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O partido dos ausentes

Há 21 dias
O ausente, o tanto faz tanto fez, não percebe que a sua é uma não-vida
O ausente, o tanto faz tanto fez, não percebe que a sua é uma não-vida (foto por Luís Henrique Marques)

Eles venceram de novo. A cada eleição, o número de eleitores ausentes aumenta mais. São os grandes vitoriosos com a sua pauta niilista, segundo a qual nada pode mudar, ninguém presta e não há motivo que valha a pena uma escolha. O tema não é novo: como sabemos, os ausentes também foram os grandes vencedores da nossa eleição, em 2018. Também para a maioria dos brasileiros tanto faz como tanto fez, um vale o outro, pior do que está não pode ficar, etc. Etcétera: a palavra significa e outras coisas, mas neste caso as coisas são vazias, esvaziadas de sentido e de relevância para quem as pratica.

Os ausentes sempre estiveram entre nós, não deveríamos ficar maravilhados que hoje não queiram votar. Eles já praticam a sua política na vida: é o aluno na última classe, que boceja enquanto o professor ensina e não vê nenhum sentido em descobrir a conexão de saberes. O ausente é o vizinho que nunca vai às reuniões do condomínio para não perder tempo com bobagens. O ausente não vai ao cinema para não gastar dinheiro e não compra livros porque não tem tempo. O ausente procura a melhor oferta no supermercado, não por falta de dinheiro, mas por falta de critério. Ele não vê a diferença entre um alimento orgânico e um alimento industrializado, o importante é encher a barriga. O ausente trabalha para fechar as contas no fim do mês, não interessa o que faz, o importante é bater o ponto e não ter desconto na folha. O ausente ignora conceitos políticos: pelo contrário, orgulha-se de ser apartídico e odeia quem tem ideias políticas. O ausente não gosta de discutir futebol. Provavelmente não bebe e não fuma e, quem sabe, acha mais fácil obedecer a uma ordem do que tomar uma decisão. Para o ausente, não importa o que Bolsonaro faz ou desfaz: o ausente está vivo e é isso que importa, ainda que vegete sem estar com a saúde gravemente comprometida. O ausente nem percebe que a sua é uma não-vida, uma experiência perdida, uma alegria esquecida, uma dor não sentida, um percurso ignorado. Leva adiante, empurra com a barriga, fataliza-se antes mesmo que a morte anuncie a sua hora inexorável. É triste passar os dias assim.

É triste ser derrotado por essa multidão silenciosa e indiferente, incapaz de ver que uma escolha, certa ou errada, é melhor que do não escolher. É mais fácil discutir com um adversário e ganhar uma partida contra um time rival do que combater inimigos invisíveis e receber medalhas porque a equipe em competição retirou-se do campeonato. Que vida é essa, afinal, em que se decide ganhar por inércia? Em que a derrota se torna, paradoxalmente, a vitória dos indiferentes? E por que, meu Deus, eu me pergunto, por que algumas pessoas insistem em respirar a plenos pulmões, tropeçar, cair, levantar-se, estender a mão a quem foi esquecido e ignorado? Como se chama essa força que errando e acertando nos faz ter uma fome inesgotável de pessoas e de vida? Por que os ausentes desistem a cada passo, quando poderiam apenas olhar para trás e ver as suas próprias pegadas, os efeitos dos seus atos? Como podem desprezar as consequências daquilo que não fazem?

Os ausentes venceram de novo, mas não festejam. Também não lamentam. Estão entre nós como se a questão não lhes dissesse respeito, como se cada dia fosse uma casualidade sem relação com o que já passou e com aquilo que virá. Anestesiados, passam por nós como pessoas inofensivas, incapazes de qualquer gesto que chame a nossa atenção. Abalam a convivência com o seu desprendimento absoluto. Praticam o desapego de forma extremada: estão desconectados dessa aventura incrível e única que é viver, com virtudes e pecados, com arrependimentos e perdão, com novas oportunidades, com tudo, enfim, que a vida oferece.

Talvez os ausentes achem que nada tem jeito, nem eles mesmos. Eles podem achar isso, mas nós não temos esse direito. Escrevi tudo isso, sobre situações nas quais nós mesmos nos sentimos às vezes, porque não há quem não se ausente de vez em quando no mundo. Todos já estivemos ausentes em algum momento da vida. O importante é lembrar a tempo que estamos aqui e agora para viver a vida: acordar, caminhar e transformar aquilo que desejamos. Não sejamos ausentes no nosso julgamento, acreditando que as pessoas não têm jeito. Todos têm. Os ausentes venceram mais uma eleição, ignorando que o voto é um importante momento para reforçar a democracia e para escolher programas (sempre imperfeitos, mas programas). Mas uma vitória, e nem mesmo todas as vitórias que tiveram nos últimos anos, enfraquecendo os nossos sistemas de representação, podem ser o resultado final. Não são e nunca serão enquanto houver quem acredite no contrário e, sobretudo, acredite nas pessoas, insistindo para que os ausentes recobrem a esperança e a força para viver plenamente.

Sobre o autor

Gislaine Marins

É doutora em Letras, professora, tradutora e mãe.