Por um punhado de euros
Gislaine Marins
Esta é uma história para quem curte os velhos filmes de faroeste: lembram de “Por um punhado de dólares”? Hoje a história é mais ou menos a mesma, mas os protagonistas são outros.
Vamos supor: um entregador de aplicativo. O cenário: uma estrada asfaltada, ardendo sob o sol de um dos verões mais quentes deste século na Europa. A cena: o mormaço criando camadas de umidade é ocupado por uma figura esguia de bicicleta, cuja imagem se refrata e sugere a ideia de que estamos tendo uma visão. Mas é tudo real: o entregador está levando mais um pedido, que precisa chegar ao destino o mais rápido possível. Não importa que os termômetros marquem quarenta graus, que o asfalto registre quase setenta, que a sensação térmica seja de cinquenta, que a pressão arterial do entregador esteja muito baixa ou muito alta, que ele esteja correndo o risco de sofrer um colapso por insolação ou por desidratação, ou por ambas as coisas. Nem importa que uma determinação regional proíba que trabalhos expostos ao sol sejam realizados nos horários mais quentes do dia:
Por um punhado de euros, o entregador desafia a lei e acredita que pode levar a melhor economicamente, aceitando a atrativa proposta de um valor extra para realizar entregas nos horários em que arrisca a própria pele. Por um punhado de euros, o entregador, tomado pela febre do dinheiro fácil (apenas dez ou quinze minutos de pedalada), sente nas veias o chamamento do empreendedor de si mesmo que ele sempre sonhou ser.
A hora é boa: o contrato é flexível, a lei não é controlada, a ambição é grande. O entregador acelera a pedalada pensando no punhado de euros que irá ganhar ao final do dia. Corre de um lado para o outro da cidade: “apenas dez ou quinze minutos de pedalada”, pensa, e corre mais ainda, ignorando que nos últimos dias uma criança morreu por causa do sol, adultos morreram por causa do sol, trabalhadores morreram por causa do sol, idosos morreram por causa do sol. Ele não sabe nada disso, mas sabe que pode ganhar um punhado de euros a mais no final do dia: a escolha é simples, o risco é seu. E ele quer: quer crescer, enriquecer, pouco investimento (somente uma bicicleta) e a promessa de um punhado de euros. O seu empregador ganhará mais e ele fará parte desta história de lucro.
É pena que o entregador não perceba que aquilo que ele chama de lucro, o empregador chama de custo. Lucro, na verdade, é aquilo que sobra quando o custo, a pedalada, o entregador, a encomenda são retirados do bolo e o que sobra – sem esforço algum – é colocado no bolso de quem teve a ideia empreendedora. O entregador, que não é o dono da ideia e do negócio, é um custo. E o empregador, que quer abater os custos, não pensará duas vezes antes de substituir o entregador prudente pelo entregador ambicioso, capaz de desafiar o sol, o asfalto, a lei e a vida.
Na realidade, alguns entregadores já entenderam isso. E, justamente por entenderem, desenvolvem o medo, mais do que a ambição: por um punhado de euros, preferem aceitar o risco e não perder a única chance de terem uma renda.
Realmente, essa é uma história um pouco diferente, não somente por datas, cenários e personagens. É diferente porque o papel principal cabe a alguém dominado pelo medo e pela ignorância. Se soubesse que não é um empreendedor de si mesmo, se soubesse que além do medo existe a vida: se, se, se.
Por um punhado de euros é uma história triste que se repete com trabalhadores cada vez mais precários em uma sociedade cada vez mais ávida e indiferente. Há outros personagens na história, além do empreendedor – rival e falso parceiro do entregador. Pode ser qualquer um de nós que está lendo esta história neste momento e que por sorte não está usando um aplicativo neste instante. Talvez se transforme em um personagem que não vai entrar nesta história – espero! –, pois irá ler a última frase, vai fechar o documento, colocar o telefone no bolso e entrar em um barzinho, para comer no próprio local o que quiser. Mas sabe-se lá quantos outros, no mesmo instante, ignorando o sol, a chuva, as enxurradas, as enchentes e todas as calamidades que já lemos nos últimos meses, irão abrir o seu aplicativo obstinadamente, encomendar a sua comida e, quem sabe, irão reclamar do atraso ou do estado da entrega. Sim, esta história, para o quadro da tragédia ser completo, não poderá abdicar do indiferente-padrão.
É assim. Mas pode ser diferente: depende de muitos fatores, inclusive do nosso comportamento. O comportamento vai mudar tudo? Não vai, não, senhores. Mas é um começo. E toda história, para chegar ao fim, bom ou ruim que seja, em algum ponto precisa iniciar. Eu, modestamente, começaria pelo barzinho, com uma boa conversa, com amigos, à sombra e, quem sabe, ao pôr-do-sol. Afinal, um punhado de euros podem ser ganhos – honestamente – de muitas formas, não necessariamente arriscando a pele.
Gislaine Marins
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