Oitocentos anos
Gislaine Marins
Há oitocentos anos, Francisco de Assis ingressava no mundo dos mortos e deixava à humanidade uma lição eterna: a pobreza como modo de estar no mundo.
Fora do meu campo de estudos, sou uma simples leitora, como qualquer um. É nessa dimensão que encontrei na minha juventude, frequentando as bibliotecas do Sesi e do Sesc, em Porto Alegre, um dos livros mais comoventes da minha vida: O Pobre de Deus, de Nikos Kazantzakis. Naqueles anos, o seu nome tinha-se popularizado por causa da versão cinematográfica do seu romance A última tentação de Cristo, uma obra que exalta a dimensão humana que Jesus possuía, a partir de uma perspectiva demasiadamente humana. A publicação valeu a excomunhão de Kazantzakis da Igreja ortodoxa e o romance também acabou no Índice da Igreja Católica.
Talvez esse romance pudesse ser relido hoje numa das perspectivas mais interessantes da experiência humana: a dimensão da dúvida. A dúvida bem cultivada é um exercício profundo que suspende o nosso juízo, expõe as nossas limitações, desafia a nossa coragem, exige rigor de conhecimento para ir além. A dúvida é extremamente humana e escapa do maniqueísmo, sem deixar que nos iludamos com respostas de tipo sim-não, abrindo-nos ao talvez. A dúvida torna o nosso pensamento preponderadamente abstrato, irredutível à logica da inteligência artificial, que é rápida, mas excludente, visto que a capacidade de controle dos algoritmos é um privilégio de poucos. Quem acolhe passivamente as respostas da inteligência artificial delega em boa parte o dom humano para a reflexão, o livre arbítrio, a possibilidade de erro e de autocorreção. Por isso, aquele Cristo de Kazantzakis, vulnerável que quase cai na tentação de uma vida humana, é, na sua aceitação derradeira de morrer na cruz, um exrmplo excelso de percurso humano que mergulha no sentido da existência e dali extrai a sua verdade.
Apesar disso, o romance de Kazantzakis que resta de forma mais nítida na minha memória é O Pobre de Deus, na qual o escritor repercorre a trajetória de Francisco de Assis. A figura que emerge da narrativa é gigantesca na sua fragilidade, na renúncia aos bens materiais e na incrível capacidade de fazer e de ser em cada coisa que faz. Toda a experiência de Francisco deixa marcas no corpo, que se consome enquanto o seu pensamento se ilumina. Kazantzakis consegue revelar que a herança de Francisco pode ser intangível e ainda assim eterna: ele deixa uma mensagem, palavra que convida à transformação da nossa vida para um patamar plenamente humano, integrado, sem dicotomias.
O humano para Kazantzakis não está em ir além da dor, está em entender o seu sentido. Há uma profunda interligação entre corpo e mente e agora já não falamos do Cristo, mas de um homem que trilhou humanamente o caminho para a santidade.
O oposto do Pobre de Deus é o nosso Augusto Matraga, do genial Guimarães Rosa. Matraga também passa por uma transformação e a certo ponto afirma com decisão : "eu vou para céu, nem que seja a porrete!" Falta a Matraga a postura de Francisco de Assis, segundo a qual não nos é pedido esforço, mas compreensão, não é exigida a força, mas a contemplação, não é esperada a vitória, mas a graça. Nesse percurso, Francisco de Assis oferece uma visão da paz, esse estado que tanto almejamos nesse mundo mergulhado em conflitos.
Kazantzakis me fez pensar em tudo isso. Seria um bom livro para reler nesse ano em que se celebram os oitocentos anos da morte de São Francisco de Assis e em qualquer momento da nossa existência, quando nos interrogamos: "por que tudo isso?" e desejamos com sinceridade encontrar uma resposta que faça sentido para nós e para a humanidade.
Gislaine Marins
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