórica pela entrada de um ano promissor e entusiasmada com as perspectivas econômicas geradas pela descoberta do pré-sal, testemunhava a assinatura da lei que, pela primeira vez na história do Brasil, estabelecia um investimento mínimo de doze por cento na saúde pública. Nunca a vida dos brasileiros tinha recebido tamanha atenção, nunca a saúde da população tinha arrecadado tamanho aporte.

O Brasil impressionava o mundo com uma série contínua de bons resultados econômicos e sociais. Ainda não sabíamos que sairíamos do funesto mapa da fome em pouco tempo. Era verão, a estação dos pensamentos leves, da alegria, dos últimos preparativos para o Carnaval. Nós também não podíamos imaginar a tragédia que aconteceria em pouco tempo. Com essa medida, entre outras, consumava-se lentamente o naufrágio da nossa concórdia.

Hoje os dados da saúde são claros: o governo Temer aprovou o teto de gastos, congelou os investimentos, o Ministério da Saúde é alvo de uma CPI e superamos a trágica soma de quinhentos e sessenta mil mortos durante a pandemia de covid. Temos mais de cem mil órfãos. Empresas quebram, trabalhadores caem na informalidade, sem qualquer tipo de proteção. A discórdia é explícita, como também o desamor, com manifestações de rua que pedem o direito a ruas arborizadas, limpas e livres de qualquer pobre que possa transitar por elas. Nosso capitão está todos os dias nas manchetes dos jornais.

A lição do navio Concórdia, entretanto, é clara: a justiça, mais cedo ou mais tarde, faz o seu papel. As reservas naturais são recuperadas, apesar dos custos. O resgate dos destroços e da própria ética emprega tempo, mas não é impossível. É o momento do drama, no qual só podemos chorar as mortes das vítimas e trabalhar para que não se repitam mais. É a hora de colocar a conta da morte na história, para que a lição de todas as concórdias naufragadas sejam um alerta para as próximas gerações.

Sobre o autor

Gislaine Marins

É doutora em Letras, professora, tradutora e mãe.