Às mil maravilhas
Uma dezena de influenciadores viram que em Gaza as coisas vão às mil maravilhas. É verdade. Só que não é. E a culpa não é de quem peca de ignorância, a culpa é de quem não assume a responsabilidade pelo saber e por partilhar o conhecimento. A culpa está na crise de confiança na ciência e na nossa ineficácia em combater as mistificações culturais por meio da linguagem científica, porque esta não é infalível, é a que oferece respostas mais prováveis no horizonte do conhecimento ao nosso dispor.
Talvez tenhamos enfatizado demais que a ciência não é infalível, abdicando de insistir que é a forma mais confiável de conhecimento, porque baseada em testagem de hipóteses e no controle dos resultados. Ser rigorosamente científico dá um trabalhão, porque não basta limitar-se às amostras ao nosso dispor: é preciso supor e buscar provas do contrário daquilo que estamos tentando demonstrar. Ou seja, um cientista está sempre colocando em dúvida aquilo que descobre, para não cair naquelas duas certezas imbatíveis daqueles que confiam cegamente naquilo que “sempre foi assim” ou daqueles que se entregam à teoria de que “em time que está ganhando não se mexe”.
A realidade é que o time dos ignorantões não só está ganhando, mas está dando um baile, uma espécie de 7 x 0 em quem meticulosa e metodicamente tenta todos os dias explicar por que o mundo está tão sufocante. Aceitamos entrar no jogo, igualando influenciadores a jornalistas, desregulamentando as profissões – como a carreira dos professores, que acaba sendo rebaixada por pessoas que usam de forma inadequada o conceito de “notório saber”. Vamos deixando a boiada passar e atropelar a sociedade inteira.
Sejamos sinceros: a cultura popular está repleta de sugestões que permanecem válidas porque o uso e o costume confirmam a sua aplicabilidade. Colocamos em prática modos de agir e de relacionar-se sem pedir licença e sem pedir desculpas como se arrastados por inércia. Não paramos por aí. O que é moda não incomoda e, assim, atuamos como se o que é consensual fosse um salva-conduto, a garantir a legitimação e a desconsiderar outras formas de justificação dos nossos atos.
A visita dos influenciadores na Faixa de Gaza é uma dessas aberrações culturalmente aceitas porque realizadas, vivenciadas, exibidas, virilizadas, colocando em curto-circuito o princípio de causa e efeito, de demonstração dos fatos e, em última instância, de respeito pela inteligência de quem consome os produtos veiculados nas redes sociais. Se posso exibir pratos de comida, isso significa que a comida existe. Se não vejo filas para consumir as refeições é porque elas não existem. Se não testemunho a morte de um civil é porque não ocorreu. E se isso tudo é verdade na experiência individual dos influenciadores, isso não significa que o contrário não seja real.
O problema é que para admitir o contrário, as pessoas deveriam passar no exame de filosofia e não arquivar o conhecimento numa caixinha abandonada nos bancos de escola. Para entender que a realidade vai muito além da nossa percepção visível, teríamos de retornar às lições dos mestres que abalaram a nossa crença naquilo que os nossos olhos veem.
Todo filósofo sabe que existe porque o mundo está sempre em crise e a sociedade não pode prescindir de quem reflita sobre isso. O nosso tempo não é diferente, mas não deixa de ser desolador que o século XX tenha ampliado tanto as possibilidades de acesso ao conhecimento e tenha obtido tanta difusão de ignorância. Cometemos um erro abissal: permitir que as pessoas pensassem que alcançar o conhecimento fosse simples, fácil e barato: como um clique nas redes sociais.
Passamos da presunção de inocência (que lembra a qualquer pessoa inserida em uma sociedade a impossibilidade de defender-se afirmando desconhecer as regras da convivência social) para a presunção de ignorância (que desculpa qualquer um com a simples declaração de que não sabia ou não poderia saber o que se passava além do seu horizonte de vivências). Mergulhamos, dessa forma, na ilusão de conhecer muito porque pensamos que o potencial acesso simples, fácil e barato ao conhecimento é suficiente para conhecer de fato o que se passa no mundo.
A visita dos influenciadores em Gaza não mostra apenas o que eles viram, não questiona apenas sobre o que eles não viram. Esta visita questiona quem tomou conhecimento da sua existência e o posicionamento que queremos assumir: conceder a eles a presunção de inocência ou a presunção de ignorância? Negar ambas? E nós, onde nos colocamos diante das narrativas cotidianas? Onde estamos diante das guerras? Onde ficamos na busca da paz? Onde estamos na fila da fome que não nos atinge? De qual arquibancada erguemos as nossas bandeiras? Quais bandeiras colocamos em campo? Quanta hipocrisia engolimos sem pestanejar? Quanta hipocrisia produzimos sem nos envergonhar? Quantas perguntas podemos fazer ainda? Quantas respostas esquecemos de tentar oferecer? Enquanto isso, para muitos, tudo segue às mil maravilhas.
Gislaine Marins
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