Joaninha do pé torto
Gislaine Marins
Ano novo, promessas novas. Eu juro, eu quero, eu vou conseguir: hei de ser mais
humana e menos moralista, fazer mais e criticar menos, observar mais e julgar menos. E
se alguém quebrar a cara? Vou estar aqui, para fazer os curativos, se quiserem, é claro.
Não quero ser o Joãozinho do pé certo, que isso não é missão, chega a ser arrogância.
Serei mais aristotélica e menos platônica: não o ideal, mas o modelo. Se quiserem fazer
como eu, façam. Se não quiserem, vão catar coquinhos. A realidade geralmente é mais
eficaz que um ombro amigo: ninguém entende o valor de um aconchego, se ainda não
levou rasteira do próximo. Afinal, só levanta quem já caiu. E levantar é aprendizado.
Evitar a queda nem sempre é proteção.
Joaninha do pé torto irá caminhar por esse mundo aos trancos e barrancos saltando
obstáculos e desviando das pedras no caminho. Diante daqueles que não me abrem
portas, permanecerá em pé, como um monumento à ignorância alheia. O tempo – de
espera – oferecerá todas as ocasiões para mostrar quem se recusa a abrir e quem tem a
paciência de esperar. Diante daqueles que se recusam a oferecer um copo de água – sim,
na vida há quem receba um hóspede e não ofereça nem mesmo um copo de água, que se
dirá de um cafezinho – Joaninha irá carregar a sua própria garrafinha: o ser humano é
um projeto com muitos bugs, não adianta reclamar, é preciso corrigir as rotinas. Diante
daqueles que acham tudo óbvio, Joaninha do pé torto verá a maravilha dos pequenos
detalhes. A arte de viver é cancelar normalidades, dando e peso e contrapeso aos
fenômenos. É preciso desacostumar o olhar e desabituar-se às grosserias cotidianas, sem
perder a ternura jamais!
Será um ano de muita ação, pois são os fatos que transformam o mundo, não as boas ou
más intenções. Aliás, rancor é atraso de vida, o bom é agir, inspirar e fazer acontecer.
Joaninha repetirá para si: o melhor erro é ter tentado, o pior é ficar olhando o planeta
rodar. Também dirá: só erra quem faz. Os perfeitos podem ostentar a sua imobilidade, o
dogma do “não é comigo, não sei, não vi, não me interessa”. Joaninha sabe que ser
humano para valer comporta tropeços e exige honestidade para aprender com os seus
vacilos.
A promessa é grande, mas o ano é longo. Urge dar o primeiro passo. Não olhar para
trás. Não se acomodar diante do cansaço. Não desistir dessa enorme aventura que é
permanecer humano sem cair em automatismos, normalizações, ignorâncias, remorsos,
teimosias. Fazer, cair, levantar. Deixar que os outros façam, caiam, levantem. E que cada
um tenha a força de assumir os seus próprios atos e a humildade de pedir ajuda, quando
cansar de tentar bastar-se a si com orgulho inútil.
Gislaine Marins
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