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Como soía

Há 18 dias
"Machado de Assis, inventor das obsessões médicas e políticas já sabia tudo com as suas velhas palavras e sua observação atenta dos maus costumes da nossa sociedade."
"Machado de Assis, inventor das obsessões médicas e políticas já sabia tudo com as suas velhas palavras e sua observação atenta dos maus costumes da nossa sociedade." (foto por Wikipedia)

Saudade da rotina. O costume que nos transmite segurança, trilhas, pegadas, rastros: e um horizonte visível a alcançar. Uma esperança razoável, que nos tire da beira do abismo, onde os absurdos cotidianos nos afundam. Nosso hábito hoje é acostumar-se a sofrer: aceitar um sofrimento maior a cada dia, resignar-se e dizer que poderia ser pior.

Tomamos gotas diárias de naturalização daquilo que é inaceitável e aceitamos sem protestar a nossa prostração e a nossa impotência diante dos abusos e das violações. Para desumanizar-se é preciso persistência. É necessário reiterar na indiferença. Ignorar com constância. Tornar-se alheio sistematicamente. Fechar os olhos aos outros e fingir que a própria dor não nos pertence. Tudo é passageiro. Amanhã pode ser melhor.

Equiparar na balança o pior e o melhor, como se nada mais importasse. Como se não fosse enorme a diferença entre viver e adoecer, esbanjar e morrer de fome. Como se não houvesse diferença entre estar na moda e morrer de frio. Esse é um dos caminhos certos para entrar no labirinto das palavras vazias e jogar fora as chaves do seu sentido.

Mania quase incurável essa que tenho de achar que somos aquilo que falamos: a nossa língua, o nosso vocabulário, o universo das palavras que formam aquilo que pensamos, fazemos e sonhamos. Insistência que me agarra à vida e delimita as minhas fronteiras: meus pés me levam até onde alcançam o meu pensamento. O meu costume é não me contentar com aquilo que sei e não aceitar as palavras que perdemos. Palavra morta é lição perdida.

Há dias os versos de Camões (ou talvez não) martelam na minha mente: "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Todo o poema fala de transformações, enquanto hoje, a quinhentos anos de distância, tememos as mudanças climáticas e as suas funestas consequências para a nossa sobrevivência. A última estrofe do soneto, porém, é a que mais me impressiona, pois o sujeito lírico escreve:

"E, afora este mudar-se cada dia,

outra mudança faz de mor espanto,

que não se muda já como soía."

Soía: mudamos tanto que talvez não lamentemos e nem percebamos a perda das velhas palavras. No lugar de "soía" temos o verbo mais comum "costumava". Em vez de costumar, aceitamos o simples advérbio "geralmente" e o assunto está resolvido. Virou costume aceitar governantes que fazem declarações mentirosas, ministros que usam o silêncio como armas de defesa, diplomatas que atentam contra a lógica do texto para exibir citações sem sentido. Se fazem isso os que devem zelar pela lei e pela ordem, o que se dirá de quem não possui meios para salvaguardar nem a própria dignidade física? Como dizer às pessoas que buscam um emprego que elas foram enganadas por discursos? Que foram palavras, acusações e sentenças que destruíram a economia do nosso país, arruinaram as suas indústrias e aumentaram o desemprego?

Acostumam-nos ao engano, ao equívoco, ao erro, ao deslize, à vacilação, ao tropeço, ao escorregão, à asneira, ao lapso, à gafe. Essa é a falsa mudança à qual nos resignamos com a paciência de um rebanho de cordeiros, que pasta onde manda o cachorro do dono. Temos pressa para desculpar as maldades e justificar o que ofende. O autoengano é uma forma de suportar o horror. E sonhamos dias melhores. Contamos os carneirinhos.

Falta-me o costume dos catálogos bibliográficos, das partituras musicais, das fórmulas matemáticas e da precisão poética e penetrante dos escritores. Sinto a ausência daqueles que garimpam as palavras e pesam as interjeições nas frases. Sinto o enjoo das banalizações e da redução a pitoresco daquilo que é único. Canso da associação de ideias sem eira nem beira, que não se chama livre pensar, mas delírio verborrágico. Estamos doentes de palavras ofensivas, carentes de gentileza, hipnotizados pela ausência de sentido. As musas mofam nos livros. Os palavrões assaltam as ruas. As mentiras atacam o poder. Machado de Assis, inventor das obsessões médicas e políticas já sabia tudo com as suas velhas palavras e sua observação atenta dos maus costumes da nossa sociedade. Como soía, estamos às voltas com Brás Cubas e Bacamarte. É muita amnésia. Muita falta de leitura. Pouca interpretação. E uma determinação férrea de governantes e elites econômicas para que nada mude, como se fossem capazes de ironizar Camões.

Sobre o autor

Gislaine Marins

É doutora em Letras, professora, tradutora e mãe.