Se melancia crescesse em árvore
Gislaine Marins
Haverá um motivo pelo qual melancias não dão em árvores, mangas não se esparramam pelo chão feito abóboras e médicos não são micreiros. A natureza é sábia, ainda que as suas leis não sejam explícitas. Nós, pelo contrário, gostamos de viver embalados na realidade como se fôssemos cinderela, mas de repente o relógio toca e o sonho acaba.
O relógio do mundo anda meio atrasado, motivo pelo qual tem gente que acorda, lê uma notícia qualquer e imediatamente se torna especialista no assunto. Comenta, publica, reclama, ofende e invoca a mirabolante liberdade, já tão esculhambada que mais parece chavão de subliteratura.
E lá vamos nós, dizendo adeus às responsabilidades sobre aquilo que afirmamos e defendemos como Camilo, de Machado de Assis, dizia “adeus, escrúpulos!”. Como é fácil ser superficial nos dias de hoje! Como é fácil colocar uma máscara social durante trezentos e sessenta dias por ano, para mostrar o que realmente somos somente no Carnaval. É palhaçada, sim.
Por exemplo, anos atrás, conheci um porteiro que vivia em uma situação de informalidade atroz. Nada de contrato de trabalho, nada de assistência social, nada de visto. Era o que chamamos de “imigrante clandestino” aqui na Itália. Havia pessoas que aconselhavam, indicavam soluções para regularizar a sua situação migratória e trabalhista. No entanto, nem tudo dependia dos conselhos. A vida também depende de quem vive em primeira pessoa e das condições reais. As condições eram péssimas e adversas, mas o sujeito também não se ajudava.
Era o tipo de pessoa que poderia ser descrito como alienado ou alpinista social, dependendo do ponto de vista. Para quem observava a sua impreparação para compreender o problema jurídico no qual estava mergulhado, ele parecia uma pessoa ignorante, sem condições para resolver de maneira eficaz a sua situação. Para quem notava a sua inclinação para esperar favores e a sua ingenuidade em mostrar-se prestativo, ele era visto como um homem crédulo, mas também ambicioso.
Pois bem, um dia apareceu a chance que ele esperava. O chefe da instituição onde ele trabalhava trocou de emprego. A distância entre a porta e o gabinete da chefia era pouca, apenas algumas salas e um longo corredor. O telefone continuava a tocar, mas já não havia para quem transferir as ligações. Então o porteiro teve a brilhante ideia de sentar na cadeira vazia, dando informações e indicações, assinando papéis que chegavam à instituição e distribuindo ordens superiores. Afinal, “the show must go on”, o trabalho não pode parar.
Imaginem o que aconteceria se os recepcionistas do pronto-socorro resolvessem tratar os pacientes porque os médicos estão muito ocupados. Imaginem se soldados entrassem nas escolas para ensinar história porque os professores não são simpáticos. Imaginem se as melancias crescessem em árvores e ao bater da meia-noite se esparramassem sobre a cabeça dos passantes.
Por sorte, essa não é a nossa história. Juristas são juristas, jornalistas são jornalistas, professores são professores, tradutores são tradutores. Apesar disso, há muitos juristas, jornalistas, professores e tradutores como o nosso porteiro: exercem abusivamente a profissão. Um certo dia, chegaram notícias da sua atuação às esferas superiores: pediram ao porteiro os documentos, os requisitos, as competências. Ele não tinha nada, como uma manga caída do pé.
Talvez seja o momento de pensar com seriedade na regulamentação das redes sociais, bem como das profissões que ainda não possuem um conselho ou uma ordem. A regulamentação não é censura, é uma medida para proteger quem precisa de informações e serviços, com a garantia de quem tem formação e competência no assunto.
Em tempo: um micreiro não é um engenheiro informático e muito menos um médico especializado em microcirurgia. A ingenuidade e a ambição do porteiro foram arrastadas pela realidade da demissão imediata, sem apelação, sem amigos e proteções que pudessem salvá-lo. Mas será que ele se salvou da ignorância e da alienação?
Gislaine Marins
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