Para que serve a literatura no Natal?
Mais um ano se vai, mais uma montanha de perguntas adiamos para o ano que vem. Qual é o sentido de uma cafeteira? Para que direção sopram os ventos quando as baleias cantam? Por que destruímos conchas do mar para fazer roupas vermelhas? O que seria do amarelo, se? Como interpretar o silêncio sem fazer rumor? Como descrever o breu sem usar a luz? Para onde vão as moedinhas que jogamos na Fontana di Trevi? Afinal, para que serve a literatura?
O Natal, assim como a literatura, as cafeteiras e a mania de fazer perguntas são experiências culturais, ou seja, adquirem sentido para nós, humanos, dentro de um contexto. Por isso, também são históricas, sociais, filosóficas, estéticas, morais, sociais e políticas. Estamos imersos em um mundo multidimensional, que multiplica perguntas e respostas a cada interrogativo. Isso deveria ser bom, se gostássemos de contemplar e compreender a complexidade do mundo. Seria ótimo, se não aproveitássemos qualquer festividade para esvaziá-la de densidade, reduzindo-a a frases feitas e a objetos-símbolo do nosso status e da nossa identificação com as coisas que nos reificam.
Natal é um daqueles períodos em que a gente gosta de mostrar cultura de ostentação e dar livros para enfeitar as prateleiras de casa. Sei que é assim, porque se fosse sincero, o livro seria um presente que a pessoa entregaria com um ar de gravidade e culpa, dizendo coisas como “imagino que você já se atormentou o ano todo e não era minha intenção piorar as coisas, mas dá para viver sem saber em que abismo nos enfiamos?”. Ao contrário, quando as pessoas dão um livro de presente, costumam dizer: “ouvi falar que este escritor é ótimo”. Que absurdo: alguém acha que literatura é algo que serve para distrair e espairecer?
Literatura, literatura mesmo, serve para a gente levar um choque de realidade, para a gente sofrer, chorar, sentir a injustiça do mundo, sair do torpor e da indiferença. É um mergulho na pólis, na nossa dimensão política, como cidadãos que participam da vida social e têm lado. Então não acusem a literatura de ser engajada ou política, não poderia ser literatura se não revelasse as várias facetas do universo que representa ou no qual foi produzida. Literatura é social e moral (não moralista). Literatura não é manual de coach e não ensina as pessoas a culparem os pobres pela sua miséria.
Este ano eu vi gente dizendo que dar comida para os pobres deve ser crime. Eu vi panfletos convidando as pessoas a não se aproximarem de moradores nas ruas e de chamarem a polícia. Devem ser pessoas que nunca tiveram a oportunidade de desesperar-se lendo Victor Hugo ou Carolina Maria de Jesus. Nem seriam capazes de entender a diferença entre ser vítima e não ter “méritos”. Constroem aquários em pratos rasos. E certamente desejam a todos um feliz Natal do patamar da sua superficialidade.
Para que serve a literatura no Natal? Serve a pouco, pois deveria servir sempre. Precisaríamos de um Natal diário para deixar as pessoas repletas de palavras e tarefas a serem colocadas em prática. Infelizmente, não é assim. Muita gente aproveita as festas para reiterar a sua hipocrisia e para fechar-se ainda mais nas suas bolhas, esquecidas da cultura da barbárie que criam, sem laços sinceros, sem solidariedade, sem compreensão daquilo que ocorre no mundo, sem empatia, sem aquela humanidade tão necessária que nos fez uns para os outros, mas que nos perde ao longo do caminho. Enquanto isso, poderíamos tropeçar e cair num abraço, mas com frequência caímos simplesmente no nosso egoísmo.
Gislaine Marins
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