O processo e as pessoas
Aos quinze anos fiz a minha inscrição em um curso de programação basic. Meu pai foi contra. Para ele, eu estava contribuindo ativamente para o desemprego de massa que os computadores iriam causar. Meu pai tinha razão.
Aos trinta e cinco anos estava voltando para casa ao final do trabalho com uma colega na carona da minha lambreta. Entre um cruzamento e outro, edifícios de diferentes estilos pela cidade de Roma, os bondes e as estações do metrô, eu disse: “A luta pelo contrato digno de trabalho vai ser a última batalha da nossa geração”. Eu estava certa.
Aos cinquenta e cinco anos venho a saber da demissão de um amigo. Não é o único: paira sobre as nossas cabeças a sombra do desemprego, aquele do qual falava meu pai há quarenta anos. As datilógrafas acabaram, os digitadores acabaram, os revisores acabaram, os bancários quase acabaram, os tradutores estão desaparecendo, as secretárias estão sumindo. Na Europa, estão cortando os orçamentos de saúde e educação, enquanto aumentam os gastos militares. Quem, no futuro, desejará ser professor com salário irrisório, se os fundos públicos e as garantias estão nas forças armadas?
Eu não queria falar disso, afinal ainda estamos em clima de Natal e de renovadas promessas de futuro, mas o horizonte é sombrio. Que desenvolvimento é esse que afina processos e descarta pessoas? A reestruturação das empresas e da sociedade deveria passar por melhores processos para assegurar a ocupação das pessoas.
Não importa a profissão, importa a dignidade do trabalho. Importa sentir-se parte da construção de um mundo no qual os direitos fundamentais do homem são prioridade na lista de soluções para os problemas das nossas sociedades. Importa que a vida de um soldado seja mais preciosa do que o custo de um drone. Importa que um professor seja mais necessário do que um aplicativo. Importa que abraços sejam mais significativos do que um meme. Importa que a vida seja vida e que os processos sejam realizados para favorecer as pessoas, e não o contrário.
Pensando bem, eu sou otimista, pois acredito que aos setenta e cinco anos ainda estarei reclamando dos equívocos da inteligência artificial, estarei me queixando que as pessoas não são valorizadas, estarei afirmando que precisamos melhorar. Pior seria se eu achasse que daqui a vinte anos já não haverá motivo de reclamação, pois as piores previsões terão se concretizado e nós teremos perdido definitivamente a melhor batalha do mundo: pela vida, pela fraternidade, pela amizade social, pelo futuro.
Gislaine Marins
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