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Na leitura de mundos, a figura cristã de Paulo Freire

Há 4 meses
Paulo Freire: testemunho cristão
Paulo Freire: testemunho cristão (foto por Brasil De Fato)

Haveria infinitas maneiras de apresentar Paulo Freire, especialmente no centenário de seu nascimento que será celebrado no Brasil e no mundo durante este ano de 2021.

Poderíamos evidenciar sua trajetória desde sua cidade natal, o Recife da década de 1920, e traçar seu perfil acadêmico até o merecido reconhecimento de “cidadão do mundo”. Poderíamos elencar suas publicações e tecer comentários sobre cada uma delas, apontar seus efeitos, reconhecendo a magnitude de seus conteúdos e a extensão da pluralidade de sua aplicabilidade em todos os entremeios do processo educacional que atingem suas variantes, considerando, inclusive, os níveis de escolarização e de faixas etárias.

Sim, poderíamos encontrar muitas maneiras, cada uma mais singular que a outra, de falar sobre Paulo Freire. Porém, queremos apresentá-lo tomando como referência um verso apenas de uma canção do nosso múltiplo artista paraibano de Catolé do Rocha, Chico César, na sua canção “Beradêro” a qual, como típico aboio nordestino, melodia que o vaqueiro entoa para tanger o gado, canta: “... E a cigana analfabeta, lendo a mão de Paulo Freire...”

Mas, o que tem a cigana, e sobretudo analfabeta, com Paulo Freire? Ora, é na tradição deste povo que encontramos a “quiromancia”, um conhecimento milenar e exclusivamente matriarcal. Para os ciganos,

 Nossas mãos são pedaços de um velho pergaminho que no caminho para o céu o Senhor resolveu rasgar... e o vento tratou de espalhar. E foi nas linhas tortas das palmas de nossas mãos que o certo e o errado Ele escreveu... Somente saberemos a Verdade quando unirmos esses pedaços [...]. (RAMANUSH, 2011, s.p.)

 Aqui não se trata de discorrer sobre a cultura cigana, muito menos sobre um dos aspectos desta cultura, a quiromancia. Trata-se, apenas, de constatar – e admitir – que existem “saberes” tão diversos, tão singulares, tão pertencentes aos povos de todas as latitudes, que é impossível desconsiderá-los ou tentar colocá-los dentro de nossas caixinhas como se possível fosse aprisionar sabedorias. Além disso, quando a cultura cigana sugere que será a partir da junção de “dois pedaços”, portanto, das duas mãos, que se conhecerá a verdade, podemos intuir que os “saberes” não estão acabados em si mesmos. Eles são processuais e precisam de complementariedade que nasce quando ousamos sair dos nossos quadrados, das nossas caixinhas e olhamos pelo menos o nosso entorno.

“E a cigana analfabeta...” possui saberes. Não tem a menor importância se enfrenta crenças ou descrenças. Isso não pertence à cigana. O que tem valia, para nós, para não nos apequenarmos enquanto seres humanos, é a compreensão da existência de tantos desses saberes e, sobretudo, do respeito a eles. Eis o encontro entre a cigana analfabeta e Paulo Freire, o patrono da educação brasileira, “queiram ou não queiram os juízes”, como dizia Capiba, no seu famoso frevo de bloco “Madeira que cupim não rói”. Freire compreendeu saberes e, para além dessa compreensão, percebeu como somente a um educador é possível que tais saberes balizem a leitura e a compreensão de mundos.

Sim, lemos e compreendemos o mundo, primeiro aquele pequenino, porém nosso, muito antes de lermos e compreendermos letrinhas isoladamente, ou em carreirinha (como dizíamos em nossa inocência infantil), formando desde as palavras mais simples àquelas mais complexas que, para sua compreensão, usamos os mais variados dicionários. É encantadoramente poética a forma como Paulo Freire explica essa junção de leituras: aquela de mundo e aquela da escrita.

No esforço de re-tomar a infância distante, a que já me referi, buscando a compreensão do meu ato de ler o mundo particular em que me movia, permitam-me repetir, re-crio, re-vivo, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra [...]. Mas, é importante dizer, a “leitura” do meu mundo, que me foi sempre fundamental, não fez de mim um menino antecipado em homem, um racionalista de calças curtas. [...]. A decifração da palavra fluía naturalmente da “leitura” do mundo particular. Não era algo que se estivesse dando superpostamente a ele. Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz. (FREIRE, 1989, p. 10-11)

 É nessa consciência da existência de saberes, nessa leitura de mundo que precede aquela da escrita, nesse chão transformado em quadro-negro, nesse graveto metamorfoseado em giz, que conseguimos identificar a face mais cristã de Paulo Freire.

Ora, poderão dizer os mais ortodoxos, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ou seja, como uma forma de alfabetização (ou de alfabetizar-se) pode se conectar com a proposta por Jesus Cristo e, por conseguinte, com a vida cristã? Será?

Eis aqui outra perspectiva que gostaríamos de apresentar desse homem-mundo: aquela de um cristão convicto para quem o amor e a esperança são valores fundamentais de todo o processo educacional, cujo tripé de sustentação é a “libertação” como consequência da “humanização” e da “conscientização”.

