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Por que não, Bartleby?

Há 1 mes
Capa do livro de Herman Melville: há obras que existem para nos interrogar
Capa do livro de Herman Melville: há obras que existem para nos interrogar (foto por Google Imagens)

Em 1853, Herman Melville publicou a novela "Bartleby, o escrevente". Uma das frases mais célebres da narrativa é a resposta pronta do amanuense a qualquer solicitação feita pelo seu chefe: "Prefiro dizer não". Primeiro, Bartleby nega-se a fazer tarefas que não sejam de sua responsabilidade. À medida que passa o tempo, o escrevente rejeita qualquer atividade, acabando por ser demitido. A narrativa cresce em termos de tensão quando Bartleby prefere não abandonar o escritório onde trabalha, levando o patrão ao desespero. Assim, o escritório decide mudar de sede, deixando o escrevente na sua escrivaninha. Os novos inquilinos tentam em vão retirá-lo do local, sendo enfim levado pela polícia. Bartleby acaba preso e enfim morre.

Uma das possíveis leituras da novela está claramente relacionada às suas impassíveis respostas diante de qualquer pedido. Há uma outra, porém, especular e tão importante quanto a primeira: são as perguntas que ficam sem uma resposta plausível, que o leitor deve responder. Por que Bartleby transforma a sua vida em uma obstinada oposição? O que as suas negativas representam para quem as ouve? O que significa a sua presença com o objetivo de rejeitar qualquer proposta que lhe fosse feita?

Bartleby é uma personagem extremamente atual. Encarna uma galeria de invisíveis que interrogam a nossa consciência. Por que os pobres insistem em estar entre nós? E por que não nos interrogamos acerca da nossa impotência e da nossa indiferença em relação às possíveis soluções para a pobreza estrutural que destrói a nossa sociedade? Bartleby expõe as suas feridas e a sua fragilidade agiganta-se diante da nossa covardia. Para fugir à presença de cada Bartleby da vida real, preferimos erguer muros mais altos nos condomínios, frequentar restaurantes mais exclusivos, tornar inacessíveis as viagens aéreas e deixar que a polícia carregue os excluídos como um peso morto, como se existir fosse um crime e passar fome fosse uma provocação.

Bartleby também desafia a autoridade. Como os trabalhadores que não aceitam a exploração, como os camponeses que rejeitam o tratamento de boia-fria, como as domésticas que se rebelam à humilhação, Bartleby gradualmente afirma a sua existência recusando-se a agir. É poderosamente inerme, evidenciando a prepotência da autoridade.

Em 1931, na Itália, doze professores em um universo de mil, duzentos e cinquenta docentes universitários recusaram-se a prestar juramento ao fascismo. Foram apenas doze. A eles foi dedicado um livro de Giorgio Boatti, cujo título em português poderia ser: “Prefiro dizer não”. A Itália ainda não tinha entrado na guerra: esses professores foram capazes de ver e prever o horror do cenário de perseguições raciais e ideológicas que a Itália iria sofrer até o fim da Segunda Guerra Mundial. Eles preferiram dizer não.

Este ano aconteceu o inimaginável. O presidente do Brasil acaba de ser condecorado como cidadão honorário da cidade italiana onde os seus antepassados nasceram. Enquanto o mundo espanta-se com os índices de mortalidade e com a fome que voltou a assombrar o nosso país, a pequena comunidade apressa-se a ganhar notoriedade com um título no mínimo discutível, para não dizer inadmissível. Certas condecorações são reservadas a pessoas acima das diferenças de opinião. Naturalmente não foi esta a inclinação da Câmara de Vereadores que, por maioria, decidiu conceder a cidadania ao presidente.

No entanto, também na circunstância atual havia uma minoria. Uma minoria que preferiu dizer não. Seria importante interrogar-se: por que disseram não? O que querem nos dizer com isso? Por que a imagem de Bartleby insinua-se entre nós de maneira heroica? Por que já nem lembramos o nome do chefe do escrevente? Por que não nos interessam os mais de mil e duzentos professores que aderiram ao fascismo? Por que a maioria da Câmara de vereadores da pequena cidade vêneta disse sim?

Há livros que existem para responder e outros que existem para nos interrogar.

Sobre o autor

Gislaine Marins

É doutora em Letras, professora, tradutora e mãe.