Agora me caiu os butiá da língua!
Gislaine Marins
Confesso: sou fã do professor Marcos Bagno. Com a mesma paixão com que defende a diversidade de registros linguísticos, é afiadíssimo ao criticar aqueles que, devendo conhecer e usar adequadamente a língua, preferem não fazer isso. Quando estou mergulhada em dúvidas e condescendências fonéticas, abalada democraticamente por escolhas lexicais que parecem distantes do meu horizonte semântico, dou uma olhadinha nas reflexões do Marcos Bagno e, na dúvida, me belisco para ter certeza de que não virei uma múmia sintática.
Eu fico prometendo a mim mesma que quero ser compreensiva e abraçar todas as expressões que tornam a nossa língua tão variada e colorida, mas tropeço em coisas que me dão pena porque não são exatamente exemplos de uma linguagem coloquial, são sinal de falta de oportunidades arraigadas nos dedos, incapazes de digitar corretamente certas palavras.
Pergunto aos meus alunos por que expressões como “me caiu os butiá do bolso” são não apenas regionalismos, mas uma característica do falar popular do Brasil. Alguns respondem justamente que o português usado no Brasil absorveu características de outras línguas, as africanas, por exemplo, cuja estrutura prevê o plural no início da expressão nominal, sem necessidade de flexão dos demais termos. Muito bem. E se a pessoa escreve “iscola”? Ela está escrevendo como ouve, porque não teve acesso ou o acesso que teve à educação formal não permitiu que interiorizasse aquela regra básica da nossa língua, segundo a qual a palavras que parecem ter um “i” inicial, geralmente são escritas com “e”. Então, “igreja” está errado? Não, igreja é com “i” mesmo. O português tem dessas coisas, porque é uma língua com história e sedimentação.
Daí aparece o meu lado crítico, que costumamos calar para não sermos chamados de antipáticos, pouco nos importando que sejamos hipócritas. Aí vai: com todos os descontos possíveis (salário baixo, desaparecimento dos revisores das redações, tsunami de inteligência artificial que chega a corrigir o que está correto porque a artificialidade não analisa, apenas conta), dá para perdoar profissionais da língua que não sabem a diferença entre o indicativo e o subjuntivo? Dá para ignorar quem, com o pretexto de usar uma linguagem familiar para o público, abdica de uma palavra rara para não ser pedante?
Vejamos bem, nem toda palavra difícil é feita para complicar a vida das pessoas. Algumas são necessárias. Se alguém recebe uma herança, é obrigatório falar de disposições testamentárias. Quem recebe um diamante precisa saber que não está ganhando um brilhante qualquer, embora alguns diamantes possam ser brilhantes.
A língua é assim: acessível, democrática e ao mesmo tempo rara e brilhante. Há palavra, entoação e nuance para todos os gostos e circunstâncias. Há palavras mais ou menos adequadas para cada contexto. Não é questão de pedantismo, é questão de respeito. Quem fala com o público precisa respeitá-lo e o respeito começa por garantir o direito do outro a ter contato com uma língua aberta aos sentidos. Acho realmente que quem se limita ao próprio jeito de falar não está prestando um serviço ao leitor, está transformando a escrita em mero espelho da própria vaidade. Escrever exige humildade e respeito por quem lê. Exige o jogo limpo de desafiar o leitor em territórios desconfortáveis, capazes de desvendar novos saberes.
Eu acho linda essa expressão gaúcha, que denota surpresa e incredulidade: “me caiu os butiá do bolso”. Isso, porém, não me dá o direito de usá-la em qualquer contexto e com qualquer interlocutor. Eu não tenho que impor e, principalmente, não devo impor a minha forma de falar aos outros. Isso não é afirmação de identidade ou de registro linguístico: com frequência é simples afirmação do próprio ego.
Gislaine Marins
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