 Sua pedagogia tem o conceito liberdade ocupando lugar central. Concebe o ser humano a partir de sua capacidade de criar e criticar, enquanto ser inacabado e que busca sua libertação constantemente. Portanto, o pensamento de Freire é influenciado por um Cristianismo alicerçado na liberdade-libertação. (OLIVEIRA, 2018, p. 53)

 Esse cristianismo não se encontra fechado em si mesmo, reduzindo a visão de mundo. É um cristianismo aberto para o mundo cujas simbólicas portas são escancaradas não apenas para que a brisa areje o ambiente e o sol aqueça as estruturas internas, mas, sobretudo, para que as pessoas de dentro vejam as belezas das sementes do Verbo que germinam onde sequer imaginamos, e as de fora, cada uma a seu modo, vislumbrem o sagrado existente nos interiores das estruturas. Aí acontece a troca: leituras de mundos que precedem a escrita e, juntas, salvaguardam a pessoa humana e formam um único mosaico de justiça, paz, solidariedade e fraternidade universal.

A essa altura, é espontâneo pensar a forma como Jesus “educou” o povo do seu tempo e lhes apresentou o Reino, um reino de “libertação”, “humanização” e “conscientização”. Não terá sido por meio de “leituras de mundos”? Isso é, utilizando, em seus diálogos, os elementos do universo circundante? Senão, vejamos: quando quis alimentar a multidão que o seguia, o fez a partir de dois elementos inerentes às gentes – a generosidade de quem tinha “apenas” pães e peixes e o fruto do trabalho cotidiano. O pão, fabricação caseira, característico das atividades matriarcais; o peixe, resultado da pescaria, ofício dos pescadores (Mt 14,13-21; Mc 6,31-44; Lc 9,10-17; e Jo 6,5-15). Ali, a evidência do comunitário, da comunhão, da participação, aspectos necessários para a mudança de vida que todos esperavam.

Outra cena: como e a quem revelou-se Messias? Aproveitando o ato de apanhar água em um poço, atividade corriqueira, e a uma mulher da Samaria. No diálogo que se estabelece de troca de saberes, a partir da leitura de mundo daquela mulher que representava duplamente a escória da sociedade da época (por ser mulher e por ser samaritana), Jesus pôde dizer quem era e a mulher pôde compreender quem estava diante de si. Experimentou a liberdade, reconheceu-se humana e consciente de seu importante papel na construção do Reino a ponto de anunciá-lo ao seu povo e convidar sua gente à mudança: “Vinde e vede” (Jo 4,5-29).

Portanto, não é de se estranhar que homens e mulheres que se arvoraram em trilhar o caminho de uma teologia nascente no seio das inquietações da América Latina, no período pós Concílio Vaticano II (1962-1965), e da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, realizada em Medellín, na Colômbia, no período entre 24 de agosto a 6 de setembro de 1968, tenham assumido que a mensagem evangélica exige uma opção preferencial pelos pobres e reconheceram no pensamento libertário de Paulo Freire alicerces fundantes da Teologia da Libertação. Leonardo Boff, falando sobre esta teologia, afirma:

 Esta vertente utiliza enormemente as contribuições do pedagogo brasileiro Paulo Freire, para fazer com que o próprio povo descubra os caminhos de sua libertação a partir de seus valores, culturas e práticas. Especialmente se aplica à catequese e na pastoral popular. Sem exercício concreto de práticas de participação, de democracia e de libertação, não se pode gestar nenhuma sociedade de homens livres e libertados. (BOFF, 2018, p. 194)

 “E a cigana analfabeta...”? Na leitura de mundos e na troca de saberes entre esses mesmos mundos, nas “linhas tortas de nossas mãos”, o encontro com a mais transparente dignidade da pessoa, aquela mesma dignidade que fez com que a samaritana anunciasse o Reino entre homens e mulheres.

Eis apenas um dos traços da figura cristã de Paulo Freire.

 

Referências

BOFF, Leonardo. Entrevista concedida a Walter Martins de Oliveira para elaboração de sua tese de doutorado. São Paulo: março de 2018. Disponível em: https://bibliotecatede.uninove.br/bitstream/tede/2023/2/Walter%20Martins%20de%20Oliveira.pdf. Acesso em: 29 jan. 2021.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados; Cortez, 1989.

OLIVEIRA, Walter Martins de. Paulo Freire entre Cristo e Marx. Tese (Doutorado). São Paulo: Universidade Nove de Julho, 2018. Disponível em: https://bibliotecatede.uninove.br/bitstream/tede/2023/2/Walter%20Martins%20de%20Oliveira.pdf. Acesso em: 29 jan. 2021.

RAMANUSH, Nicolas. Cultura cigana, nossa história por nós. Embaixada Cigana do Brasil, 2011, s.p.

(Artigo publicado originalmente na revista Ekklesia Brasil, n. 1, ano 2021.)

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Sobre o autor

Jussara Rocha Koury

Doutoranda e mestre em Ciências da Religião, escritora.