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Usos de por e para

Há 24 horas
Usos de por e para

Gislaine Marins

 As melhores lições de gramática são as que servem para a vida.

Os usos de por e para, por exemplo. Graças a uma qualidade que frequentemente se torna muito útil, esqueço nomes e datas seletivamente. Portanto, não nomearei a protagonista e a data do episódio, que realmente ocorreu, para meu desencanto. Era uma professora e trazia para os alunos os trechos mais interessantes de obras, às vezes já sublinhadas, e distribuía para leitura e discussão. Usava sempre uma premissa, quase a pedir desculpas, por não abordar a obra inteira, afinal era muito difícil (e os alunos eram muito inexperientes para lançarem-se em grandes voos interpretativos). No fim das contas, os estudantes saíam com algumas noções básicas e fundamentais, mas especialmente com a certeza de que era muito difícil.

Passados alguns anos, encontrei alguns colegas na universidade e percebi que estavam bem instruídos, mas antes de iniciar qualquer análise faziam questão de sublinhar que era muito difícil.

Não sei se a vida é difícil, sei que é complicada. Uma das complicações para resolver os problemas da vida está na convicção de que tudo é muito difícil, exatamente como a professora com tanta boa vontade e tantos resumos explicou. O problema é que a vida não vem com síntese do chatgpt incorporada. Realmente, muito difícil.

Outra lembrança que guardo seletivamente é da professora Regina. Ela não fazia nada para os alunos. Ainda assim, era considerada boa, aliás excelente. Certa vez, ao comentar uma obra, ela declarou: "se alguém nunca leu, vá correndo quietinho para casa e se apresse a ler para não passar vergonha". Isso é fazer por: explicar que um professor pode (e certamente deve) perdoar os erros dos estudantes, porém deve avisar que na vida não existe redenção.

Quando deixamos de ser aprendizes, as pessoas esperam que num passe de mágica a gente saiba e faça tudo. Senhores, o fim é só o começo. Quando a gente pega o diploma, podemos abaixar a cabeça e com muita determinação trilhar um caminho, buscar respostas, encontrar soluções. A experiência não se adquire ocupando passivamente uma cadeira, mas criando, geralmente com um bocado de obstáculos e pessoas remando contra.

Então, se alguém acha que vale alguma coisa pendurar diploma na parede e dar carteiraço, está muitíssimo enganado. Diploma é requisito, não atestado. Na vida é necessário apresentar o título e então soltar o verbo. Uma coisa não vive sem a outra, para desilusão daqueles que acham que a experiência substitui a educação formal e para os ingênuos que acreditam que um canudo basta para comprovar competência.

Sobre o autor

Gislaine Marins

É doutora em Letras, professora, tradutora e mãe.

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