Proclamar a Esperança
Antes de tudo, eu quero começar este artigo agradecendo à atual diretoria da SIGNIS Brasil pelo convite para voltar a colaborar com a Agência de Notícias SIGNIS com cujos primeiros passos contribui na nossa condição de seu editor-chefe. É uma alegria e uma honra retomar essa colaboração.
Acabamos de concluir oficialmente o Jubileu da Esperança, mas esse é um tema que não se esgota, haja vista que a esperança só deixará de ter razão de existir quando o Reino de Deus estiver plenamente implantado. Até lá, seguimos em frente, buscando fazer a nossa parte, na esperança de que esse Reino se realize na história!
Inspirado nesse sentimento, resolvi retomar minha contribuição com a Agência SIGNIS com uma breve reflexão sobre o tema. O por assim dizer “gatilho” que me levou a essa temática é algo bastante simples, mas não banal: participo diariamente a santa missa e, por vezes, em diferentes paróquias com as quais tenho tido contato, costuma brotar em mim um sentimento pessimista sobre a nossa fé. Um dos motivos frequentes para isso provém de certas homilias.
É comum a sensação que, ao dirigir-se à assembleia, o celebrante parece partir da premissa: “Vocês são culpados até que se prove o contrário”. Tive a impressão de que essa postura se acentuou nos últimos tempos – arrisco dizer – talvez fruto dessa maldita polarização político-ideológica. Parece-me que muitos católicos, a começar do clero, resolveram que salvar a Igreja das ideologias é apegar-se a preceitos e, em especial, a formas e fórmulas com as quais a maioria de nós não está minimamente apto a seguir.
Como somos todos sempre “servos inúteis e infiéis” e – reconheçamos – a vida do Evangelho é bastante exigente, sobram chamadas de atenção para as nossas imperfeições, que vão de posturas inadequadas liturgicamente a pecados graves, em particular, de ordem moral.
A rigor, nenhuma novidade. O problema é que as narrativas tendem a ser sempre pesadas e o sentimento que brota é que jamais seremos fieis aos olhos de Deus. Certo policiamento moral e religioso insiste em olhar apenas para os nossos pecados e inadequações, e parece restar muito pouco espaço para a esperança, para a perspectiva da misericórdia e de um olhar positivo de Deus e da Igreja sobre os seus filhos. Também parece haver pouca referência a uma postura proativa na experiência de fé.
É evidente que sou contra esse “oba-oba” de uma religiosidade light e descompromissada, que mais tem a ver com autoajuda do que com uma experiência de fé autêntica. Também não quero dizer com isso que devemos pular as páginas do
Evangelho em que Jesus claramente nos puxa a orelha por conta da nossa incompreensão e infidelidade ao seu Evangelho.
Mas, diante de tanta chamada de atenção que – com frequência – ouço nas celebrações, não estranho porque muita gente está fora da Igreja, já que não vê nela, ou melhor, não vê em nós, pessoas de fé, sinais de esperança, de que vale a pena seguir a Cristo, de que isso nos faz bem e felizes.
Então, naturalmente, certas homilias precisam ser revistas, assim como certas posturas, sobretudo nesse espaço particular de relação com o sagrado que são as igrejas. Bom, boa parte dessas homilias já seriam melhores se fossem minimamente preparadas. Mas, à parte as denúncias, as reflexões críticas, sempre necessárias, é preciso uma palavrinha de esperança, algo que nos motive à fidelidade a Cristo. Pequenos testemunhos, talvez, agregariam ao discurso essa luz que, me parece, falta a muitos dos discursos de quem deveria nos guiar no caminho da esperança.
Justiça seja feita, no entanto, graças a Deus nem todos os sacerdotes seguem essa cartilha carrancuda. A esses que nos ajudam de fato a caminhar em feliz sintonia com Cristo, meu singelo obrigado.
Luis Henrique Marques
Jornalista, historiador e licenciado em Letras Português-Espanhol. É mestre em comunicação e doutor em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), este último com estágio feito pela Universidad de León (Espanha). Tem pós-doutorado em comunicação pela Faculdade Casper Líbero, de S. Paulo. É concluinte do curso de bacharelado em Teologia pelo Centro Universitário Claretiano. É membro do Grupo de Educomunicação e Pesquisa da SIGNIS Brasil e do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religiões da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom). É editor-chefe da revista Cidade Nova e coeditor do portal Ekklesía ALC, coordenador nacional e membro da comissão internacional da rede NetOne, do Movimento dos Focolares. É ex-editor-chefe da Agência SIGNIS.
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