Crônica de um carnaval
Gislaine Marins
Já não se faz carnaval como antigamente em Roma! Esses primeiros vinte e cinco anos do novo século transformaram para melhor a cidade.
No início dos anos 2000, lembro de uma iniciativa muito tradicionalmente italiana, com os grupos fantasiados, parecendo que tinham acabado de sair de um baile em Veneza. Como diríamos no Brasil: um desfile para inglês ver.
Nos mesmos anos, assisti a uma apresentação de um grupo brasileiro caracterizado bem ao gosto dos turistas estrangeiros no Brasil: uma batucada, muitas plumas, poucas roupas e um frio de rachar. Haja entusiasmo para trazer o carnaval do Rio para o gelo de Roma em fevereiro.
Depois, houve um vácuo, como se a ideia de carnaval estivesse congelada ou substituída por outras festividades muito seguidas por aqui: o dia de São Valentim, o festival de música de San Remo, a pouca vontade política de colocar nas ruas o sentimento popular.
Carnaval, carnaval mesmo, voltou em 2015. Uma brasileirada animada, um bar popularíssimo, um bairro que é a própria cara do romano do povo e pronto: fez-se a magia. A praça San Calisto foi tomada pelas crianças e pelos adultos com aquela espontaneidade e aquela alegria que a gente conhece no nosso carnaval de rua. O espaço tornou-se palco das inversões que expõem as contradições sociais e a necessidade de ver a cara das pessoas reais, geralmente limitadas à representação como números nos grandes projetos de governo.
Este ano aconteceu algo diferente e animador: o carnaval espalhou-se. Eu estava a caminho de uma roda de samba, expressão que os italianos já aprenderam a repetir em português e a curtir na sola do pé, quando me deparo com o desfile de um grupo do bairro. Tinha até carro alegórico, denunciando o avanço da cultura do petróleo em detrimento do valor da vida. Entrei no meio dos foliões e fui subindo a lomba no ritmo da música italiana até que nos separamos na esquina: o bloco seguiu à esquerda e eu virei para o outro lado para cair no samba. Como era de esperar, o espaço no local era pouco para tanta gente. Parte do público ocupou a rua e outros ocuparam o bar à frente, de onde era possível continuar a sambar e a se divertir.
Mas o carnaval não parou por aí. Lendo os avisos do distrito, vejo outras iniciativas organizadas pelos residentes. Hoje está previsto um carnaval antirracista numa praça que se tornou símbolo da resistência dos moradores a grupos que fazem da segurança um instrumento ideológico. O caso ocorreu há poucos meses: um grupo anunciou que organizaria rondas para controlar as ruas e prontamente os moradores organizaram na mesma hora e local uma manifestação para combater a discriminação. Então, aqui também temos carnaval como consciência social e como alegria de viver juntos.
A fome de carnaval está nas escolas, nas academias. O povo está caindo na fantasia para desmascarar um clima sufocante e histérico em relação à tal segurança. A última novidade é um projeto parlamentar que propõe a criminalização da expressão “Palestina livre” e a introdução de cursos de formação para explicar aos jovens o perigo dessa frase.
Realmente, é muito perigoso estudar a história das complexas relações que levaram à criação do Estado de Israel e à explosão da questão palestina. Se as pessoas estudarem bem, irão descobrir que o conflito atual tem raízes na Segunda Guerra Mundial, que quase ninguém pode invocar inocência nesse caso, que o Ocidente e os países árabes estão implicados na questão e que falar de paz com seriedade requer um percurso longo, um mea culpa gigantesco dos envolvidos e uma honestidade diplomática implacável para aplicar os princípios que unem os países nas Nações Unidas. Estamos bem longe disso, visto que os interlocutores continuam a propor soluções sem ouvir todas as partes.
Resta ao povo o carnaval, essa festa que mais séria não pode ser, pois é um dos poucos espaços em que a fantasia não está sujeita à censura e pode mostrar por meio de cores, volumes e texturas aquilo que já não nos deixam falar.
Gislaine Marins
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